Perdido

 

“Depois da noite de amor, ofereceu-lhe o coração e ela usou como cinzeiro.”

 

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Aproveitando o surto produtivo do Wesley Samp, aqui está um microconto meu ilustrado por ele. =)

Tem mais Samp em seu site Os Levados da Breca.

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Luísa

Conheceu Luísa havia quase dez anos.gty_eye_writing_jef_120726_wg

Foi a primeira vez que ela entrou em sua vida.

Não que fosse a mais bonita, ou a mais popular. Mas ela tinha uns olhos estranhos. Muito escuros e redondos, por trás das pálpebras. Do tipo que, quando encaram, você afunda e se deixa levar pelo turbilhão. Creio que Machado entenderia.

Em volta dos olhos escuros, havia uma pele morena, cabelos encaracolados e o sorriso lindo que ele lutou durante muito tempo para conquistar um novo a cada dia.

O turbilhão durou anos. Foi do colégio à faculdade girando no mesmo redemoinho, onde o vórtice eram os olhos dela. Continuar lendo

Intocável

Já nos bastidores, pendurou a câmera no pescoço, colocou as lentes nos bolsos do colete, ao lado das baterias e dos rolos de filme.

Em tempos de efemeridades e retoques digitais, ele era uma pessoa analógica. Gostava do raciocínio que os contrastes, luzes e cores perfeitos demandavam, sem recorrer aos artifícios de editores de imagem.

Aquele espetáculo seria o maior do ano e ele não poderia deixar passar um único momento sequer. Não bastasse o tamanho do evento, o dia trazia outra importância para si: marcava exatos 12 meses que conhecera, ali, naquele mesmo palco, a mulher pela qual era apaixonado. Continuar lendo

O homem indiferente

O homem indiferente acordou sem notar que sua música favorita tocava no rádio-relógio que era do pai. Andou um tanto trôpego, esfregando os olhos até o banheiro e, quando tirou o pijama, não viu que um botão pulou fora e foi quicando até o ralo do chuveiro.

Tomou banho com o sabonete de sempre e não reparou no shampoo que estava quase no fim. Por pouco não tropeça no tapetinho embolado na frente do boxe. Continuar lendo

O cara das Mentirinhas

Uma vez, não me lembro onde, li que os artistas têm o dom de ver coisas que ninguém mais é capaz e, por isso, cabe a eles mostrar tais coisas ao mundo. As palavras não eram exatamente essas, mas a essência da ideia tá aí.

Começo com essa introdução pois um dos meus amigos tem usado de seu talento para expressar tais detalhes do mundo, de uma maneira que tem me tocado muito.

Devido à qualidade de seu trabalho, tenho certeza de que a maioria de meus leitores já o conhecem, através do site Mentirinhas, onde ele posta tirinhas feitas em sua maioria de um humor peculiar e ironia finíssima.

Porém eu venho destacar o lado mais sensível do Fabio Coala, que tem sido postado em pequenas doses no mesmo site. E em cada uma delas, tem me tocado tanto, que descobri porque esses posts vêm só de vez em quando. Continuar lendo

A senhora do brinco de pérola

No dia do meu aniversário, acompanhei meus avós ao médico.O hospital era na capital, e eles ficam inseguros de desbravar o metrô paulista, com sua infinidade de linhas e estações novas.Eu não sabia muito bem como chegar lá, mas tecnologia é pra essas coisas mesmo e com o Google Maps, mais o GPS chegamos sãos e salvos ao destino.Enfrentamos a área metropolitana, com suas pessoas apressadas, multidões que se movem como cardumes e filas. Muitas filas. Olhando esse mar de rostos, entendemos de onde surgem os clichês e o porquê de esquecermos que cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.Passamos pelo mundo como se todos que nos cercam fossem apenas mais um. Porém são nossas experiências que nos fazem únicos, e principalmente, é justamente essa individualidade que nos faz iguais.

Enquanto esperava meu avô ser atendido, duas senhoras – ambas entre setenta e cinco e oitenta anos – se sentaram ao meu lado e a mais delicada, de cabelo louro e brinco de pérola, falou-me sobre a insônia que enfrentara aquela madrugada.

_Acordei uma da manhã e não dormi mais. Então levantei, faxinei a sala e passei toda a roupa, até ela acordar – e apontou para a irmã ao seu lado.

