Imortalidade

Acordei com a pressão nos pés da cama.

Meio sonolenta, esfreguei os olhos tentando reconhecer a silhueta que ali estava sentada.

Uma voz feminina soou em meus pensamentos com sarcasmo:

_Sabe o que é mais irônico? Que mesmo você sendo a minha criadora, sua existência é efêmera. Enquanto eu, renascerei todas as vezes que alguém revirar as páginas que você escreveu.

Soltou no silêncio da noite sua gargalhada cristalina, ao mesmo tempo em que se recolheu dos meus olhos para minha mente, onde era seu devido lugar.

Sorri condescendente, sabendo que felizmente ela estava certa.

A criatura

Acordei e mantive os olhos fechados. Decidi que não ia abri-los enquanto não tivesse uma boa ideia. Permaneci uns bons minutos deitada de costas, com as mãos sobre o ventre, até que um esboço incerto me surgiu e senti algo pulando sobre meu travesseiro.
Estatelei os olhos e ainda pude ver a pequena disforme correndo pela cama, subindo sobre minhas pernas e fugindo em ziguezague das minhas mãos que tentavam segurá-la. Rapidamente sentei, mas antes que pudesse tocá-la, escorregou o seu corpo escuro e brilhante pelo vão entre a cama e a parede.
Levantei-me e agachei para olhar sob o estrado. Ela estava encolhida no canto mais inacessível, rindo gostosamente com sua vozinha fina e travessa.
_Venha cá, danadinha! Continuar lendo

Metaeumesmismo

Chega. Cansei. Deixe-me em paz. Você só atrasa a minha vida.

Isso é ridículo. Não há você sem mim.

É o contrário, tola. Não há mim sem você… Digo, você não existe sem mim.

Pode ser. Mas o limite entre todos esses “vocês”, “mins” e “eus” é mais tênue do que você imagina.

Diga “nós”, então.

Não há “nós”. Somos uma só. Continuar lendo