Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

Carta ao menino que desenhava

Ilustração de Stephen Wiltshire

Ilustração de Stephen Wiltshire

“28 de marco março de 2010

Oi, menino.

Fiquei com vontade de escrever para você.

Te vi sozinho desenhando, sob uma árvere árvore do parque onde eu estava andando de bike bicicleta. Dei umas três voltas no parque todo e você continuava lá, sentado, rabiscando. Na quarta volta eu resolvi estacionar do seu lado e quase capotei de bike em cima de você minha curiosidade venceu e eu dei um jeito de sentar sob a mesma árvore que você.

Você até olhou pra mim e riu um pouco deu um sorriso discreto, que eu correspondi enquanto encostava a bicicleta no tronco. Depois disso você voltou a se concentrar no desenho e nem viu enquanto eu tirava o meu livro da bolsa e me recostava para fingir que lia. Continuar lendo

Coisas boas da semana

Oi, você que me lê!

Essa semana um leitor veio conversar comigo no facebook – vários já fizeram isso e, por favor, façam mais! Cada pessoa nova com quem converso é uma história nova para a minha coleção =) – e me perguntou delicadamente porque eu não respondo a maioria dos comentários dele em meu blog.

Coincidentemente, vi o vídeo da palestra da Amanda Palmer, que até linko abaixo (e de quem eu sou fã histérica), no TED e achei que merecia um esclarecimento para que quem viesse aqui ler soubesse como encaro as coisas e não corra o risco de se sentir preterido.

Já disse aqui que as histórias brotam na minha mente a partir de qualquer coisa que vejo no meu cotidiano. A partir dessas experiências, a história começa a se formar como uma voz, me dizendo o que devo colocar em cada linha, cada frase. Quando essa voz está tão alta e clara que mal posso ouvir meus outros pensamentos, eu a escrevo e ofereço ao público neste blog.

Acontece que escrever literariamente é o que me realiza e me faz sentir um pouco mais útil no mundo. Quando alguém acessa esta página e lê o que eu escrevi, está consumindo algo que eu dediquei meu tempo (e até meu coração, por que não?) justamente para que possa servir de alguma coisa para alguém. Seja para divertir, seja para passar o tempo, seja para fazer pensar um pouco, para discordar completamente e achar uma bosta ou apenas para dizer “Calma, cara. Eu te entendo.”

Então quando recebo comentários nos meus posts, é um sinal de que esse meu objetivo foi alcançado: alguém se deixou envolver pelo que eu tinha a oferecer e ainda ofereceu algo em troca. Muitas das vezes, um leitor me oferece ainda mais do que eu ofereci a ele e o seu comentário acaba deixando meu texto mais rico. Cada um tem uma interpretação do que lê. Muitas vezes você, leitor, vê coisas nos meus textos que eu mesma nem havia imaginado.

Por isso, quando o leitor acrescenta algo ao meu texto, mas eu não tenho nada a acrescentar ao comentário dele, eu não respondo. Falar é prata e calar é ouro. Costumo responder leitores que vejo que é a primeira vez que comentam, para que se sintam acolhidos a comentarem novamente e continuarem enriquecendo o pouco que eu ofereço.

Então, por favor, se sentire vontade de dizer qualquer coisa ao ler um texto meu, seja para discordar ou para dizer que se identificou e ficou feliz em ler, comente SEMPRE. Se preferir, mande uma mensagem no meu facebook ou uma mention no twitter. Eu sou tagarela, falo com todo mundo. Vou ficar muito feliz em dialogar, em vez de manter um monólogo.

Brigada eu.

look_at_the_stars

TED Talks (Amanda Palmer) – A arte de pedir (vídeo)

Confeitaria Mag (Fabricio Teixeira) – Ainda bem (conto)

Juventude Perigosa (Fernando Duarte) – Sarada (HQ)

O Esquema (Alexandre Matias) – A gata do Laerte (HQ)

O Mundo A Parte (Fernanda Mota) – Algumas coisas sobre muita coisa (artigo)

Do Óbvio ao Avesso (Juliana Cimeno) – Sobre o Sol (conto)

Mentirinhas (Fabio Coala) – Escuridão (HQ)

Café com Nata (Nata Castro) – Tu enfermedad (conto)

Os Levados da Breca (Wesley Samp) – Esquisito (tirinha)

Um Pouco do Novo (Paula Bastos) – O querer e o não poder ter (artigo)

Nunca Fui Fofa (Dre Reze) – Não é nada disso (crônica)

Ryotiras (Ryot) – El Camino (tirinhas)

Casa da Gabi (Gabi Bianco) – Ser feminista é muito chato (artigo)

Entre Todas as Coisas (Daniel Bovolento) – Quando você foi embora (crônica)

Trivialidades da Vida (Fernanda Mota) – Café (conto)

 

A lágrima

olhar-velhiceQuando ouviu o som da voz dele, chamando-o pelo nome,  uma grossa lágrima, apenas uma, escorreu de seu olho esquerdo.