A outra acrescentou que viviam juntas desde sempre e a irmã era muito mais organizada que ela, com mania de limpeza. Continuar lendo

Presença

Acordou de madrugada e a preguiça não permitiu que abrisse os olhos.Esfregou o rosto, coçou as pálpebras e virou para o outro lado para voltar a dormir, quando suas mãos apalparam o vazio ainda morno, do outro lado da cama. Então abriu os olhos.

O lençol branco e revolto ainda guardava o calor do corpo que esteve ali deitado nos últimos minutos. A cabeça, que repousava naquele travesseiro, havia esquecido alguns fios lisos e louros.

Houve um ruído de água no banheiro, então ele sorriu levemente, feliz por tê-la ao seu lado.
Era bom acordar de madrugada, com a cama vazia, e saber que ela estaria de volta em poucos minutos, usando uma camisa sua para esconder o corpo nu.

Traria do banheiro o seu perfume de baunilha, as mãos geladas por terem sido lavadas. Ou então o calor do chuveiro na pele macia e coberta de penugem fina.

Quis que o banho acabasse logo, para que ela voltasse e o envolvesse com os braços delicados. Provavelmente sussurraria desculpas em seu ouvido, por tê-lo acordado. De certa forma ele gostava dessa ausência que logo seria preenchida pelo brilho que ela trazia para sua vida. Continuar lendo

Satisfação

Enquanto subiam as escadas para o primeiro andar, ela sentia o celular pressionando-lhe a nádega, de dentro do bolso traseiro. Depositou as malas que carregava em cima da cama e virou-se para ajudar o namorado, que trazia as mais pesadas. Ele sorriu agradecido e deixou um beijo leve em seus lábios. Ela sorriu de volta.Ele voltou para trancar o carro e ela se sentou nos degraus da varanda. O rapaz avisou que iria tomar um banho e ela acenou com a cabeça.Tirou o celular do bolso e ficou olhando-o por um bom tempo, mas só teve coragem de discar os primeiros números quando ouviu a porta do banheiro se trancando.Ouviu chamar uma e duas vezes. Desistiu constrangida, desligando o telefone. Já tinha se arrependido do gesto, quando o celular tocou. O mesmo número que havia discado, minutos antes, piscava insistentemente na tela. Decidiu atender no último toque antes da ligação cair na caixa postal e a voz falhou no “alô”. Continuar lendo

Um amor de verdade

Eu sempre fui a garota dos clichês.

Aquela que sempre acreditou que um clichê tem mais do que o óbvio a nos dizer. Sempre acreditei que um clichê dito é apenas isso, algo que todo mundo já sabe. Mas um clichê vivido deixa de ser apenas uma frase feita, para ganhar uma nova essência, dessa vez unido à experiência. À sua pessoal e íntima experiência.

E embora, quando escrevo, eu busque fugir dos lugares comuns tudo o que sempre quis na vida foi viver um clichê. Não canso de repetir que a felicidade está na simplicidade, na busca e não no fim. Seres humanos nunca deixam de querer. Sempre estão em busca, ambicionando, desejando. E não percebem que a felicidade é justamente esta: lutar, correr atrás, querer, trabalhar. A conquista é o êxtase, mas é passageira. Não traz felicidade. E é por isso que eu nunca quis apenas um amor, mas um parceiro de viagem. Continuar lendo

A razão

Desculpa interromper o seu feriado, mas é que a saudade não me dá um minuto de trégua.

Me acostumei a fazer parte dos seus dias e agora não é mais a mesma coisa dormir, sem a certeza de que no meio da noite você vai me puxar pra perto de si e aninhar entre seus braços.

É que eu quero te contar sobre cada vez que o tempo muda por aqui. Porque tá frio e você prefere o frio, não é? E quando chove eu lembro de você dizendo, irônico, que estava odiando ter que passar o dia na cama comigo.

Tentei ouvir umas músicas pra passar o tempo, mas minha playlist está toda impregnada de momentos nossos. E os momentos ociosos, eu queria passar vendo algum filme que você baixou ou aquela série engraçadinha que passa toda hora na sua nova tv gigante, sabendo que só tenho que ir até ali na sala pra te ver. Até mesmo o cheiro da minha própria pele me trai, porque falta o cheiro do seu suor misturado nele. Continuar lendo