O homem indiferente

O homem indiferente acordou sem notar que sua música favorita tocava no rádio-relógio que era do pai. Andou um tanto trôpego, esfregando os olhos até o banheiro e, quando tirou o pijama, não viu que um botão pulou fora e foi quicando até o ralo do chuveiro.

Tomou banho com o sabonete de sempre e não reparou no shampoo que estava quase no fim. Por pouco não tropeça no tapetinho embolado na frente do boxe.

Voltou para o quarto sem chinelos, escolheu uma roupa qualquer e calçou uma meia preta e a outra cinza. Pelo menos o sapato ele acertou.

Tomou um café da manhã comum, com pão de forma, margarina e café com leite. E foi comprar o jornal.

No caminho, quase foi atropelado, pois não olhou para o lado direito ao atravessar e, quando o carro brecou a centímetros da sua perna, lançou um olhar tão indiferente quanto podia ao motorista, erguendo a mão em sinal de desculpas.

Pediu os mesmos jornais de sempre, sequer olhou para as revistas, não quis nenhum quadrinho e nem viu as manchetes anunciando que seu time tinha perdido na noite anterior.

Voltou pelo mesmo caminho, ignorando pela segunda vez o mendigo que lhe estendia a mão em petição. O mesmo mendigo que ergueu o dedo do meio, assim que o homem indiferente lhe deu as costas.

Passou direto e se sentou no banco da praça para ler os jornais, nos quais não prestou atenção a uma única linha.

Também não reparou no sol morno de outono, nas folhas amareladas que caiam aos montes, nos pombos que praticamente o devoravam, ou no cocô que um deles, revoltado, descarregou em seu ombro.

Foi entre a página nove e dez, do caderno de negócios, em uma matéria que falava sobre a importância do consumo de salmão para o coração, que ele ouviu acima de si o belo assovio de um canário. Ergueu o rosto para procurar o pássaro e o encontrou a poucos galhos acima, um pequeno ponto amarelo e saltitante.

Sorriu, aspirando o perfume familiar que pairava no ar. Jasmins! Não… Jasmins eram as flores que estavam na árvore atrás de si. O perfume dela era o outro. O mais suave.

E disfarçando o máximo que pôde, observou a bela dama do casaco branco (que hoje era xadrez, combinando com o cachecol cor-de-rosa) caminhar em seu passo leve e ritmado, em sua direção.

Rapidamente, colheu uma das flores prematuras que cresciam aos pés do jasmineiro onde cantava o canário, e se levantou para recebê-la. Sentiu-se um idiota logo em seguida, mas era tarde demais. Ela já o avistara.

Tímido, trêmulo, suando (desde quando fazia sol?), cumprimentou a dama com um “bom dia” ga-gue-ja-do e lhe estendeu a flor. A moça parou.

Surpresa, ergueu a mão fina e bem cuidada até os lábios, em um gesto admirado. Mão tão pequena que não pode esconder o sorriso gentil e o rubor nas faces. A mesma mão que se estendeu e recebeu a singela flor, seguido de igualmente singelo agradecimento.

Da mesma forma que veio, se passou o momento e a moça seguiu seu caminho, se perguntando quando haviam reinventado os românticos. Não sabia, mas gostava disso.

Então olhou para trás, enquanto aspirava o perfume da flor. Ele ainda a observava, estático e com um sorriso besta. Ela riu e se foi, pois passaria por lá amanhã novamente.

Ele despertou. Limpou o suor da testa e suspirou triunfante.

Quando recolheu o jornal espalmou a mão na testa e chutou o ar.

Merda! Seu time perdeu!

3 pensamentos sobre “O homem indiferente

  1. Não sei quem é vc, mas acabo de ver recuperadas minhas letras. Já não sou só mais um, voltei a ser criador. Logo depois de ser despertado da minha indiferença.
    Não, meu time não perdeu.

  2. Parece um filme de um dia da minha vida. Adorei. Não sou suspeito, apenas fã. Agente acorda meio no automático, as pernas levam mas a alma ainda está ausente, leva um tempinho pra ela chegar!

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