Leia-me: Senhora

3772682492Quase tanto quanto a marquinha de vacina no braço, faz parte do protocolo de brasilidade ser obrigado a ler José de Alencar quando se está na escola. Muita gente cria verdadeira aversão pelo autor nessa época porque, convenhamos, o cara tinha uma inacreditável tara por detalhes, chegando a levar três páginas para descrever o vestido de uma dama em um baile.

Porém esta categoria de posts serve para sugerir livros que me agradaram e, embora eu seja do contra e ame José de Alencar, acredito que Senhora seja uma leitura mais do que necessária: surpreendente e prazerosa. (Acho que vocês já perceberam que tenho um fraco por histórias legais, então perdoem-me se não gostaram do livro).

Gosto de Senhora por vários motivos. O primeiro deles: como a maioria dos clássicos da literatura nacional, é o retrato de uma época (no caso, sociedade fluminense na época do segundo império). E não é um retrato político ou histórico. É mais íntimo. É um retrato do que acontecia dentro das casas, nas saletas das recepções oferecidas pelos membros da corte. Um retrato do comportamento das pessoas em um determinado contexto histórico. Pronto. Já me ganhou. Continuar lendo

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Irreversível

Enjoy the silence – final

Ele caiu do tronco quase desfalecido. E disse-me as palavras que nunca vou esquecer:

_Meu coração sempre baterá por Sinhazinha.

A fúria me tomou de tal forma, que chutei-lhe o rosto e pude ouvir o som de seu nariz se quebrando.

_Mate-o – ordenei ao feitor.

Ele me olhou aparvalhado.

_Mate-o logo. Mate logo essa besta nojenta, antes que você tenha o mesmo destino que ele!

Ele tirou o revólver do cinturão e eu o impedi.

_Não! Arranque o coração dele!

O feitor gaguejou, começou a tremer. Balbuciou qualquer coisa de que era muita crueldade. Eu nem ouvia apenas esperava, com os punhos cerrados e os lábios comprimidos. Continuar lendo

Enjoy the silence…

Já fazia alguns anos que eu havia seguido minha vocação e dedicado o meu destino ao Senhor. Era a ajudante pessoal da Madre Superiora e nunca imaginei que este posto me colocaria na terrível situação que narrarei.

Entre minhas tarefas habituais, estava organizar o escritório da Madre e cuidar das moças rebeldes que iam parar dentro das nossas paredes. Dentre estas, uma é a personagem principal de um romance não correspondido, cujas consequências foram terríveis.

Tratava-se da filha de um coronel, que como tantas outras trouxe humilhação social à sua família. O caso era que estas moças sempre acabavam nos conventos, nunca por vocação. Nestas situações, costumávamos não fazer muitas perguntas, porém especulações são inevitáveis: Ela não tinha a aparência de quem abortara algum filho, ou mesmo que tivesse sido afastada de um amor impróprio. Na verdade, parecia feliz por estar entre nós. Chegou um tanto pálida e fragilizada, é verdade. Mas carregando um leve sorriso de alívio nos lábios, o que me intrigava. Continuar lendo