Intocável

Já nos bastidores, pendurou a câmera no pescoço, colocou as lentes nos bolsos do colete, ao lado das baterias e dos rolos de filme.

Em tempos de efemeridades e retoques digitais, ele era uma pessoa analógica. Gostava do raciocínio que os contrastes, luzes e cores perfeitos demandavam, sem recorrer aos artifícios de editores de imagem.

Aquele espetáculo seria o maior do ano e ele não poderia deixar passar um único momento sequer. Não bastasse o tamanho do evento, o dia trazia outra importância para si: marcava exatos 12 meses que conhecera, ali, naquele mesmo palco, a mulher pela qual era apaixonado.

Lembrava-se com um sorriso mal contido, de quando a vira rodopiando e saltando ao som de Tchaikovisky, com o mais belo sorriso de toda a sua vida, o pesconço longo destacado sem os cabelos para escondê-lo e o corpo esguio demarcado pelas meias brancas e roupa brilhosa.

Foi paixão a primeira vista e isso se tornou claro para ele, enquanto revelava as fotos em seu estúdio. As imagens que desabrochavam pela reação química entre o fluido e papel mostravam uma mulher que não foi apenas registrada, mas foi adorada sob os holofotes pelo fotógrafo.

Em questão de quinze dias conseguiu encontrá-la, com ajuda de seus contatos no teatro e companhias de dança. Bastou um café e um cinema para que ela também se encantasse por seu admirador e teve início aquele ano de romance.

Embora um pequeno vazio desconhecido o incomodasse desde que se conheceram, logo o jeito delicado da pequena o conquistou. O jeito meigo que ela desfiava, ao deitar em seu colo pedindo carinho o envolveram em suas seduções e ele a amou cada dia mais.

Agora esperava ansioso pelo momento que sua deusa adentraria o palco e toda a audiência exclamaria admirada pela sua beleza e graciosidade, pelos passos ao mesmo tempo tão fortes e tão leves. Imaginou-se olhando para todos e sabendo que aquela mulher era sua e de mais ninguém.

Quando o solo foi anunciado, ele correu o mais próximo que pôde das coxias e se armou da câmera, pronto para disparar freneticamente e captar cada nuance dos movimentos que o haviam encantado há um ano atrás.

E quando começou a melodia, e ela entrou lentamente, esbanjando carisma e emoção, ele não conseguiu dar um único clique.

Novamente encantado, permaneceu imóvel, sentindo aquele estranho vazio aumentar em seu peito. Ela sorria e o brilho dos dentes brancos eram punhais que o feriam. Os braços e pernas se moviam indiferentes à dor que lhe causavam.

Por um momento ela se virou em sua direção e seus olhos se cruzaram. Ela continuava sorrindo, esperando pela admiração do namorado, mas recebeu apenas dúvida de volta. Ainda pôde ver quando ele deu as costas e começou a descer as escadas em direção à saída de emergência e a bailarina continuou dançando, sem saber o que havia acontecido.

Ele ainda parou na porta e a observou por mais alguns minutos, sabendo que aquela luz, aquele sorriso e aquele contraste nunca foram seus. Ela dançava, ainda sorrindo. O show tinha de continuar.

Ele se jogou de encontro ao frio da noite, pensando na mulher pela qual se apaixonou e que nunca poderia conquistar.

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