Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado. Continuar lendo

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A estranha

windowPela primeira vez em toda a sua vida, encarou a garota que estava à sua frente e ouviu o que tinha a dizer.

Agora que prestava a devida atenção, receava que aqueles fossem os olhos mais vazios que já vira.

Enquanto a garota falava e falava, ela se perguntava por que nunca havia parado para ouví-la. Questionava como era possível alguém ter tantas cicatrizes acumuladas e simplesmente cuidar delas sozinha e em silêncio por tanto tempo.

Queria dizer-lhe para correr atrás dos seus sonhos. Queria lhe dizer que nunca era tarde para recomeçar.

Queria que ela compreendesse que a causa daquele vazio não era culpa dela, mas cabia somente a ela as mudanças que fariam sua vida finalmente funcionar.

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Presença

Acordou de madrugada e a preguiça não permitiu que abrisse os olhos.Esfregou o rosto, coçou as pálpebras e virou para o outro lado para voltar a dormir, quando suas mãos apalparam o vazio ainda morno, do outro lado da cama. Então abriu os olhos.

O lençol branco e revolto ainda guardava o calor do corpo que esteve ali deitado nos últimos minutos. A cabeça, que repousava naquele travesseiro, havia esquecido alguns fios lisos e louros.

Houve um ruído de água no banheiro, então ele sorriu levemente, feliz por tê-la ao seu lado.
Era bom acordar de madrugada, com a cama vazia, e saber que ela estaria de volta em poucos minutos, usando uma camisa sua para esconder o corpo nu.

Traria do banheiro o seu perfume de baunilha, as mãos geladas por terem sido lavadas. Ou então o calor do chuveiro na pele macia e coberta de penugem fina.

Quis que o banho acabasse logo, para que ela voltasse e o envolvesse com os braços delicados. Provavelmente sussurraria desculpas em seu ouvido, por tê-lo acordado. De certa forma ele gostava dessa ausência que logo seria preenchida pelo brilho que ela trazia para sua vida. Continuar lendo

Lançamento do livro

Olá, amigos queridos!

Finalmente tenho uma novidade para vocês: a data de lançamento do meu livro! AEEEEE, RITMO DE FESTA!

03 de dezembro será o grande dia e eu faço questão da presença de todos que se sentiram tocados pelo o que eu escrevi aqui, ao longo desses anos. Você que sempre leu e nunca se manifestou também, viu?

Já adiantando, é uma reedição dos contos publicados neste e no blog antigo, junto com alguns inéditos.

Nem preciso dizer que é a realização de um sonho e que eu não tinha intenções de publicar um livro tão cedo, não fosse a Navilouca Livros ter aparecido e me feito a proposta assim DO NADA.

No dia do lançamento, o livro vai estar com desconto e você ainda ganha autógrafo e beijinho da autora. ^^

Quero ver todo mundo lá e quem não puder ir, ajuda a divulgar, sim? Vejam o evento no facebook.

Beijos!

Um amor de verdade

Eu sempre fui a garota dos clichês.

Aquela que sempre acreditou que um clichê tem mais do que o óbvio a nos dizer. Sempre acreditei que um clichê dito é apenas isso, algo que todo mundo já sabe. Mas um clichê vivido deixa de ser apenas uma frase feita, para ganhar uma nova essência, dessa vez unido à experiência. À sua pessoal e íntima experiência.

E embora, quando escrevo, eu busque fugir dos lugares comuns tudo o que sempre quis na vida foi viver um clichê. Não canso de repetir que a felicidade está na simplicidade, na busca e não no fim. Seres humanos nunca deixam de querer. Sempre estão em busca, ambicionando, desejando. E não percebem que a felicidade é justamente esta: lutar, correr atrás, querer, trabalhar. A conquista é o êxtase, mas é passageira. Não traz felicidade. E é por isso que eu nunca quis apenas um amor, mas um parceiro de viagem. Continuar lendo

O Corpo – Final

Este post é o final do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO antes de prosseguir.

