Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

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Prisioneiro

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Tem mais Wesley Samp no Os Levados da Breca =D

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo

Leia-me: O Vampiro de Curitiba

1016081-250x250A minha relação com esse livro sempre foi estranha, nos mais variados aspectos.

A primeira delas: eu nunca tinha ouvido falar de Dalton Trevisan, até fazer um teste por brincadeira, para saber qual livro tinha mais a ver comigo e o resultado deu justamente O Vampiro de Curitiba, o que eu achei bastante peculiar.

Alguns anos depois encontrei-o em uma livraria e resolvi levá-lo. Para minha surpresa era muito fino e foi lido em menos de uma tarde.

E “estranho” continua sendo a palavra para definí-lo. Dalton é cruel, violento e impiedoso. Mas não pensem vocês que se trata de um livro sobre monstros ou de violência sanguinolenta e física. Continuar lendo

Luísa

Conheceu Luísa havia quase dez anos.gty_eye_writing_jef_120726_wg

Foi a primeira vez que ela entrou em sua vida.

Não que fosse a mais bonita, ou a mais popular. Mas ela tinha uns olhos estranhos. Muito escuros e redondos, por trás das pálpebras. Do tipo que, quando encaram, você afunda e se deixa levar pelo turbilhão. Creio que Machado entenderia.

Em volta dos olhos escuros, havia uma pele morena, cabelos encaracolados e o sorriso lindo que ele lutou durante muito tempo para conquistar um novo a cada dia.

O turbilhão durou anos. Foi do colégio à faculdade girando no mesmo redemoinho, onde o vórtice eram os olhos dela. Continuar lendo

O ponto

alone-calle-chica-choices-chuva-city-Favim.com-38973No meio do caminho para o ponto de ônibus a chuva começou a cair.

Tudo nessas horas é relativo. A metade do caminho pode ser muito longe se o caminho todo tem coisa de dois quilômetros e também pode ser bem perto, caso o ponto de ônibus fique a menos de cinquenta metros do ponto de partida. Ainda assim, a distância a ser percorrida é relativamente proporcional à intensidade da chuva, seja essa distância dois quilômetros ou dois metros.

No meu caso foram dez metros que bastaram para que eu me abrigasse já ensopada sob o telhado do ponto.

Sob ele também se escondia um rapaz, de boné e regata vermelhos. Ele trazia um carrinho daqueles de sacoleira, onde se encaixa na parte metálica bolsas, caixas e outras coisas ruins de carregar e se prende tudo com uma corda elástica, que tem dois ganchos, um em cada ponta. O carrinho trazia umas três caixas, já todas deformadas pela tensão do elástico e, provavelmente, por uma viagem longa. Continuar lendo

Carta ao homem da rua

Olhando assim, de fora, até que eu sou bem comum.

Não costumo chamar a atenção por motivo algum, seja pela forma como me visto ou como me comporto. Não sou o tipo de mulher que é a primeira a ser abordada pelos caras em uma festa. Na verdade estou mais para aquelas a quem eles recorrem depois de já terem levado um toco e estão nas fronteiras do estar bêbado.

Enfim. Duvido que alguém me olhe duas vezes.

Talvez isso tenha facilitado o desenvolvimento de uma mania meio boba, que eu tenho: escrever cartas que nunca serão enviadas. Continuar lendo

Intocável

Já nos bastidores, pendurou a câmera no pescoço, colocou as lentes nos bolsos do colete, ao lado das baterias e dos rolos de filme.

Em tempos de efemeridades e retoques digitais, ele era uma pessoa analógica. Gostava do raciocínio que os contrastes, luzes e cores perfeitos demandavam, sem recorrer aos artifícios de editores de imagem.

Aquele espetáculo seria o maior do ano e ele não poderia deixar passar um único momento sequer. Não bastasse o tamanho do evento, o dia trazia outra importância para si: marcava exatos 12 meses que conhecera, ali, naquele mesmo palco, a mulher pela qual era apaixonado. Continuar lendo

Presente

Eram três da tarde, quando entrou na loja estranha.

A semanas passava quase diariamente por aquela porta estreita e espiava, curioso, pelo corredor escuro e coberto de relógios por todos os lados.

Tinha vontade de entrar lá, algum dia, para dar uma “olhadinha”, coisa que faria em qualquer loja. O engraçado é que o impulso sempre era reprimido pela consciência de que não precisava do que era vendido ali, embora o único relógio que possuía era o que aparecia na tela de descanso do celular. Inconscientemente sabia que aquele corredor vendia mais do que relógios. Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo