A lágrima

olhar-velhiceQuando ouviu o som da voz dele, chamando-o pelo nome,  uma grossa lágrima, apenas uma, escorreu de seu olho esquerdo.

Teria morrido ali, na bolsa da pálpebra inferior que marcava um sério cansaço de viver, devido à sua posição meio deitado, meio sentado. Mas era uma gota grossa, pesada. Um tanto hesitante, ultrapassou os limites das olheiras e prosseguiu seu caminho lentamente deixando, porém, uma pequena porção do líquido adentrar as rugas laterais e se dirigir as têmporas, atingindo o cabelo branco.

A maior parte continuou descendo aos poucos, pelas maçãs do rosto, iniciando um traço firme que refletia a luz, pelo rosto moreno que ainda guardava uma réstia do semblante que tivera quando moço. Se os olhos estivessem abertos, mostrariam o mesmo brilho que refletiam na juventude. O brilho de quem sempre acreditou na conquista pelas próprias mãos, mesmo quando ainda não tinha idade para conquistar coisa alguma. Continuar lendo

Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado. Continuar lendo

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo

Perdido

 

“Depois da noite de amor, ofereceu-lhe o coração e ela usou como cinzeiro.”

 

deka1

Aproveitando o surto produtivo do Wesley Samp, aqui está um microconto meu ilustrado por ele. =)

Tem mais Samp em seu site Os Levados da Breca.

Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.” Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

Tempo

Chegou em casa carregando todo o peso do dia nas costas.

Foi deixando as peças de roupa pelo caminho ao chuveiro. Quis prolongar o banho, mas se lembrou que fazia dias que não dormia horas suficientes. Então desligou a contragosto e ficou olhando o vapor sair pelo vitrô.

Enxugou-se, desembaçou o espelho com a toalha e ficou encarando a própria palidez com olheiras profundas. Tinha mesmo um ar cansado. Era melhor comer algo rápido e ir dormir logo, pois o dia seguinte seria cheio.

Foi para a cozinha sem se vestir. Praguejou por ter esquecido de colocar o congelado no microondas durante o banho, para economizar tempo. Cinco minutos faziam muita diferença.

Acompanhava impaciente os segundos regressivos do visor e, embalado pelo som do aparelho, fez a retrospectiva da sua vida até ali. Não chegara nem perto de onde queria estar, com aquela idade. Era do tipo que via cada dia como um dia a menos de vida. Apenas via a morte se aproximando, sem ter evoluído.

O microondas apitou. Continuar lendo

O Corpo – Final

Este post é o final do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO antes de prosseguir.

Ainda ficou algum tempo apertando a garganta do cadáver, até ter certeza de que não havia mais nenhum batimento cardíaco. Soltou-a gradativamente sentindo o sangue voltar aos seus dedos, cujas juntas estiveram brancas pela força. Pousou a mão na própria garganta arfante, apavorada pelo que tinha acabado de fazer. Limpou em um gesto de raiva as lágrimas do rosto e recuou se arrastando pelo chão, até o outro canto do quarto.

De lá ficou olhando as pernas imóveis da morta e tentando assimilar o que aconteceria agora. Sentiu náuseas e correu ao banheiro, onde vomitou tudo o que comeu durante a tarde. Finalmente a respiração foi normalizando, junto ao raciocínio. Primeiro precisava ficar atenta aos sons de fora e verificar se alguém havia ouvido alguma coisa. Permaneceu em silêncio e estática por um bom tempo. Não houve nenhuma movimentação que indicasse suspeitas. Continuar lendo

O Corpo – Parte 4

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS e TRÊS, antes de prosseguir.

No dia em que matou a colega de quarto, ela acordou cedo e foi caminhar pelo campus.
Era o dia perfeito para acontecer, pois era sexta-feira.

Às sextas-feiras, a garota entrava correndo logo depois da academia, jogava algumas roupas dentro da mala, tomava um banho e corria à rodoviária, para não perder o último ônibus para a cidade vizinha, onde morava o namorado. Então não a procurariam por pelo menos dois dias, até o domingo à noite, que era quando ela normalmente retornava.

Neste dia ela teria somente duas aulas de manhã, já que o professor da aula à tarde estava de licença. Então teria tempo de sobra para preparar o quarto para o ritual, antes que a companheira chegasse em seu afobamento. Continuar lendo

O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema? Continuar lendo