Coisas boas da semana

A semana começou em clima de festa, emoção e euforia. Houve um grande orgasmo nacional, quando nós parecemos descobrir que nós temos voz e podemos sair às ruas para fazer essa voz ser ouvida.

Mas aí o fio condutor chegou ao fim: o movimento conquistou o seu objetivo inicial, que era o cancelamento do aumento da passagem e o principal motivo da mobilização acabou. O que restou?

Todo o resto. O que é MUITA coisa.

Restou a indignação da população por nunca ser a prioridade do governo. A revolta presa na garganta há tempo demais para ser calada a essa altura do campeonato. Restaram todas as deficiências do nosso sistema, toda a carência do nosso povo e toda a vontade de fazer alguma coisa mudar.

E então o que veio? A descoberta de que nem todos concordam com você. Depois do fogo inicial, as diferenças de opinião tiveram a oportunidade de aparecer. E aí o nosso individualismo e dificuldade de aceitar o que é diferente da gente foi jogado na nossa cara.

Mas a gente ainda tem muita coisa pra conquistar, galera. Discordar é normal e os diferentes pontos de vista precisam ser relevados de vez em quando, pelo bem comum. E não dá para fazer a maioria pagar por uma coisa que só você acredita. (Não estamos vendo isso acontecer ao vivo, na Comissão de Direitos Humanos, com o egoísmo do Marco Feliciano?)

Então, tudo o que eu tenho a dizer é um grande “não sei.” Estarei hoje a noite marchando pela minha cidade, porque eu acredito que a “redução” da passagem aqui foi não só injusta, mas também de consequências questionáveis.

Mas não sei se continuarei marchando, caso veja que as pessoas estão mais interessadas em provar que o seu ponto de vista é o certo, do que em exigir uma mudança que ajudará a todos.

Brigada eu.

Imagem

Cinthya Raquel – Desgostosa (miniconto)

Arte na Cara (Igor Disco) – Minha carta pra ti (miniconto)

Mentirinhas (Fabio Coala) – Poder (HQ)

Nunca fui Fofa (Dre Reze) – Televisionado? Não, delivery (crônica)

Entre Todas as Coisas (Daniel Bovolento) – Toda forma de amor (crônica)

Bichinhos de Jardim (Clara Gomes) – Semear (HQ)

Bolinho do Apocalipse (Juliana Cimeno) – Como filmar uma revolução (informativo)

Substantivolátil (Mirian Bottan) – A revolução burra* (crônica)

Hqrizando (Cleber Betto) – A menina, seus problemas e o urso xereta (tirinha)

Os Levados da Breca (Wesley Samp) – Mundo Levados (tirinha)

A Vida \o/ de Lucas Batista (Omeletv) – Episódio 1 (websérie)

Boas novas (Diego Freire) – Meio Ambiente (vídeo)

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Leia-me: Negras Raízes

43750_305Com algumas semanas de Leia-me vocês já devem ter notado que eu tenho alguns padrões para gostar de livros e que um desses padrões é que eles me ensinem sobre a cultura e/ou comportamento de uma sociedade de um determinado local e/ou época.

Sei lá, só sei que sou fascinada por saber como são ou eram os protocolos e pequenos rituais que as pessoas precisam ou precisavam seguir para conviver em uma determinada época ou lugar.

Por isso gosto tanto dos livros do José de Alencar e por isso gostei tanto do livro que sugiro hoje: Negras Raízes de Alex Haley. O autor conta a história da escravidão nos Estados Unidos a partir de sua própria genealogia, começando do seu trisavô, Kunta Kinte, que foi traficado aos EUA como escravo africano e terminando a história em si mesmo. Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

Fada

Houve, certa vez, um fenômeno curioso em certa colônia de lagartas, que procuravam uma maneira de se proteger dos predadores.

Com medo de alçarem vôo, ser caçadas por pássaros e tornarem-se alvos fáceis por conta das cores de suas asas, começaram a encruar sua metamorfose e tornavam-se qualquer coisa entre um casulo e uma larva.

Com isso, a população rastejante permaneceu abrigada em seu tronco de árvore, sempre convencendo as crianças a seguirem seu exemplo e não se metamorfosearem completamente. Surpreendentemente, seu sistema reprodutor se desenvolvia e a espécie sobreviveu e cresceu, embora incompletas, reproduzindo-se entre si mesmos.

