Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

Nova

caderno-escrito-a-maoParei estática diante daquela página em branco.

Olhei para todas as outras já escritas.

Algumas rasgadas, sujas, amarrotadas.

Outras lindas, morro de orgulho delas. Fiz desenhos nas bordas, para decorá-las, caprichei na letra.

E também havia as páginas garranchadas, com manchas na tinta da caneta que não deixavam dúvidas de que foram lágrimas que caíram, enquanto derramava o estado mais bruto da minha alma naquelas linhas.

Aquilo tudo não seria deixado para trás, eu já sabia. Já passei por muitas páginas limpas na minha vida.

Mas ela não deixava de me assustar. Ela parecia ser completamente diferente de tudo o que eu já havia vivido, mesmo sendo apenas uma página em branco. Continuar lendo

Dona do próprio bico

Esse é o Sting.

Esse é o Sting.

Eu já tive calopsitas.

Tive duas. Uma. Um macho. A fêmea chegou depois.

O macho era o Sting (Tico) e foi presenteado à minha irmã pelo nosso vizinho idoso fofo, que me presenteava com livros.

A fêmea simplesmente chegou. Minha mãe ouviu o Sting gritando aqui dentro e ela gritando lá fora. A encontrou assustada, molhada e depenada pousada no forro da varanda. Então deixou a gaiola do Tico na varanda, para que ela se sentisse segura e descesse. Funcionou. Continuar lendo

Remendado

letitgoAcordou com uma tristeza que não era natural dela.

Ainda deitada, tentou se lembrar do que sonhou. Não lembrou. Mas pelo vazio inconveniente que sentia, o sonho era mesmo o causador da melancolia.

Resolveu que não adiantava ficar se lamentando, espreguiçou e levou o vazio para fora da cama, alongando os membros.

Enquanto escovava os dentes se lembrou do dia em que encontrou o ex-namorado pela última vez. Eles ainda não sabiam que aquela seria a última vez que se veriam mas, depois do amor, repentinamente ela sentiu vontade de chorar. Não havia motivos para isso e nunca havia acontecido antes. Para que ele não percebesse seus olhos cheios de lágrimas o abraçou, até que conseguisse se controlar. Agora sabia que esse acontecimento, aparentemente inexplicável, fora sua intuição avisando-a de que tudo iria terminar. Continuar lendo

Uma história engraçada

Hoje tenho uma história muito engraçada para contar para vocês, a respeito de uma amiga minha.

Nos conhecemos quando nós duas ainda estávamos na oitava série (ginásio, para os mais velhos), mas só fomos ficar amigas mesmo no primeiro ano do colégio (segundo grau, para os mais velhos). Continuar lendo

Presente

Eram três da tarde, quando entrou na loja estranha.

A semanas passava quase diariamente por aquela porta estreita e espiava, curioso, pelo corredor escuro e coberto de relógios por todos os lados.

Tinha vontade de entrar lá, algum dia, para dar uma “olhadinha”, coisa que faria em qualquer loja. O engraçado é que o impulso sempre era reprimido pela consciência de que não precisava do que era vendido ali, embora o único relógio que possuía era o que aparecia na tela de descanso do celular. Inconscientemente sabia que aquele corredor vendia mais do que relógios. Continuar lendo

Caixas

Abri a primeira caixa com um leve cheiro de mofo, onde estavam guardados meus ursos de pelúcia. A primeira reação foi uma certa ternura, vindoura dos meus tempos de infância. A segunda foi uma crise de espirros. Esses ursos agora vão secar as lágrimas de outra garota.

Na outra caixa encontrei muitos presentes que ganhei em uma festa de aniversário. Vários deles nunca saídos das caixas. Guardei apenas os cartões com os votos. Uma coisa ou outra separei, por afeição ou utilidade futura.

A terceira caixa doeu mais. Brinquedos velhos, álbuns de fotos, livros infantis. Todos me trazendo uma enxurrada de lembranças que eu gostaria que tivessem ficado encaixotadas com eles, em algum lugar bastante fora do meu alcance. Mas, secando o rosto com as costas das mãos, olhei para a minha boneca favorita e não tive forças de colocá-la para doação. Alguns objetos ali me trouxeram algo que quase não sinto da minha época de criança: saudade. Então também separei. Continuar lendo

Presença

Acordou de madrugada e a preguiça não permitiu que abrisse os olhos.Esfregou o rosto, coçou as pálpebras e virou para o outro lado para voltar a dormir, quando suas mãos apalparam o vazio ainda morno, do outro lado da cama. Então abriu os olhos.

O lençol branco e revolto ainda guardava o calor do corpo que esteve ali deitado nos últimos minutos. A cabeça, que repousava naquele travesseiro, havia esquecido alguns fios lisos e louros.

Houve um ruído de água no banheiro, então ele sorriu levemente, feliz por tê-la ao seu lado.
Era bom acordar de madrugada, com a cama vazia, e saber que ela estaria de volta em poucos minutos, usando uma camisa sua para esconder o corpo nu.

Traria do banheiro o seu perfume de baunilha, as mãos geladas por terem sido lavadas. Ou então o calor do chuveiro na pele macia e coberta de penugem fina.

Quis que o banho acabasse logo, para que ela voltasse e o envolvesse com os braços delicados. Provavelmente sussurraria desculpas em seu ouvido, por tê-lo acordado. De certa forma ele gostava dessa ausência que logo seria preenchida pelo brilho que ela trazia para sua vida. Continuar lendo

Satisfação

Enquanto subiam as escadas para o primeiro andar, ela sentia o celular pressionando-lhe a nádega, de dentro do bolso traseiro. Depositou as malas que carregava em cima da cama e virou-se para ajudar o namorado, que trazia as mais pesadas. Ele sorriu agradecido e deixou um beijo leve em seus lábios. Ela sorriu de volta.Ele voltou para trancar o carro e ela se sentou nos degraus da varanda. O rapaz avisou que iria tomar um banho e ela acenou com a cabeça.Tirou o celular do bolso e ficou olhando-o por um bom tempo, mas só teve coragem de discar os primeiros números quando ouviu a porta do banheiro se trancando.Ouviu chamar uma e duas vezes. Desistiu constrangida, desligando o telefone. Já tinha se arrependido do gesto, quando o celular tocou. O mesmo número que havia discado, minutos antes, piscava insistentemente na tela. Decidiu atender no último toque antes da ligação cair na caixa postal e a voz falhou no “alô”. Continuar lendo

Um amor de verdade

Eu sempre fui a garota dos clichês.

Aquela que sempre acreditou que um clichê tem mais do que o óbvio a nos dizer. Sempre acreditei que um clichê dito é apenas isso, algo que todo mundo já sabe. Mas um clichê vivido deixa de ser apenas uma frase feita, para ganhar uma nova essência, dessa vez unido à experiência. À sua pessoal e íntima experiência.

E embora, quando escrevo, eu busque fugir dos lugares comuns tudo o que sempre quis na vida foi viver um clichê. Não canso de repetir que a felicidade está na simplicidade, na busca e não no fim. Seres humanos nunca deixam de querer. Sempre estão em busca, ambicionando, desejando. E não percebem que a felicidade é justamente esta: lutar, correr atrás, querer, trabalhar. A conquista é o êxtase, mas é passageira. Não traz felicidade. E é por isso que eu nunca quis apenas um amor, mas um parceiro de viagem. Continuar lendo