Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

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A boneca quebrada

Descia a porta de aço, quando as três chegaram: a mãe, a garotinha e a boneca. A segunda chorava.
O homem dos cabelos completamente brancos suspirou e ainda tentou se esquivar.
_Desculpe, já estou fechando. Abro amanhã às nove.
A mãe encarou a filha com um misto de pesar e compreensão. A filha não se deu por vencida. Estendeu as mãozinhas, mostrando a boneca.
_Por favor… Ela foi mordida pelo meu cachorro. É a minha filhinha. Não posso deixá-la com esse corte na barriga.
O velho acocorou-se com um pouco de dificuldade e tomou a boneca nas mãos. O enchimento de espuma saía pelo corte que ia da barriga até o bracinho de borracha. O braço pendia, seguro apenas por algumas costuras resistentes.
_Ela pode repousar esta noite, com você. Traga-a amanhã e eu prometo que a conserto no mesmo dia, tudo bem? Continuar lendo

A arte

Um dia aquilo foi uma farmácia. No outro amanheceu vazio e com tábuas tampando parcialmente a sua fachada.

A mudança foi rápida e eu pude acompanhar todos os estágios da reforma. Vi os homens fortes chegarem, lixarem as paredes judiadas e recobrirem-nas caprichosamente de gesso. Estive lá quando chegaram as prateleiras de madeira clara. Acompanhei o difícil processo de escolha da decoração.

Aos poucos, aquele prédio de aparência decadente, que abrigou gôndolas de remédios, começou a se tornar uma fina loja de finos sapatos.

E das mãos grosseiras daqueles homens brutos surgia um lugar delicado, que exalava luxo e sofisticação.

Trabalhando dia após dia, eles construíram um espaço desenhado especialmente para pessoas que nunca se lembrarão de pensar nos dedos calejados que ironicamente o tornaram tão belo. Continuar lendo

A língua universal

Quando a conheci, ela não começou muito bem: numa freada brusca do ônibus lotado, ela perdeu o equilíbrio e pisou no meu pé. Bendita freada. Quando ela se voltou totalmente constrangida, com as faces e as orelhas vermelhas, se desculpando, meu mundo parou e eu não pude responder nada. Fiquei pasmado diante de sua beleza e da graciosidade de seus movimentos.

Até aquele dia eu nunca havia visto aquela garota que, desde o dia do pisão eu passei a chama-la secreta e pretensiosamente de “Minha Garota”. Mas depois da primeira vez que a vi, notei que pegávamos o ônibus no mesmo horário todos os dias. E também não sei se ela só me notou depois do tal dia, mas só então que reparei que ela me olhava insistentemente. Continuar lendo

Visão

Quando chegamos na estação terminal, os demais passageiros mal respeitaram sua bengala e as pálpebras murchas que cobriam as órbitas vazias.

Prendi a respiração no instante em que ele ultrapassou hesitante pelo vão entre o trem e a plataforma.

Sanfoneiro de Mogi. Cego.

Corri até ele e toquei em seu ombro.

_Está esperando por alguém?

_Deve haver algum funcionário por aqui.

_Não vejo ninguém. Para onde está indo?

_Metrô.

_Posso ajudá-lo até lá. É para onde vou.

Não esperei que respondesse. Tomei-lhe a mão nos braços e num segundo egoísta, fui feliz por poder emprestar-lhe meus olhos. Continuar lendo

Dos assentos reservados

Os assentos reservados são fontes de muita discórdia.

Eu particularmente, nunca me importei em ceder meu lugar reservado, ou não, para quem precisa sentar mais do que eu [Tá, mentira. Quando estou com sono eu me importo um pouquinho.]

Acontece que as pessoas que “precisam sentar mais do que eu” nem sempre trazem a necessidade escrita na testa. Por isso, eu sempre me ferro ao oferecer o lugar a uma suposta grávida, ou a alguém que eu julgo idoso e acabo sendo fulminada por olhares indignados. Continuar lendo

All we need is love…

IMG_1648Depois de esperar o que me pareceu uma eternidade, com meu bebê pesando cada vez mais em meu colo, finalmente o meu ônibus chegou. Lotado. Não que eu realmente me importasse com a quantidade de pessoas no ônibus, já que haviam assentos reservados para quem tem crianças de colo.

Alguns passageiros que estavam em pé nas portas saíram do ônibus para me dar passagem. Um senhor gentil segurou minha bolsa, para que eu pudesse me apoiar no corrimão. Quando finalmente consegui entrar, me deparei com os assentos reservados todos ocupados por idosos. Somente em um havia uma moça sentada com um rapaz retardado. Foi justamente a moça quem se levantou. Continuar lendo