Senso de humor

mulheres-barO sonho de todo homem é casar.

Todo mundo sabe disso.

Os homens são criados para se comportar de maneira a atrair uma esposa honesta e trabalhadora, que possa sustentá-lo e aos filhos.

Todo mundo sabe também que as mulheres amam seus maridos profundamente, mas quando estão com as amigas precisam mostrar que na verdade preferiam estar solteiras. Afinal de contas, demonstrar sentimentos e deixar claro que ambos, marido e mulher, se dedicam em pé de igualdade para a relação dar certo, vai fazer as amigas rirem dela e chamá-la de sapata, né? Mulher nenhuma quer parecer masculinizada. Continuar lendo

O pedido

_Boa tarde, senhora. O que deseja?

“Uau, nossa… Essa é uma pergunta bastante complexa… Veja bem, se está se referindo apenas ao que desejo neste momento, bom…

Primeiramente gostaria de ter mais energia, sabe? Normalmente canalizo toda minha energia às minhas atividades que considero prioridade e então, quando chega a hora de botar em prática aquelas que verdadeiramente me realizam, não tenho mais ânimo e parto apenas para o que me traz prazer imediato.

Também gostaria de deixar de julgar as pessoas, entende? Mas isso parece que é quase inconsciente. Quando você vê, BANG! Julgando. Não é legal. Continuar lendo

Chatice Crônica

mulher-bebendo-leite-15609Esse ano eu descobri o porquê dos povos antigos e nômades, ou em guerra, abandonarem os doentes à própria sorte: não é por conta do atraso que a mobilidade prejudicada provocaria em todos. É porque gente doente é muito chata.

Cheguei a essa conclusão agora, que faz um ano que descobri que sou alérgica a leite (e a outras coisas, mas leite é a mais chocante.) E quando a gente diz que é alérgica a leite, a pessoa já fala: “Ah sim, intolerância à lactose, né?” Não, quiridinho. Não é intolerância à lactose.

Intolerância é a dificuldade em digerir a lactose, que causa dores abdominais, enjoos, vômitos, diarreia e gases. Eu tenho isso também.

Só que a alergia ao leite causa coceira e bolinhas na pele, incha as mucosas, fecha a garganta e te mata. A minha não é tão forte assim, mas ficar inchada e coçando não é nada divertido.

Esse é o primeiro sinal da chatice de uma pessoa doente: ela é incapaz de não explicar a sua doença e ficar horas enumerando os sintomas e o quanto ela sofre com cada um deles.

E se for uma louca do Google, que adora futricar sobre os próprios males nesse saco sem fundo que é a internet assim como eu, o volume de informações mazelais aumentam consideravelmente e começam a envolver temas como nutrição, dieta, terapias alternativas, vegetarianismo, Leonard Hofstadter, famosos que foram flagrados tendo choque anafilático, quais signos combinam com pessoas alérgicas como você e como fazer um homem alérgico feliz na cama.

A segunda maior chatice de uma pessoa mazelada são as coisas que ela não pode fazer por conta da doença: eu não posso ter uma festa surpresa, pois provavelmente não poderei comer meu bolo de aniversário. Sou a chata que leva o próprio purê de batatas, sem leite e manteiga, quando é convidada para almoçar na casa de amigos e que fica perguntando para garçons e atendentes quais são os ingredientes daquele prato do menu ou doce da vitrine. Sou aquela que o namorado precisa pagar o dobro (ou o triplo) pelo chocolate de soja e 50% de cacau, que irá salvá-lo da minha TPM. E sou excluída de rolês na pizzaria por motivos óbvios.

A famosa piada “Se não aguenta, bebe leite” também ganha outras proporções na minha situação.

Minha caixa de primeiros-socorros conta com três tipos diferentes de antialérgicos e remédios para o fígado. E pelo menos UM ponto positivo tudo isso tem: meu consumo de soja aumentou 70%, meu nível de estrogênio idem e por isso meus peitos cresceram.

Mas ter peitos um pouco maiores não vai compensar minha chatice. Qualquer pergunta inocente, tipo “Onde vamos comer?”, “Quer pudim?”, ou “Como você está?” despertam minha compulsão e preciso de um esforço sobrehumano para não começar a dissertar sobre minha alergia até que meus interlocutores comecem a acreditar que todos eles também são alérgicos a leite.

Como se isso não bastasse, também tenho enxaqueca nervosa/hormonal, níveis elevados de testosterona e paixonite aguda. Sou uma chata crônica.

O que se não faz de mim uma fraca abandonada para a morte pelo seu povo por uma questão meramente de contexto histórico, me faz correr sérios riscos de ser abandonada pela sociedade e virar a velha louca dos gatos, o que dá praticamente no mesmo.

E o pior de tudo: eu sou alérgica a gatos. Não contei?

Longas pernas

metroImaginem o cenário: metrô de São Paulo, 8h30 da manhã.

A cada três metrôs no sentido oposto, passa um no sentido no qual preciso pegar.

E os metrôs que passam (a cada três do sentido oposto) estão tão abarrotados que não dá tempo das pessoas de dentro saírem e as de fora entrarem.

Então a plataforma vai se enchendo cada vez mais.

No sexto metrô que para, abre e sai gente, vejo uma brecha com o exato espaço para caber a mim, meio de lado e com a perna esquerda levantada, mais a minha mochila. Contraio a barriga, desvio de um cotovelo e entro, esperando a porta fechar atrás de mim para poder soltar meu peso contra ela. Continuar lendo

Saia justa

bus-stop-pin-up_…

_O que? Estou com fone de ouvido, não consigo…

_…

_Sim, claro. Posso tirá-los. Por que não?

_É aqui que passa o ônibus 845?

_É sim. Acho que passa em 5 minutos.

_Ah, muito obrigada, menina. Achei que o tinha perdido.

_É, não perdeu não. – (sorriso) Continuar lendo

Destino

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Tem mais Wesley Samp no Os Levados da Breca

Prisioneiro

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Tem mais Wesley Samp no Os Levados da Breca =D

Imoral

pedra do sapatoAcordou com a luz do sol atravessando o vidro da janela que nunca era completamente fechada. Adorava dormir, então enrolou mais dez minutinhos, com a desculpa de pensar na roupa que usaria no dia.

Um tanto relutante, espreguiçou-se languidamente, ergueu o corpo e movimentou a cabeça de um lado para o outro, para relaxar o pescoço e os ombros.

Só então despertou.

Jogou as cobertas para o lado e, sem pudor algum, tocou o piso frio com os pés nus. Jogou os cabelos encaracolados para o alto, em um rabo de cavalo frouxo e despenteado, jogou a camiseta com a qual dormiu sobre a cama e começou a se arrumar para o trabalho. Continuar lendo

Eu, meu ego e o Brasil Tostines

Então é isso. Eu nunca pensei que justamente eu fosse escrever um texto tão pessimista e sem esperanças.

Mas gente esperou décadas para o Brasil acordar. E quando ele acordou, despontou a dúvida se estamos mesmo preparados para pedir mudanças.

Sim, porque a gente mete o pau no projeto de cura-gay do Feliciano, chamando o pastor/deputado de “viado enrustido”. A gente é contra a corrupção pagando cafezinho para o guardinha não multar nosso carro estacionado há horas na zona azul. Fazemos cartazes falando de inclusão social, mas estacionamos em vagas para pessoas com necessidades especiais. A gente vai na rua gritar que quer transporte público de qualidade, mas vai pro trabalho todo dia de carro sozinho e ainda reclama que o congestionamento está foda. Queremos ser respeitados como ser humano e que a polícia não cometa abusos, mas acha ok segurar mulher pelo braço na balada e consideramos embebedá-la uma tática de conquista. Vai na marcha das vadias levantar faixa contra estupro, mas bota em dúvida a virilidade do cara que não quis te comer. Continuar lendo

O monstro

Tipo-de-Ralo-21Creio que toda desgraça se anuncia de alguma maneira.

Tempestades são precedidas por trovões, os tsunamis, precedidos por recuos no mar, o fim do mundo pelos cavaleiros do apocalipse e o pé-na-bunda, pelo chifre.

Não poderia ser diferente com a maior tragédia de todas: o ralo entupido por fios de cabelo.

Na verdade os sinais são vários e evidentes, como o punhado de cabelos que se ajuntam sobre a grelha ao final de cada banho, o jeito como você puxa o tapetinho de borracha sobre o ralo para não ter que olhar mais para o ninho que está crescendo ali, a forma como tais cabelos simplesmente desaparecem e, já algumas semanas mais tarde, a demora crescente para a água escoar toda a cada banho.

O aterrador aviso derradeiro veio durante o meu banho (lógico!), enquanto minha irmã escovava os dentes na pia. A água empoçada aos meus pés fez um barulho borbulhante. Resultado das bolhas (jura?) que subiram do ralo, sinalizando o último suspiro do espaço livre no cano. Minha irmã parou a escova no ar e em um olhar desesperado, nos encaramos. Toda a cena que se seguiu, pareceu rodar em slow motion. Continuar lendo