A garota da capa

comissao-formaturaPegávamos o mesmo ônibus todos os dias, ida e volta.

Ela sempre foi simpática, sempre se ofereceu para carregar minhas coisas quando eu estava em pé e nunca deixou de me cumprimentar quando passava por mim.

Eu sempre fui gentil com ela, mas não deixei de julgá-la por não cortar os cabelos completamente brancos e se vestir como prega a religião evangélica.

Até o dia em que ela se senta à minha frente e dispara a falar sobre o seu dia corrido e passagem no médico. Continuar lendo

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A lágrima

olhar-velhiceQuando ouviu o som da voz dele, chamando-o pelo nome,  uma grossa lágrima, apenas uma, escorreu de seu olho esquerdo.

Teria morrido ali, na bolsa da pálpebra inferior que marcava um sério cansaço de viver, devido à sua posição meio deitado, meio sentado. Mas era uma gota grossa, pesada. Um tanto hesitante, ultrapassou os limites das olheiras e prosseguiu seu caminho lentamente deixando, porém, uma pequena porção do líquido adentrar as rugas laterais e se dirigir as têmporas, atingindo o cabelo branco.

A maior parte continuou descendo aos poucos, pelas maçãs do rosto, iniciando um traço firme que refletia a luz, pelo rosto moreno que ainda guardava uma réstia do semblante que tivera quando moço. Se os olhos estivessem abertos, mostrariam o mesmo brilho que refletiam na juventude. O brilho de quem sempre acreditou na conquista pelas próprias mãos, mesmo quando ainda não tinha idade para conquistar coisa alguma. Continuar lendo

Apenas

Ela se vestia como qualquer senhora da sua idade. Nela tudo era branco: as calças, a camisa de seda e os cabelos cortados em um chanel. Sem um fio de outra cor, apenas cabelos brancos. Entrou na livraria olhando ao redor, procurando algo ou alguém que a ajudasse.

O rapaz sentado na poltrona vestia camisa e calça social. Gravata não. O cabelo cuidadosamente penteado para o lado mostrava que não era do tipo ousado, que assumia riscos. Gostava de ficar ali sentado, apenas para fugir.

A mulher idosa passou pelo rapaz e se sentou ao lado de uma garota de vermelho, cabelos curtos e olhos azuis. Não as íris. Apenas as pálpebras. Estavam pintadas. Ela estava armada de caderno e caneta. Um perigo. Continuar lendo

Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda? Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

A boneca quebrada

Descia a porta de aço, quando as três chegaram: a mãe, a garotinha e a boneca. A segunda chorava.
O homem dos cabelos completamente brancos suspirou e ainda tentou se esquivar.
_Desculpe, já estou fechando. Abro amanhã às nove.
A mãe encarou a filha com um misto de pesar e compreensão. A filha não se deu por vencida. Estendeu as mãozinhas, mostrando a boneca.
_Por favor… Ela foi mordida pelo meu cachorro. É a minha filhinha. Não posso deixá-la com esse corte na barriga.
O velho acocorou-se com um pouco de dificuldade e tomou a boneca nas mãos. O enchimento de espuma saía pelo corte que ia da barriga até o bracinho de borracha. O braço pendia, seguro apenas por algumas costuras resistentes.
_Ela pode repousar esta noite, com você. Traga-a amanhã e eu prometo que a conserto no mesmo dia, tudo bem? Continuar lendo

Gentileza gera gentileza – ou “A arte de falar sobre clichês”

Sim, eu sei que é clichê. Mas eu preciso repetir mais uma vez que clichês só existem porque acharam a frase bonita, contudo você só compreende realmente um clichê após vivenciá-lo? Acho que não, né? Great.

Cansei de ouvir pessoas falarem da grosseria das pessoas.
Pode não ser maioria, mas eu encontro gente educada TODOS os dias. Sério!

Vou contar dois causos que aconteceram comigo, no ambiente menos propício para gentilezas around the world: o metrô de São Paulo. Continuar lendo

Eternidade

Dos assentos reservados

Os assentos reservados são fontes de muita discórdia.

Eu particularmente, nunca me importei em ceder meu lugar reservado, ou não, para quem precisa sentar mais do que eu [Tá, mentira. Quando estou com sono eu me importo um pouquinho.]

Acontece que as pessoas que “precisam sentar mais do que eu” nem sempre trazem a necessidade escrita na testa. Por isso, eu sempre me ferro ao oferecer o lugar a uma suposta grávida, ou a alguém que eu julgo idoso e acabo sendo fulminada por olhares indignados. Continuar lendo

Tampando o sol com a peneira

2009 ou 1909Depois de um ano pesquisando tudo sobre determinado assunto e trabalhando em cima de um mesmo tema, é inevitável acabar se envolvendo.

A primeira grande prova disso foi no ano passado, quando o meu projeto era planejar uma campanha para uma ONG e posso afirmar que foi o trabalho mais denso e emocionalmente extenuante no qual já investi meu tempo.

Este ano a proposta era algo mais leve: uma campanha real para um cliente real e nossa agência experimental acabou por optar por determinada marca de preservativos como cliente. A ideia era trabalhar o conceito “todo mundo pensa em sexo”. Todo mundo MESMO. Continuar lendo