Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

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Carta ao menino que desenhava

Ilustração de Stephen Wiltshire

Ilustração de Stephen Wiltshire

“28 de marco março de 2010

Oi, menino.

Fiquei com vontade de escrever para você.

Te vi sozinho desenhando, sob uma árvere árvore do parque onde eu estava andando de bike bicicleta. Dei umas três voltas no parque todo e você continuava lá, sentado, rabiscando. Na quarta volta eu resolvi estacionar do seu lado e quase capotei de bike em cima de você minha curiosidade venceu e eu dei um jeito de sentar sob a mesma árvore que você.

Você até olhou pra mim e riu um pouco deu um sorriso discreto, que eu correspondi enquanto encostava a bicicleta no tronco. Depois disso você voltou a se concentrar no desenho e nem viu enquanto eu tirava o meu livro da bolsa e me recostava para fingir que lia. Continuar lendo

Saia justa

bus-stop-pin-up_…

_O que? Estou com fone de ouvido, não consigo…

_…

_Sim, claro. Posso tirá-los. Por que não?

_É aqui que passa o ônibus 845?

_É sim. Acho que passa em 5 minutos.

_Ah, muito obrigada, menina. Achei que o tinha perdido.

_É, não perdeu não. – (sorriso) Continuar lendo

A lágrima

olhar-velhiceQuando ouviu o som da voz dele, chamando-o pelo nome,  uma grossa lágrima, apenas uma, escorreu de seu olho esquerdo.

Teria morrido ali, na bolsa da pálpebra inferior que marcava um sério cansaço de viver, devido à sua posição meio deitado, meio sentado. Mas era uma gota grossa, pesada. Um tanto hesitante, ultrapassou os limites das olheiras e prosseguiu seu caminho lentamente deixando, porém, uma pequena porção do líquido adentrar as rugas laterais e se dirigir as têmporas, atingindo o cabelo branco.

A maior parte continuou descendo aos poucos, pelas maçãs do rosto, iniciando um traço firme que refletia a luz, pelo rosto moreno que ainda guardava uma réstia do semblante que tivera quando moço. Se os olhos estivessem abertos, mostrariam o mesmo brilho que refletiam na juventude. O brilho de quem sempre acreditou na conquista pelas próprias mãos, mesmo quando ainda não tinha idade para conquistar coisa alguma. Continuar lendo

Carta à mulher no celular

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03 de julho de 2013

Oi!

Espero que não se sinta sem privacidade invadida por essa carta, já que ouvi sua ligação do começo ao fim e isso não é muito educado.

Mas estávamos no ponto de ônibus e acho que no calor da emoção você não estava se importando muito com o caso de alguém estar ouvindo ou não.

Ouvi você chorando ao telefone, com alguém que não lhe dava atenção.

Você dizia ficar em dúvida entre dizer que precisava dessa atenção, ou então deixar para lá sabendo que esta pessoa tinha coisas mais sérias para se preocupar e você acabar se tornando mais uma cobrança a ela. Continuar lendo

Imoral

pedra do sapatoAcordou com a luz do sol atravessando o vidro da janela que nunca era completamente fechada. Adorava dormir, então enrolou mais dez minutinhos, com a desculpa de pensar na roupa que usaria no dia.

Um tanto relutante, espreguiçou-se languidamente, ergueu o corpo e movimentou a cabeça de um lado para o outro, para relaxar o pescoço e os ombros.

Só então despertou.

Jogou as cobertas para o lado e, sem pudor algum, tocou o piso frio com os pés nus. Jogou os cabelos encaracolados para o alto, em um rabo de cavalo frouxo e despenteado, jogou a camiseta com a qual dormiu sobre a cama e começou a se arrumar para o trabalho. Continuar lendo

Carta ao escritor Jorge Amado:

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02 de agosto de 2007

Oi, seu Jorge Amado. Tudo bem? Estou um pouco nervosa em escrever essa carta, porque o senhor é aquele tipo de pessoa que a gente tem uma admiração meio temerosa, tipo professor.

Não a minha professora de português. Dela eu não tenho medo.

O senhor inspira aquele respeito que me faz querer saber mais sobre o que o senhor escreveu na vida, mas não conhecê-lo pessoalmente, ou tê-lo como parente, porque daria várias broncas daquelas, quando eu fizesse algo que te desagradasse.

Mas continuando, não foi por isso que eu resolvi te escrever. É que esses dias eu emprestei um livro seu, na boblioteca biblioteca da escola: o Dona Flor e Seus Dois Maridos. Foi um fuá. A tia da biblioteca me olhou com uma cara e perguntou se foi minha professora de português que solicitou. Eu disse que não. Então ela disse que só emprestaria com solicitação dela. Aí fui falar com minha professora. Ela me olhou com a mesma cara e disse que só solicitaria o livro com autorização da minha mãe. Lá fui eu pedir pra minha mão mãe, que riu muito, escreveu uma autorização e assinou.

E então eu li seu livro e me lembrei de uma conversa que tive com a minha mãe. Continuar lendo

Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado. Continuar lendo

Auto controle

to-do-listTudo começou quando ela percebeu que precisava esquematizar suas tarefas, ou tudo fugiria do seu controle. Se ela não fizesse tudo exatamente do mesmo jeito, todos os dias, certamente esqueceria de fazer algo. E se qualquer elemento novo entrasse no meio da sua rotina, era certeza de que todo o resto se desregularia. Para que isso não acontecesse, ela criou diversos sistemas e listas, que ela repetia diariamente.

Todos os dias ela acordava com o despertador e aproveitava os dez minutos de preguiça para conferir as redes sociais pelo celular. Depois se levantava, escolhia a roupa que usaria naquele dia e arrumava a cama. Em seguida ia ao banheiro escovar os dentes e fazer o xixizinho matinal, voltava ao quarto para se vestir, fazia a maquiagem, ajeitava a bolsa, alimentava os peixes e ia para a cozinha.

Nunca tomava café antes de fazer a marmita e sempre deixava as chaves e a carteira ao lado do celular sobre a mesinha de centro, pois já precisara voltar vezes o suficiente porque havia esquecido um dos três. Continuar lendo

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo