A garota da capa

comissao-formaturaPegávamos o mesmo ônibus todos os dias, ida e volta.

Ela sempre foi simpática, sempre se ofereceu para carregar minhas coisas quando eu estava em pé e nunca deixou de me cumprimentar quando passava por mim.

Eu sempre fui gentil com ela, mas não deixei de julgá-la por não cortar os cabelos completamente brancos e se vestir como prega a religião evangélica.

Até o dia em que ela se senta à minha frente e dispara a falar sobre o seu dia corrido e passagem no médico. Continuar lendo

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Longas pernas

metroImaginem o cenário: metrô de São Paulo, 8h30 da manhã.

A cada três metrôs no sentido oposto, passa um no sentido no qual preciso pegar.

E os metrôs que passam (a cada três do sentido oposto) estão tão abarrotados que não dá tempo das pessoas de dentro saírem e as de fora entrarem.

Então a plataforma vai se enchendo cada vez mais.

No sexto metrô que para, abre e sai gente, vejo uma brecha com o exato espaço para caber a mim, meio de lado e com a perna esquerda levantada, mais a minha mochila. Contraio a barriga, desvio de um cotovelo e entro, esperando a porta fechar atrás de mim para poder soltar meu peso contra ela. Continuar lendo

O ponto

alone-calle-chica-choices-chuva-city-Favim.com-38973No meio do caminho para o ponto de ônibus a chuva começou a cair.

Tudo nessas horas é relativo. A metade do caminho pode ser muito longe se o caminho todo tem coisa de dois quilômetros e também pode ser bem perto, caso o ponto de ônibus fique a menos de cinquenta metros do ponto de partida. Ainda assim, a distância a ser percorrida é relativamente proporcional à intensidade da chuva, seja essa distância dois quilômetros ou dois metros.

No meu caso foram dez metros que bastaram para que eu me abrigasse já ensopada sob o telhado do ponto.

Sob ele também se escondia um rapaz, de boné e regata vermelhos. Ele trazia um carrinho daqueles de sacoleira, onde se encaixa na parte metálica bolsas, caixas e outras coisas ruins de carregar e se prende tudo com uma corda elástica, que tem dois ganchos, um em cada ponta. O carrinho trazia umas três caixas, já todas deformadas pela tensão do elástico e, provavelmente, por uma viagem longa. Continuar lendo

Remendado

letitgoAcordou com uma tristeza que não era natural dela.

Ainda deitada, tentou se lembrar do que sonhou. Não lembrou. Mas pelo vazio inconveniente que sentia, o sonho era mesmo o causador da melancolia.

Resolveu que não adiantava ficar se lamentando, espreguiçou e levou o vazio para fora da cama, alongando os membros.

Enquanto escovava os dentes se lembrou do dia em que encontrou o ex-namorado pela última vez. Eles ainda não sabiam que aquela seria a última vez que se veriam mas, depois do amor, repentinamente ela sentiu vontade de chorar. Não havia motivos para isso e nunca havia acontecido antes. Para que ele não percebesse seus olhos cheios de lágrimas o abraçou, até que conseguisse se controlar. Agora sabia que esse acontecimento, aparentemente inexplicável, fora sua intuição avisando-a de que tudo iria terminar. Continuar lendo

Apenas

Ela se vestia como qualquer senhora da sua idade. Nela tudo era branco: as calças, a camisa de seda e os cabelos cortados em um chanel. Sem um fio de outra cor, apenas cabelos brancos. Entrou na livraria olhando ao redor, procurando algo ou alguém que a ajudasse.

O rapaz sentado na poltrona vestia camisa e calça social. Gravata não. O cabelo cuidadosamente penteado para o lado mostrava que não era do tipo ousado, que assumia riscos. Gostava de ficar ali sentado, apenas para fugir.

A mulher idosa passou pelo rapaz e se sentou ao lado de uma garota de vermelho, cabelos curtos e olhos azuis. Não as íris. Apenas as pálpebras. Estavam pintadas. Ela estava armada de caderno e caneta. Um perigo. Continuar lendo

O pijama

Logo cedo, expediente recém-iniciado, alguns funcionários ainda chegando e tudo o que se ouvia pelo escritório era o som das teclas sendo digitadas freneticamente.

A moça da cozinha passou com a garrafá de café, trazendo aquele cheiro maravilhoso e inebriante para o ambiente. Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

O próximo ponto

Sei lá, ela só estava ali sentada no banco do ônibus, do lado da janela, sem grandes expectativas a respeito daquele fim de tarde. Nada demais. Coisa básica, normal.

Só que, entre uma curva e um farol fechado, quatro caras deram sinal para o ônibus e assim que ele deu partida anunciaram o assalto.

Enquanto um deles segurava uma arma nas costas do motorista, com instruções claras sobre agir normalmente e não parar o ônibus antes do próximo ponto, o segundo pulou a catraca para tirar tudo o que houvesse de valor dos passageiros e o terceiro fazia “a limpa” na caixa do cobrador.

Assim como os demais usuários de transporte público ali presentes, ela entregou a carteira, celular e relógio sem levantar o rosto e já estava achando que tudo ia ficar bem quando o bandido pediu sua aliança de noivado. Aí não aguentou mais, começou a chorar e entregou a aliança.

Encolheu-se na sua janela, soluçante e lacrimosa, querendo que tudo passasse bem rápido, quando o quarto rapaz, que estava na parte da frente do ônibus, percorreu o veículo, como se estivesse inspecionando o serviço dos comparsas.

Pelo jeito ele era o chefe de todos e, ela encolheu-se ainda mais, parou exatamente ao lado dela. Sentindo a boca do estômago se contrair, ela não conseguia forças para erguer os olhos, quando tomou o maior susto da sua vida: Continuar lendo

Na estação

Era um dia normal na estação de trem.

Fora de horário de pico, sem grandes atropelos e correrias. Apenas os passageiros de ocasião, agindo como se não pertencesse àquela realidade, ou expressando toda a sua rebeldia contra o sistema pisando na faixa amarela.

Um mendigo desce a escada degrau a degrau, até chegar na plataforma, onde deposita sua enorme bolsa e fica aguardando o trem como os demais, porém comportadamente apoiado em sua bengala.

Um homem de mochila, uma mãe com seu bebê e um casal adolescente chegaram antes do trem despontar ao fim da linha.

Todos se aglomeram gradativamente na direção de parada das portas, enquanto o veículo estacionava devagar.

O mendigo aguardou que todos entrassem e segurou a porta, para que a mãe com o bebê entrasse, sorrindo divertido para a criança. Só entrou quando o sinal de fechamento das portas soou. Continuar lendo

A senhora do brinco de pérola

No dia do meu aniversário, acompanhei meus avós ao médico.O hospital era na capital, e eles ficam inseguros de desbravar o metrô paulista, com sua infinidade de linhas e estações novas.Eu não sabia muito bem como chegar lá, mas tecnologia é pra essas coisas mesmo e com o Google Maps, mais o GPS chegamos sãos e salvos ao destino.Enfrentamos a área metropolitana, com suas pessoas apressadas, multidões que se movem como cardumes e filas. Muitas filas. Olhando esse mar de rostos, entendemos de onde surgem os clichês e o porquê de esquecermos que cada pessoa que nos cruza o caminho é um universo.Passamos pelo mundo como se todos que nos cercam fossem apenas mais um. Porém são nossas experiências que nos fazem únicos, e principalmente, é justamente essa individualidade que nos faz iguais.

Enquanto esperava meu avô ser atendido, duas senhoras – ambas entre setenta e cinco e oitenta anos – se sentaram ao meu lado e a mais delicada, de cabelo louro e brinco de pérola, falou-me sobre a insônia que enfrentara aquela madrugada.

_Acordei uma da manhã e não dormi mais. Então levantei, faxinei a sala e passei toda a roupa, até ela acordar – e apontou para a irmã ao seu lado.

A outra acrescentou que viviam juntas desde sempre e a irmã era muito mais organizada que ela, com mania de limpeza. Continuar lendo