Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

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Auto controle

to-do-listTudo começou quando ela percebeu que precisava esquematizar suas tarefas, ou tudo fugiria do seu controle. Se ela não fizesse tudo exatamente do mesmo jeito, todos os dias, certamente esqueceria de fazer algo. E se qualquer elemento novo entrasse no meio da sua rotina, era certeza de que todo o resto se desregularia. Para que isso não acontecesse, ela criou diversos sistemas e listas, que ela repetia diariamente.

Todos os dias ela acordava com o despertador e aproveitava os dez minutos de preguiça para conferir as redes sociais pelo celular. Depois se levantava, escolhia a roupa que usaria naquele dia e arrumava a cama. Em seguida ia ao banheiro escovar os dentes e fazer o xixizinho matinal, voltava ao quarto para se vestir, fazia a maquiagem, ajeitava a bolsa, alimentava os peixes e ia para a cozinha.

Nunca tomava café antes de fazer a marmita e sempre deixava as chaves e a carteira ao lado do celular sobre a mesinha de centro, pois já precisara voltar vezes o suficiente porque havia esquecido um dos três. Continuar lendo

Perdido

 

“Depois da noite de amor, ofereceu-lhe o coração e ela usou como cinzeiro.”

 

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Aproveitando o surto produtivo do Wesley Samp, aqui está um microconto meu ilustrado por ele. =)

Tem mais Samp em seu site Os Levados da Breca.

Areia

ampulheta2Observava, como em transe, os grãos diminutos e coloridos escoando pelo vão estreito do vidro. Estendida sobre um pufe disforme, deslizava preguiçosamente os dedos pela superfície lisa, enquanto o tempo passava.

Construíra aquela ampulheta com as próprias mãos, até mesmo o vidro. Foi quando visitou uma fábrica de vidro, na última viagem de férias, que teve a ideia. Perguntou ao artesão como funcionava e, enquanto ele explicava, em sua mente surgiu um esboço. Na mesma hora expôs sua ideia e o senhor, já idoso, não só disse que era possível, como deixou que ela mesma assoprasse e moldasse a mistura viscosa e amarelada, até que tomasse a forma que desejava. Depois, já de volta, comprou os pedaços de madeira e trabalhou por horas a fio na ampulheta, lixando, pintando, encaixando. Fez questão de desenhar nas colunas coisas que lembrassem cada lágrima que deixou cair em vão. Precisava registrá-las e lembrá-las. Escolheu areias douradas, pois achava poética a expressão “as areias douradas do tempo”. Bastante adequado. Continuar lendo

Luísa

Conheceu Luísa havia quase dez anos.gty_eye_writing_jef_120726_wg

Foi a primeira vez que ela entrou em sua vida.

Não que fosse a mais bonita, ou a mais popular. Mas ela tinha uns olhos estranhos. Muito escuros e redondos, por trás das pálpebras. Do tipo que, quando encaram, você afunda e se deixa levar pelo turbilhão. Creio que Machado entenderia.

Em volta dos olhos escuros, havia uma pele morena, cabelos encaracolados e o sorriso lindo que ele lutou durante muito tempo para conquistar um novo a cada dia.

O turbilhão durou anos. Foi do colégio à faculdade girando no mesmo redemoinho, onde o vórtice eram os olhos dela. Continuar lendo

Remendado

letitgoAcordou com uma tristeza que não era natural dela.

Ainda deitada, tentou se lembrar do que sonhou. Não lembrou. Mas pelo vazio inconveniente que sentia, o sonho era mesmo o causador da melancolia.

Resolveu que não adiantava ficar se lamentando, espreguiçou e levou o vazio para fora da cama, alongando os membros.

Enquanto escovava os dentes se lembrou do dia em que encontrou o ex-namorado pela última vez. Eles ainda não sabiam que aquela seria a última vez que se veriam mas, depois do amor, repentinamente ela sentiu vontade de chorar. Não havia motivos para isso e nunca havia acontecido antes. Para que ele não percebesse seus olhos cheios de lágrimas o abraçou, até que conseguisse se controlar. Agora sabia que esse acontecimento, aparentemente inexplicável, fora sua intuição avisando-a de que tudo iria terminar. Continuar lendo

Aos homens, e às mulheres, sobre os homens

Diariamente vejo mulheres e mais mulheres querendo ser tratadas como princesas e ditando regras aos homens – estes terríveis partidores de corações alheios – do modo como devem ser amadas.

“Queremos ser amadas com romantismo e não ter os sentimentos despedaçados”, dizem minhas colegas de gênero. Continuar lendo

O homem indiferente

O homem indiferente acordou sem notar que sua música favorita tocava no rádio-relógio que era do pai. Andou um tanto trôpego, esfregando os olhos até o banheiro e, quando tirou o pijama, não viu que um botão pulou fora e foi quicando até o ralo do chuveiro.

Tomou banho com o sabonete de sempre e não reparou no shampoo que estava quase no fim. Por pouco não tropeça no tapetinho embolado na frente do boxe. Continuar lendo

Rotina

Na mão direita eu segurava o celular, com a esquerda fuçava a bolsa atrás do cartão de passes do ônibus municipal. Sorte que sou mulher e consigo fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Meu estagiário finalmente atendeu e eu derrubei várias moedas no chão.

_Eu esqueci de enviar o texto para o cliente. Você pode fazer isso pra mim, antes de ir para a faculdade? Por favor! Prometo que amanhã eu pago o seu café cheio de firula. Continuar lendo

Um conto extraordinário

Ela não teve uma vida extraordinária.

Cresceu em um bairro sossegado, de uma cidade do interior, brincando com os meninos da rua, porque na rua não tinha tantas meninas assim e as que tinha, preferiam brincar de passa anel do que de polícia e ladrão.

Os meninos riam de suas sardas e da boca grande, mas ela botou apelidos em todos eles, então estavam quites.

Todos estudaram na mesma escola, durante a infância, mas se separaram no colegial. Os meninos foram estudar no centro da cidade e ela foi transferida, junto com as meninas, para o colégio do bairro, então tentou se aproximar delas. Mas elas preferiam se maquiar, enquanto ela ouvia Ramones. Deixou pra lá. Continuar lendo