Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.” Continuar lendo

Anúncios

Um conto extraordinário

Ela não teve uma vida extraordinária.

Cresceu em um bairro sossegado, de uma cidade do interior, brincando com os meninos da rua, porque na rua não tinha tantas meninas assim e as que tinha, preferiam brincar de passa anel do que de polícia e ladrão.

Os meninos riam de suas sardas e da boca grande, mas ela botou apelidos em todos eles, então estavam quites.

Todos estudaram na mesma escola, durante a infância, mas se separaram no colegial. Os meninos foram estudar no centro da cidade e ela foi transferida, junto com as meninas, para o colégio do bairro, então tentou se aproximar delas. Mas elas preferiam se maquiar, enquanto ela ouvia Ramones. Deixou pra lá. Continuar lendo

Verão

O calor era tão grande que o silêncio reinava sob o sol a pino.Os animais se escondiam debaixo das copas das árvores, buscando por qualquer réstia de sombra que pudesse lhes proporcionar frescor. Muitos se deitavam nas águas rasas do riacho para refrescar e todos evitavam subir nas pedras, tão quentes que era possível ver a quentura subindo em ondas inquietas.

A madeira das árvores antigas, e já mortas, expandia e estalava com o calor. O ar estava cálido e parado, como se todo o bosque estivesse envolto em um espaço fechado como uma estufa.
Seria impossível continuar suportando aquilo, se próximo ao início da tarde uma leve brisa não começasse a balançar as folhas da vegetação.

Algumas horas mais tarde e a brisa já havia se transformado em vento, que forçava as árvores a curvarem seus troncos a seu gosto, todas envolvidas na mesma força e no mesmo ritmo.

Os pássaros tentavam lutar contra as forças da natureza, mas o esforço apenas os mantinha voando no mesmo lugar, até que desistiam e se deixavam planar exaustos, a favor do vento. Continuar lendo