A senhora do brinco de pérola

No dia do meu aniversário, acompanhei meus avós ao médico.O hospital era na capital, e eles ficam inseguros de desbravar o metrô paulista, com sua infinidade de linhas e estações novas.Eu não sabia muito bem como chegar lá, mas tecnologia é pra essas coisas mesmo e com o Google Maps, mais o GPS chegamos sãos e salvos ao destino.Enfrentamos a área metropolitana, com suas pessoas apressadas, multidões que se movem como cardumes e filas. Muitas filas. Olhando esse mar de rostos, entendemos de onde surgem os clichês e o porquê de esquecermos que cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.Passamos pelo mundo como se todos que nos cercam fossem apenas mais um. Porém são nossas experiências que nos fazem únicos, e principalmente, é justamente essa individualidade que nos faz iguais.

Enquanto esperava meu avô ser atendido, duas senhoras – ambas entre setenta e cinco e oitenta anos – se sentaram ao meu lado e a mais delicada, de cabelo louro e brinco de pérola, falou-me sobre a insônia que enfrentara aquela madrugada.

_Acordei uma da manhã e não dormi mais. Então levantei, faxinei a sala e passei toda a roupa, até ela acordar – e apontou para a irmã ao seu lado.

A outra acrescentou que viviam juntas desde sempre e a irmã era muito mais organizada que ela, com mania de limpeza.

Então a doutora chamou a senhorinha delicada. Assim que ela se levantou, a outra segredou-me:

_Ela é solteira. E virgem.

Devo ter arregalado os olhos, pois ela apressou-se a justificar:

_Por isso é tão obcecada por limpeza.

Então me contou que nem sempre foi assim.

Um dia dona Magali (a virgem) fora noiva de um homem por quem era muito apaixonada. Uma semana antes do casamento, ele lhe pediu uma prova de amor: que se entregasse a ele, antes da cerimônia. Revoltada com a proposta, ela disse que se ele dessa prova de amor era porque não a merecia e lhe devolveu a aliança de noivado.

Poucos meses depois, ele se casou com uma “rapariga” da vizinhança.

_Essa mulher era de uma família de militares. Aposto que o forçaram a se casar com ela, pois corto um dedo fora se ela não dava pra ele.

Desde então, dona Magali se manteve solteira, vivendo com a irmã esse tempo todo. Segundo minha interlocutora, o tal homem ainda a procurou por muito tempo, obviamente apaixonado. Mas ela jamais cedeu, ofendida por sua atitude desrespeitosa.

A personagem da história saiu de dentro do consultório e se dirigiu para onde estávamos.

_Pronto. Já peguei a receita.

Sentou-se ao meu lado e ainda conversamos mais um pouco, sobre o prédio antigo onde estávamos. Por elas fiquei sabendo que os bancos onde nos sentávamos e até o piso eram originais, de quando o prédio ainda servia como central da Light em São Paulo.

A senhora dos brincos de pérola virou para sua companheira e me elogiou:

_Ela parece com Mariana, não parece? O mesmo olhar e jeitinho meigo. Você é muito bonita, menina.

Agradeci o elogio, ainda pensando no drama daquela mulher.

Quando se foram, voltei a pensar sobre as pessoas. Assistimos a filmes, novelas e lemos livros, pensando que aqueles dramas foram muito bem concebidos por seus idealizadores, mas essas histórias passam por nós o tempo todo e não nos importamos em lembrar que cada um daqueles “alguéns” tem sua própria história para contar.

Em um filme* ouvi que “Uma pessoa é uma pessoa, não importa quão pequena ela seja”.

Talvez no nosso caso seja: uma pessoa é uma pessoa, não importa quão desconhecida ela seja. E quão indiferente à sua sorte você seja. Porque é muito fácil ignorar um mundo inteiro que não te afeta.

Mas uma pessoa continua sendo uma pessoa, não importa o quanto você não se importa.

*O filme em questão é “Horton e o mundo dos Quem”. Se eu fosse vocês assistiria. Uma das coisas mais lindas que já vi na vida.

8 pensamentos sobre “A senhora do brinco de pérola

  1. É por causa de histórias assim que eu concordo com o Neil Gaiman. É muito mais fácil ficar satisfeito com uma história faz-de-conta, porque temos conclusão, um ciclo inteiro de acontecimentos e um desfecho. Na vida, temos apenas o tempo passando, e algumas pessoas que nunca deixam o rancor para trás.

  2. É empolgante encontrar expressa em palavras, ideias que já me ocorreram. “Cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.” Parabéns pelo blog, e por compartilhar parte do seu universo aqui.🙂

  3. Hahahah! Se bem que levando em conta meu 1,73 de altura, não é grande novidade pra mim ser mais alta por aí… E muito amor é você toda simpática batendo papo comigo aqui pelos comentários!❤

  4. Penso nisso o tempo todo, sabia? As vezes ovacionamos alguma coisa por ser escrita por um Carlos Drummond ou Guimarães Rosa, mas só de saber que histórias tão dramáticas, complexas e profundas cruzam nosso caminho todo dia e nem sequer escuta o nosso “bom dia” me faz pensar na grande obra que a vida.
    “Cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo” – Melhor definição ever.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s