Ainda ficou algum tempo apertando a garganta do cadáver, até ter certeza de que não havia mais nenhum batimento cardíaco. Soltou-a gradativamente sentindo o sangue voltar aos seus dedos, cujas juntas estiveram brancas pela força. Pousou a mão na própria garganta arfante, apavorada pelo que tinha acabado de fazer. Limpou em um gesto de raiva as lágrimas do rosto e recuou se arrastando pelo chão, até o outro canto do quarto.

De lá ficou olhando as pernas imóveis da morta e tentando assimilar o que aconteceria agora. Sentiu náuseas e correu ao banheiro, onde vomitou tudo o que comeu durante a tarde. Finalmente a respiração foi normalizando, junto ao raciocínio. Primeiro precisava ficar atenta aos sons de fora e verificar se alguém havia ouvido alguma coisa. Permaneceu em silêncio e estática por um bom tempo. Não houve nenhuma movimentação que indicasse suspeitas. Continuar lendo

O Corpo – Parte 4

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS e TRÊS, antes de prosseguir.

No dia em que matou a colega de quarto, ela acordou cedo e foi caminhar pelo campus.
Era o dia perfeito para acontecer, pois era sexta-feira.

Às sextas-feiras, a garota entrava correndo logo depois da academia, jogava algumas roupas dentro da mala, tomava um banho e corria à rodoviária, para não perder o último ônibus para a cidade vizinha, onde morava o namorado. Então não a procurariam por pelo menos dois dias, até o domingo à noite, que era quando ela normalmente retornava.

Neste dia ela teria somente duas aulas de manhã, já que o professor da aula à tarde estava de licença. Então teria tempo de sobra para preparar o quarto para o ritual, antes que a companheira chegasse em seu afobamento. Continuar lendo

O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema? Continuar lendo

O Corpo – Parte 2

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia a primeira parte antes de prosseguir.

Subia ofegante, os degraus do prédio.

Aquele lugar tinha sido sua casa nos últimos anos e refúgio da paixão que foi moldada com o tempo: o oculto.

Durante as aulas aprendeu sobre cultos antigos, deuses misteriosos e sociedades secretas. O assunto cada vez mais despertava seu interesse, até que começou a procurar livros que tratassem de qualquer coisa relacionada a magia e rituais pagãos, participava de palestras e debates sobre ocultismo.

A companheira de quarto não compreendia sua obsessão, que a levava a ter símbolos místicos pintados na parede, pôsteres com encantamentos, imagens relacionadas a diversos rituais de crenças pagãs.

Ela se incomodava, mas não culpava a garota. Ela era atlética, do perfeito estereótipo da bela cheerleader que fazia sucesso pela ala masculina. O pouco tempo que restava das suas horas dedicadas à própria beleza, ela lutava para manter a bolsa da faculdade de fisioterapia. Então sobrava quase nada para entender o que se passava na metade do quarto que não ocupava. Continuar lendo

O Corpo

O último livro estava lá, levemente empoeirado, como sempre. Não era sorte. Aqueles corredores da biblioteca eram pouco frequentados. Depositou a bolsa no chão e subiu os degraus da escadinha móvel para alcançá-lo, enquanto segurava a coxinha entre os dentes.

Quase perdeu o equilíbrio enquanto descia. Apoiou-se na estante e ouviu, com amargura, a madeira estalar sob seu peso.

Pôs a bolsa no ombro, ao mesmo tempo que o livro caiu de sua mão. Curvou-se para pegá-lo e a alça da bolsa pendeu de seu ombro. O breve instante de dúvida, se pegava o livro ou segurava a bolsa, a desestabilizou e tudo foi ao chão. Até a coxinha.

Praguejando, abaixou-se com dificuldade, pegou a bolsa, o livro e a coxinha. Embrulhou a última no guardanapo, recolhendo os pequenos restos de frango que se espalharam, endireitou o corpo com um suspiro e retomou o caminho de volta. Continuar lendo