Até o dia em que um ovo foi botado virado para o céu. E quando a larva eclodiu, a primeira coisa que seus olhos turvos viram, foi a luz do sol atravessando duas folhas da copa da árvore. Continuar lendo

O cara das Mentirinhas

Uma vez, não me lembro onde, li que os artistas têm o dom de ver coisas que ninguém mais é capaz e, por isso, cabe a eles mostrar tais coisas ao mundo. As palavras não eram exatamente essas, mas a essência da ideia tá aí.

Começo com essa introdução pois um dos meus amigos tem usado de seu talento para expressar tais detalhes do mundo, de uma maneira que tem me tocado muito.

Devido à qualidade de seu trabalho, tenho certeza de que a maioria de meus leitores já o conhecem, através do site Mentirinhas, onde ele posta tirinhas feitas em sua maioria de um humor peculiar e ironia finíssima.

Porém eu venho destacar o lado mais sensível do Fabio Coala, que tem sido postado em pequenas doses no mesmo site. E em cada uma delas, tem me tocado tanto, que descobri porque esses posts vêm só de vez em quando. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Despedida

Conto de Renatto Neves. Conhece seu blog Textosterona?
Era sábado. Um sábado um pouco diferente dos convencionais. Meio atordoado com a notícia que acabara de receber, ele apenas passou a mão na sua jaqueta preta já surrada pelo tempo e caminhou em direção a porta. Estava tão pensativo que deixou a porta entreaberta com os seus trincos todos desprezados. Não era comum. Ele morava em
um barraco que já fora vítima de alguns arrombamentos. Mas isso não importava. Caminhando na rua pouco  iluminada, logo avista o seu lugar de refúgio: o bar da esquina. Entre gritos de euforia de uma turma que fazia algazarra jogando sinuca, em um gesto discreto cumprimenta o dono do bar, este que sentia que o sujeito não estava bem. Adivinhando a necessidade de seu cliente, Seu Neco, como era conhecido por toda a região, enche um copo com o seu melhor conhaque e oferece ao rapaz, como em um abraço confortante em um filho tentando tapar algum buraco interno. Sem pestanejar, uma golada. Põe a mão no bolso, pega um cigarro, acende. Pede outro copo e começa a
reparar nas pessoas que lhe faziam companhia. Sem nada de atrativo, vira mais um copo em uma única golada e continua sua jornada. Continuar lendo

Nudez – 3: Segredo

Recuou dois passos para admirar a fotografia em toda a sua dimensão e resolveu que não tinha mais nada para anotar, sobre aquela imagem.
Ainda não sabia como havia conseguido convencer o editor do jornal a deixá-la ir àquela vernissage, mas sabia que seria sua estréia nas críticas de arte e não queria perder um só detalhe.
Empunhando o caderninho de notas e a caneta, suas armas favoritas, caminhava lentamente pela exposição. O fotógrafo era talentoso, embora seu nome ainda não fosse muito conhecido no “meio”. Talvez esse fosse o real motivo dela ter conseguido persuadir o editor. Não importava, no entanto. Ela provaria ao editor, ao jornal e aos leitores que ela estava pronta para encarar o novo desafio e que o tal fotógrafo era a revelação do ano. Continuar lendo

Metaeumesmismo

Chega. Cansei. Deixe-me em paz. Você só atrasa a minha vida.

Isso é ridículo. Não há você sem mim.

É o contrário, tola. Não há mim sem você… Digo, você não existe sem mim.

Pode ser. Mas o limite entre todos esses “vocês”, “mins” e “eus” é mais tênue do que você imagina.

Diga “nós”, então.

Não há “nós”. Somos uma só. Continuar lendo

A arte

Um dia aquilo foi uma farmácia. No outro amanheceu vazio e com tábuas tampando parcialmente a sua fachada.

A mudança foi rápida e eu pude acompanhar todos os estágios da reforma. Vi os homens fortes chegarem, lixarem as paredes judiadas e recobrirem-nas caprichosamente de gesso. Estive lá quando chegaram as prateleiras de madeira clara. Acompanhei o difícil processo de escolha da decoração.

Aos poucos, aquele prédio de aparência decadente, que abrigou gôndolas de remédios, começou a se tornar uma fina loja de finos sapatos.

E das mãos grosseiras daqueles homens brutos surgia um lugar delicado, que exalava luxo e sofisticação.

Trabalhando dia após dia, eles construíram um espaço desenhado especialmente para pessoas que nunca se lembrarão de pensar nos dedos calejados que ironicamente o tornaram tão belo. Continuar lendo