A arte

Um dia aquilo foi uma farmácia. No outro amanheceu vazio e com tábuas tampando parcialmente a sua fachada.

A mudança foi rápida e eu pude acompanhar todos os estágios da reforma. Vi os homens fortes chegarem, lixarem as paredes judiadas e recobrirem-nas caprichosamente de gesso. Estive lá quando chegaram as prateleiras de madeira clara. Acompanhei o difícil processo de escolha da decoração.

Aos poucos, aquele prédio de aparência decadente, que abrigou gôndolas de remédios, começou a se tornar uma fina loja de finos sapatos.

E das mãos grosseiras daqueles homens brutos surgia um lugar delicado, que exalava luxo e sofisticação.

Trabalhando dia após dia, eles construíram um espaço desenhado especialmente para pessoas que nunca se lembrarão de pensar nos dedos calejados que ironicamente o tornaram tão belo.

E esses homens trabalham, preocupando-se com os mínimos detalhes da satisfação de outras pessoas, para que possam levar o sustento para suas famílias. Famílias de mulheres e filhas que dificilmente poderão comprar um sapato na loja que seus pais construíram.

***

Horário de pico.

Hora que tanto as estrelas quanto os poetas lutam para fazerem sentido em sua existência, acima ou abaixo dos prédios e luzes da cidade.

Levo em meu peito os sentimentos escondidos. Lá dentro eles estão protegidos dos olhares indiferentes que me atravessam como se eu não existisse (“folha seca, gota d’água” diria Dalton).

Pareço – mais uma vez – ser a única a sentir o prazer da noite fresca e da brisa em meu rosto.

O ruído agudo, o som de coisas caindo e vejo, a quase dois quarteirões abaixo, um catador de papelão lutando contra o próprio carrinho abarrotado, para brecá-lo na decida íngreme. Suas “mercadorias” se espalham. A mulher ao meu lado para de fuçar o lixo. O homem atrás de mim tira o cobertor da cabeça para olhar. O rapaz alto e bonito que vejo todos os dias troca um olhar de entendimento comigo e puxa as mangas da blusa esfarrapada.

O homem do carrinho hesita. Precisa recolher tudo antes que o semáforo abra.

Surpreendentemente, uma mulher elegante de blazer, camisa, saia e maquiagem se destaca da multidão de espectadores, deposita sua bolsa no colo da amiga, vai até a rua e se curva do alto de seus de saltos, para recolher os papelões, latas e outros recicláveis. O catador desperta, começa a recolher também. A amiga arregalada e constrangida, tentando se ajeitar com as suas coisas mais as da moça prestativa, dá um sorrisinho amarelo para os demais pedestres, como se desculpando pela atitude da outra.

A mulher termina de ajudar o carregador. Ele agradece, sem saber se oferece a mão ou as mete no bolso.

Fico parada, observando a mulher subir em minha direção.

Nossos olhares se cruzam, depois dos olhos dela descerem do céu em busca das estrelas.

Soubemos, então, que não estávamos sozinhas.

***

Caminhei pelo cânion largo de prédios e concreto.

Por mim, passavam muitas pessoas. De todos os jeitos, roupas e tipos.

Entre elas perambulavam, como bufões, seres exibindo suas mutilações e doenças, atrás de um pouco de misericórdia expressa em esmola.

O circo de horrores se estendia por toda avenida, mas a indiferença permanecia uma constante. E como nos filmes, quando determinadas criaturas não são vistas por qualquer um, tanto eu, quanto eles, éramos ignorados. Mas não passávamos despercebidos entre nós. Marginais.

Embora em mim o mal tenha outro nome: alma de poeta.

Essa tirinha é do blog Ryotiras, um dos melhores da categoria em minha opinião. Vale a visita.

7 pensamentos sobre “A arte

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s