A língua universal

Quando a conheci, ela não começou muito bem: numa freada brusca do ônibus lotado, ela perdeu o equilíbrio e pisou no meu pé. Bendita freada. Quando ela se voltou totalmente constrangida, com as faces e as orelhas vermelhas, se desculpando, meu mundo parou e eu não pude responder nada. Fiquei pasmado diante de sua beleza e da graciosidade de seus movimentos.

Até aquele dia eu nunca havia visto aquela garota que, desde o dia do pisão eu passei a chama-la secreta e pretensiosamente de “Minha Garota”. Mas depois da primeira vez que a vi, notei que pegávamos o ônibus no mesmo horário todos os dias. E também não sei se ela só me notou depois do tal dia, mas só então que reparei que ela me olhava insistentemente.

Por diversas vezes pensei em me aproximar, mas nunca fui do tipo comunicativo. E foi justamente por isso que entrei em pânico quando ela tentou falar comigo. Foi na mesma vez que um músico tocava flauta no terminal rodoviário e as pessoas se aglomeravam em volta para ouvir. Neste dia, quando cheguei, Minha Garota ouvia o músico de olhos fechados, parada no meio da pequena multidão. Balançava o corpo docemente, no ritmo da melodia. Era uma visão tão linda, que tive que chegar mais perto dela e sentir o perfume dos seus cabelos. Mas quando eu estava no auge da fungada, ela abriu os olhos e me viu. Curvou os lábios num sorriso cruelmente divertido e me disse algo que começou com “oi” e prosseguia numa frase que não fui capaz de compreender. Eu travei. Não consegui dizer uma única palavra e saí correndo de perto dela tropeçando e esbarrando nas outras pessoas. Fico imaginando o que passou pela sua cabeça depois da minha atitude ridícula.

Infelizmente, minha reação realmente não foi bem interpretada, pois depois disso, quando a encontrava no ônibus, ela evitava me encarar e tinha uma expressão confusa.

Por sorte (ou destino, não sei) tudo se esclareceu depois de algumas semanas, quando fui a um bar com uns amigos e ela também estava lá.

Tão logo a avistei, fiquei constrangido. Ainda tinha a memória do mico fresca em minha cabeça. Ela porém, não tirava os olhos da nossa mesa – aliás, exatamente como todas as outras pessoas do bar. Costumamos chamar a atenção quando todos da minha turma saem juntos. E depois de alguns longos minutos, ela se levantou e veio em nossa direção sendo seguida pelos olhares das outras mesas. Tocou no ombro de um dos meus amigos e lhe disse algumas palavras. Ele sorriu, virou-se para mim e me traduziu em libras (Língua Brasileira de Sinais): “Por que você nunca me falou dessa gata? Ela está me pedindo para te dizer que a desculpe, mas ela nunca poderia imaginar que você fosse surdo-mudo.”

Comecei a tremer. E o pior de falar com as mãos, é que aí que você não tem mesmo como disfarçar a tremedeira.

Tentando não “gaguejar”, respondi que não havia do que se desculpar, pois a comunicação entre nós dois seria complicada mesmo, o que foi rapidamente traduzido pelo nosso intérprete.

Ela então deu aquele sorriso maravilhoso dela, veio até mim e me beijou. Foi a melhor e mais clara resposta que recebi em toda a minha vida.

Depois me contaram que fomos aplaudidos pelo bar inteiro. Eu não vi. Estava com os olhos bem fechados nessa hora…

10 pensamentos sobre “A língua universal

  1. Nossa, viadagem pura hein? hauhuahuahah

    Tá que não é pra ninguém entender essa frase, mas você entende. ;] Texto ficou ótimo, como sempre você sabe como tocar as pessoas e manter um certo suspense na sua escrita. Além disso, me faz lembrar uma parte muito pessoal da minha vida. Realmente bonito. Parabéns.

  2. Dizem por aí que o homem tem 5, talvez 6 sentidos.
    Sempre que leio textos assim tenho certeza que o homem tem 7, e o sentido que ocupa o número da perfeição é o amor.
    Ele funciona na ausência de todos os outros, de perto ou de longe. Só precisa de um estímulo.


    Depois das divagações, um beijo pra autora😉

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