O homem indiferente

O homem indiferente acordou sem notar que sua música favorita tocava no rádio-relógio que era do pai. Andou um tanto trôpego, esfregando os olhos até o banheiro e, quando tirou o pijama, não viu que um botão pulou fora e foi quicando até o ralo do chuveiro.

Tomou banho com o sabonete de sempre e não reparou no shampoo que estava quase no fim. Por pouco não tropeça no tapetinho embolado na frente do boxe. Continuar lendo

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Memórias de 2010

Então encerramos mais um ciclo.
E acredito que a partir do momento em que o ser humano teve consciência da sua consciência, conscientemente ou não, acaba parando para repensar todos os seus atos, conquistas, tentativas e erros. Da mesma forma que, assim que começou a marcar o tempo de sua existência, deixou esse exercício mental para o encerramento dos ciclos.
Voltas e mais voltas para introduzir o que chamamos de retrospectiva.
Estes ciclos que eu estou encerrando [plural pois, além do final do ano geral, em breve eu também completarei outro ano da minha existência] foram de acontecimentos ímpares. Foi o ano em que me formei. O ano em que tentei diversas vezes e diversas coisas. E não conquistei nenhuma delas. Mas foi o ano em que mais descobri coisas e que aquela pessoa que existia dentro de mim, sufocada por pequenos e grandes medos, cresceu, apareceu, tomou forma e se impôs como quem eu realmente sou. Continuar lendo

Seguindo em frente

A caixa de óculos

_Você precisa trocar sua caixinha do óculos.
Sorri discretamente e alisei a embalagem de acrílico, já trincada e cheia de riscos. Na tampa, um adesivo do Bob Esponja meio gasto pelo atrito com os outros objetos que infestam a bolsa feminina.
_Troco os óculos, mas não troco a caixa.
A maioria não entende todo esse apego, mas a questão não é a caixa. É o adesivo. Há tanto tempo colado, que se despedaçaria à menor tentativa de descolá-lo.
Nele, o Bob Esponja saltita, com os braços carregados de corações e espalha-os pelo caminho em que passa.
No dia em que meu amigo me deu aquele adesivo, estávamos ambos sentados lado a lado na sala de aula, no primeiro semestre da faculdade e eu ria de seu caderno do Bob Esponja.
_E esse caderno de quinta série, heim?
_O Bob é o melhor, cara! Você também gosta dele?
Eu ria do rapaz moreno e tatuado. Seus braços e peito eram cobertos por desenhos coloridos, até o pescoço. Nos lóbulos ele trazia grandes alargadores.
_Gosto. Minha irmãzinha coleciona DVD’s com os episódios. Eu assisto junto com ela e me mijo de rir.
_É genial. Tó. Escolhe um adesivo.
_Qualquer um?
_Qualquer um. Não! Pega esse aqui, dos corações. É mais a sua cara. Todo fofinho.
Peguei o adesivo e colei na caixa de óculos. Continuar lendo

Dia das Crianças: O Festival da Primavera

Na hora de escolher a foto pro avatar de dia das crianças, comecei a rir sozinha ao lembrar de toda a história por trás da foto da flor laranja e ela acabou se escolhendo sozinha. “É esta!”
Quando as professoras da educação infantil do Colégio Palmarino Calabrez começaram a organizar o Festival da Primavera de 93, separaram, em seus conceitos retrógrados e nada democráticos, as meninas em três categorias bem claras: as com altura acima da média seriam borboletas. As meninas de altura mediana seriam flores. E as que costumavam ocupar as quatro primeiras posições pra fila do recreio seriam joaninhas.
Adivinha em qual categoria eu fiquei? Pois é.
Mãs, revolucionária e agitadora como sempre, eu reinvidiquei meus direitos de vestir a fantasia que me apetecesse, o que não teve nada a ver com o fato de todos os collans pretos size PPP da cidade terem desaparecido e minha mãe só ter encontrado um collan verde no meu tamanho. Fiquei sendo flor. Continuar lendo

(Re)Viver

Foi quando eu percebi que minha vida é alimentada de sorrisos. De pequenas novidades.

Dos primeiros passos, das primeiras palavras.

Da florzinha da praguinha que surgiu no meu quintal.

Minha vida é alimentada de conversas. Longas, curtas. Com crianças, jovens, idosos, amigos, familiares, desconhecidos.

E de abraços: o mágico gesto que doa e recebe ao mesmo tempo. Continuar lendo

O vendedor de flores

IMG_2107Todos os dias bem cedo, ele se munia de seu melhor sorriso e o carregava até a sua banca de flores. De lá do balcão, distribuía-o juntamente aos enormes e coloridos buquês que seus clientes levavam.

Não se sabe se por desatenção, descaso ou simplesmente porque a exuberâncias de suas flores lhes ofuscava, mas dificilmente um cliente lhe devolvia o sorriso. Quando muito, um agradecimento apressado, atrás das moedas atiradas como troco.

Mas ele não se importava. Não era por estes sorrisos que ele trabalhava. Continuar lendo