A futura borboleta

A vida tem maneiras curiosas de bater à nossa porta

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e nos lembrar da nossa pequenez diante da imensidão do mundo. No meu caso não foi bem na porta, mas sim na janela do meu quarto.

Tudo começou quando esqueci o carregador do celular na casa de uma amiga em São Paulo. Como o celular também é o meu despertador, criei o hábito de dormir com a janela aberta para que a luz do sol me acordasse naturalmente. O que aconteceu foi que, quando peguei o carregador de volta, o despertador voltou mas o hábito permaneceu.
E  então, quando chegou o final do ano, época de festas e de recessos na maioria das empresas e, com ele, a hora de fechar a janela para poder dormir até mais tarde, uma lagarta resolveu fazer o seu casulo exatamente no trilho da minha janela, tornando impossível fechá-la sem que fosse necessário arrancar o casulo de lá.

E em um dos primeiros dias de folga, enquanto tentava convencer meu cérebro de que era desnecessário estar mergulhada no breu para dormir, me ocorreu que essa classe de animais poderia ser mais esperta ao escolher um abrigo.

Fiquei pensando, com os meus botões, as encheções de saco que aquela lagarta deveria ter aguentado de amigos e parentes, ao ter escolhido minha janela para o seu sono de beleza.

“Nossa, você vai mesmo ficar aí? Belo futuro você vai ter: será esmagada por aquela janela.”

“Cara, ficou sabendo da Clotilde? Fez casulo na janela de uma humana. Certeza que vai morrer antes mesmo de poder dizer ‘metamorfose’”

“Ela sempre foi uma sonhadora, mesmo. Acreditava que os humanos sabem que lagartas se transformam em borboletas e por isso iriam poupá-la da morte, mesmo sendo uma larva nojenta.” Continuar lendo

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A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo. Continuar lendo

Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continuar lendo

Divagações

Em meio às caóticas semanas que precedem o final de um semestre, eu tentava concluir meu trabalho na lanchonete da faculdade, quando começou a chover.

A chuva veio repentinamente forte e solitária, sem vento ou trovões. As pessoas, pegas de surpresa, variavam entre se aglomerar nos limites dos telhados ou arriscar atravessar o espaço entre um prédio e outro, protegendo a cabeça com cadernos e pastas. Continuar lendo

Fogos de final de ano

O soldado acordou com um facho ensolarado brilhando em seus olhos.

Esfregou o rosto com as mãos e o gesto lhe fez sentir o ferimento nas costelas.

Não reconheceu as paredes que o cercavam, mas lembrou-se vagamente de ser ferido e abandonado pelos companheiros.

Tentou mover as pernas e não conseguiu. Tentou chamar alguém, mas a voz falhou. O esforço o esgotou e tudo se apagou novamente. Continuar lendo

Daqui pra frente…

Eu e o sol sentamo-nos de frente para o outro. A diferença foi que eu me limitei ao nível do mar, enquanto o sol continuou o seu caminho atravessando o horizonte.

O som das ondas eram ecos da inquietação que impossibilitava meu espírito de estar em paz. É inevitável chegarmos ao ponto onde temos que fazer escolhas, e o meu momento é este.

Lutar por um objetivo e alcançá-lo é gratificante. E olhar em torno, descobrindo que não se chegou exatamente onde esperava, requer certa dose de coragem, ânimo e a sorte de ainda estar em tempo de rever o caminho. Continuar lendo

E o fim…

Para cada membro da equipe ADAPT, já era a segunda ou terceira vez que concorríamos ao prêmio Excelência pelo projeto. O que por si só já é uma vitória e tanto, dado que é necessário estar entre os três melhores grupos e com nota acima de 8,0 para concorrer. Além do mais, o clima era confuso: estávamos felizes pela missão cumprida e preocupados com o final do ano, já que 2009 foi o nosso último. Seria ótimo se pudéssemos fechar esta etapa com MAIS essa chave de ouro, pois nossa nota havia sido a mais alta do quarto ano (9,1). Havíamos cometidos alguns erros na apresentação pública e os comentários da banca não foram muito promissores, o que nos fez acreditar piamente na vitória de outra equipe.

O evento de premiação foi sexta-feira e eu, assim como no ano passado, me ofereci para ajudar na organização. Achei que ajudaria nos bastidores ou cafezinho, mas estava faltando uma apresentadora e acabei no palco.

E dois dias depois de tudo isso, sentei e respirei, tentando lembrar de cada detalhe que fez a noite de sexta ser o que foi: um sucesso. Continuar lendo