O coração

Lembro-me muito bem da rua em que passei toda a minha infância.

Não era uma rua muito extensa e não tinha saída, então a criançada sempre brincava ao ar livre, depois do horário da escola. Devíamos ser uns dez pirralhos, entre meninos e meninas e brincávamos juntos quase todos os dias, a não ser quando alguém ficava de castigo. Normalmente, quando isso acontecia, era por alguma arte coletiva e não raro, ficávamos todos no cantinho pensando.

A maior casa da rua era para aluguel. Diversas famílias passaram por ela, no período em que vivi lá. De todas, uma teve participação em um dos episódios mais marcantes da minha vida. Continuar lendo

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A boneca quebrada

Descia a porta de aço, quando as três chegaram: a mãe, a garotinha e a boneca. A segunda chorava.
O homem dos cabelos completamente brancos suspirou e ainda tentou se esquivar.
_Desculpe, já estou fechando. Abro amanhã às nove.
A mãe encarou a filha com um misto de pesar e compreensão. A filha não se deu por vencida. Estendeu as mãozinhas, mostrando a boneca.
_Por favor… Ela foi mordida pelo meu cachorro. É a minha filhinha. Não posso deixá-la com esse corte na barriga.
O velho acocorou-se com um pouco de dificuldade e tomou a boneca nas mãos. O enchimento de espuma saía pelo corte que ia da barriga até o bracinho de borracha. O braço pendia, seguro apenas por algumas costuras resistentes.
_Ela pode repousar esta noite, com você. Traga-a amanhã e eu prometo que a conserto no mesmo dia, tudo bem? Continuar lendo

Reconciliação

Naquele dia eu cheguei ao extremo de me revoltar com as palavras, minhas tão queridas amigas. São sempre elas que me salvam das minhas dores mais silenciosas e dos meus desejos mais reprimidos. Tenho quilos de textos que guardo para nunca serem lidos por ninguém. Escrever acabou por se tornar necessidade física, sendo que não consegui-lo me dói fisicamente. Apenas mais uma contradição para me definir: as palavras me libertam e me escravizam.

E talvez por ter essa familiaridade com elas e certa facilidade em orienta-las ao sabor dos meus caprichos, prefiro dizer com gestos antes das palavras. E quando eu as uso é pra valer. Continuar lendo