Teria morrido ali, na bolsa da pálpebra inferior que marcava um sério cansaço de viver, devido à sua posição meio deitado, meio sentado. Mas era uma gota grossa, pesada. Um tanto hesitante, ultrapassou os limites das olheiras e prosseguiu seu caminho lentamente deixando, porém, uma pequena porção do líquido adentrar as rugas laterais e se dirigir as têmporas, atingindo o cabelo branco.

A maior parte continuou descendo aos poucos, pelas maçãs do rosto, iniciando um traço firme que refletia a luz, pelo rosto moreno que ainda guardava uma réstia do semblante que tivera quando moço. Se os olhos estivessem abertos, mostrariam o mesmo brilho que refletiam na juventude. O brilho de quem sempre acreditou na conquista pelas próprias mãos, mesmo quando ainda não tinha idade para conquistar coisa alguma. Continuar lendo

Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado. Continuar lendo

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo

Carta ao Gari da Estação:

gari20 de outubro de 2008:

Olá, senhor lixeir gari da estação!

Já faz alguns anos que eu desço todos os dias sempre no mesmo ponto, no mesmo horário. É a hora que estou indo para a escola. O tempo varia: às vezes está um puta sol já bem quente, em plena manhã. No outono o sol é gelado, nesse horário. Já no inverno é MUITO frio. E tem dias que está chovendo bastante, pouco ou garoando.

Não importa o tempo, o senhor está lá, varrendo o lixo que nós jogamos. Me incluí nisso, porque eu mesma já joguei lixo no chão várias vezes. Agora não mais.

Porque passando todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário e vendo-o realizar o seu trabalho que não deveria ser tão árduo, se fôssemos um pouco menos porcalhões mais educados, me fez repensar se eu não estava sendo um tantinho egoísta. Continuar lendo

Areia

ampulheta2Observava, como em transe, os grãos diminutos e coloridos escoando pelo vão estreito do vidro. Estendida sobre um pufe disforme, deslizava preguiçosamente os dedos pela superfície lisa, enquanto o tempo passava.

Construíra aquela ampulheta com as próprias mãos, até mesmo o vidro. Foi quando visitou uma fábrica de vidro, na última viagem de férias, que teve a ideia. Perguntou ao artesão como funcionava e, enquanto ele explicava, em sua mente surgiu um esboço. Na mesma hora expôs sua ideia e o senhor, já idoso, não só disse que era possível, como deixou que ela mesma assoprasse e moldasse a mistura viscosa e amarelada, até que tomasse a forma que desejava. Depois, já de volta, comprou os pedaços de madeira e trabalhou por horas a fio na ampulheta, lixando, pintando, encaixando. Fez questão de desenhar nas colunas coisas que lembrassem cada lágrima que deixou cair em vão. Precisava registrá-las e lembrá-las. Escolheu areias douradas, pois achava poética a expressão “as areias douradas do tempo”. Bastante adequado. Continuar lendo

O vendedor de pipocas

carrinho+de+pipoca+cod+05+suzano+sp+brasil__21400C_1Realmente a graça da vida parecia estar nas pequenas coisas. Foi o que ela pensou naquele dia em que saiu um pouco mais cedo do trabalho. A felicidade não estava no fato de ter saído mais cedo, ou de ter conseguido cumprir todas as tarefas que pretendia, no centro da cidade.

Mas sim por ter conseguido fazer algo que não fazia desde os tempos da faculdade: caminhar pela cidade à noite, comendo uma coxinha de boteco, daquelas meio murchas e já quase frias.

Não que a cidade fosse das mais bonitas, muito menos que ela gostasse de coxinha murcha e quase fria. Ela só queria matar a saudade e curtir um pouco aquela nostalgia toda, agora que estava em um bom momento da sua vida. Continuar lendo

Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.” Continuar lendo