Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

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Longas pernas

metroImaginem o cenário: metrô de São Paulo, 8h30 da manhã.

A cada três metrôs no sentido oposto, passa um no sentido no qual preciso pegar.

E os metrôs que passam (a cada três do sentido oposto) estão tão abarrotados que não dá tempo das pessoas de dentro saírem e as de fora entrarem.

Então a plataforma vai se enchendo cada vez mais.

No sexto metrô que para, abre e sai gente, vejo uma brecha com o exato espaço para caber a mim, meio de lado e com a perna esquerda levantada, mais a minha mochila. Contraio a barriga, desvio de um cotovelo e entro, esperando a porta fechar atrás de mim para poder soltar meu peso contra ela. Continuar lendo

Passageiros

1249_1Essa é a história de um atendente de guichê de ônibus. Pode parecer um personagem desinteressante, aquele carinha por quem você passa e só diz para onde vai, estende o dinheiro, pega a passagem, o troco e vai embora, sem nem precisar cumprimentar, ou agradecer pelo serviço prestado.

Mas acontece que a vida é engraçada e quando ele deu por si, estava atendente de guichê de ônibus. O salário era o suficiente para ajudar em casa e até para se casar com a namorada, quando ela também começasse a trabalhar. Os companheiros de trabalho não eram tão animados e satisfeitos em atender pessoas apressadas e vender passagens, mas ele não ligava, porque encontrou no seu trabalho uma oportunidade de realizar o seu sonho.

Explico. Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

O próximo ponto

Sei lá, ela só estava ali sentada no banco do ônibus, do lado da janela, sem grandes expectativas a respeito daquele fim de tarde. Nada demais. Coisa básica, normal.

Só que, entre uma curva e um farol fechado, quatro caras deram sinal para o ônibus e assim que ele deu partida anunciaram o assalto.

Enquanto um deles segurava uma arma nas costas do motorista, com instruções claras sobre agir normalmente e não parar o ônibus antes do próximo ponto, o segundo pulou a catraca para tirar tudo o que houvesse de valor dos passageiros e o terceiro fazia “a limpa” na caixa do cobrador.

Assim como os demais usuários de transporte público ali presentes, ela entregou a carteira, celular e relógio sem levantar o rosto e já estava achando que tudo ia ficar bem quando o bandido pediu sua aliança de noivado. Aí não aguentou mais, começou a chorar e entregou a aliança.

Encolheu-se na sua janela, soluçante e lacrimosa, querendo que tudo passasse bem rápido, quando o quarto rapaz, que estava na parte da frente do ônibus, percorreu o veículo, como se estivesse inspecionando o serviço dos comparsas.

Pelo jeito ele era o chefe de todos e, ela encolheu-se ainda mais, parou exatamente ao lado dela. Sentindo a boca do estômago se contrair, ela não conseguia forças para erguer os olhos, quando tomou o maior susto da sua vida: Continuar lendo

A senhora do brinco de pérola

No dia do meu aniversário, acompanhei meus avós ao médico.O hospital era na capital, e eles ficam inseguros de desbravar o metrô paulista, com sua infinidade de linhas e estações novas.Eu não sabia muito bem como chegar lá, mas tecnologia é pra essas coisas mesmo e com o Google Maps, mais o GPS chegamos sãos e salvos ao destino.Enfrentamos a área metropolitana, com suas pessoas apressadas, multidões que se movem como cardumes e filas. Muitas filas. Olhando esse mar de rostos, entendemos de onde surgem os clichês e o porquê de esquecermos que cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.Passamos pelo mundo como se todos que nos cercam fossem apenas mais um. Porém são nossas experiências que nos fazem únicos, e principalmente, é justamente essa individualidade que nos faz iguais.

Enquanto esperava meu avô ser atendido, duas senhoras – ambas entre setenta e cinco e oitenta anos – se sentaram ao meu lado e a mais delicada, de cabelo louro e brinco de pérola, falou-me sobre a insônia que enfrentara aquela madrugada.

_Acordei uma da manhã e não dormi mais. Então levantei, faxinei a sala e passei toda a roupa, até ela acordar – e apontou para a irmã ao seu lado.

A outra acrescentou que viviam juntas desde sempre e a irmã era muito mais organizada que ela, com mania de limpeza. Continuar lendo

A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Dois lados da moeda

 

Das razões que desconhecemos

Todo mundo tem seu jeito de lidar com a vida. Sem exceção. Parece bobagem, mas não é. Tá bom, é. Mas aposto que a maioria nunca para pra analisar a coisa desse jeito.
Algumas pessoas mais introspectivas, que investem no auto-conhecimento, lêem O Segredo, fazem yoga e por aí vai, assumem o que chamam de “filosofia de vida”.
Eu não li O Segredo. E tô tentando começar a fazer yoga desde o começo do ano. Mas eu já tenho a filosofia, o que é um avanço. E esta envolve algumas frases feitas, que me ajudam a encarar as dificuldades que o destino cria em meu percurso.
Coisas como: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”, “Não há escolhas certas ou erradas, apenas consequências.”, “A grande questão da vida não é ser lógico ou sempre ter razão. É não ser chato.”, “Se não me lembro, não fiz” são sentenças que me ajudam a ter alguma coerência ao agir e, pelo menos, ter algo onde me agarrar quando começa a chover merda na minha cabeça. Continuar lendo