Derrotada

large (2)_A vida não é feita só de sucessos, sabe?

_Oi?

_A vida, cara. Dá uma certa frustração ouvir todas aquelas histórias de gente que arriscou tudo e conseguiu realizar o sonho da vida dela e então olhar para a própria vida e encontrar a si no mesmo lugar, na mesma cadeira, na mesma rotina, fazendo a mesma coisa so far far away de tudo o que você se imagina fazendo quando tiver tempo, quando tiver dinheiro, quando tiver… Continuar lendo

Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Continuar lendo

Destino

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Tem mais Wesley Samp no Os Levados da Breca

A lágrima

olhar-velhiceQuando ouviu o som da voz dele, chamando-o pelo nome,  uma grossa lágrima, apenas uma, escorreu de seu olho esquerdo.

Teria morrido ali, na bolsa da pálpebra inferior que marcava um sério cansaço de viver, devido à sua posição meio deitado, meio sentado. Mas era uma gota grossa, pesada. Um tanto hesitante, ultrapassou os limites das olheiras e prosseguiu seu caminho lentamente deixando, porém, uma pequena porção do líquido adentrar as rugas laterais e se dirigir as têmporas, atingindo o cabelo branco.

A maior parte continuou descendo aos poucos, pelas maçãs do rosto, iniciando um traço firme que refletia a luz, pelo rosto moreno que ainda guardava uma réstia do semblante que tivera quando moço. Se os olhos estivessem abertos, mostrariam o mesmo brilho que refletiam na juventude. O brilho de quem sempre acreditou na conquista pelas próprias mãos, mesmo quando ainda não tinha idade para conquistar coisa alguma. Continuar lendo

Dona do próprio bico

Esse é o Sting.

Esse é o Sting.

Eu já tive calopsitas.

Tive duas. Uma. Um macho. A fêmea chegou depois.

O macho era o Sting (Tico) e foi presenteado à minha irmã pelo nosso vizinho idoso fofo, que me presenteava com livros.

A fêmea simplesmente chegou. Minha mãe ouviu o Sting gritando aqui dentro e ela gritando lá fora. A encontrou assustada, molhada e depenada pousada no forro da varanda. Então deixou a gaiola do Tico na varanda, para que ela se sentisse segura e descesse. Funcionou. Continuar lendo

Imoral

pedra do sapatoAcordou com a luz do sol atravessando o vidro da janela que nunca era completamente fechada. Adorava dormir, então enrolou mais dez minutinhos, com a desculpa de pensar na roupa que usaria no dia.

Um tanto relutante, espreguiçou-se languidamente, ergueu o corpo e movimentou a cabeça de um lado para o outro, para relaxar o pescoço e os ombros.

Só então despertou.

Jogou as cobertas para o lado e, sem pudor algum, tocou o piso frio com os pés nus. Jogou os cabelos encaracolados para o alto, em um rabo de cavalo frouxo e despenteado, jogou a camiseta com a qual dormiu sobre a cama e começou a se arrumar para o trabalho. Continuar lendo

Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado. Continuar lendo

O monstro

Tipo-de-Ralo-21Creio que toda desgraça se anuncia de alguma maneira.

Tempestades são precedidas por trovões, os tsunamis, precedidos por recuos no mar, o fim do mundo pelos cavaleiros do apocalipse e o pé-na-bunda, pelo chifre.

Não poderia ser diferente com a maior tragédia de todas: o ralo entupido por fios de cabelo.

Na verdade os sinais são vários e evidentes, como o punhado de cabelos que se ajuntam sobre a grelha ao final de cada banho, o jeito como você puxa o tapetinho de borracha sobre o ralo para não ter que olhar mais para o ninho que está crescendo ali, a forma como tais cabelos simplesmente desaparecem e, já algumas semanas mais tarde, a demora crescente para a água escoar toda a cada banho.

O aterrador aviso derradeiro veio durante o meu banho (lógico!), enquanto minha irmã escovava os dentes na pia. A água empoçada aos meus pés fez um barulho borbulhante. Resultado das bolhas (jura?) que subiram do ralo, sinalizando o último suspiro do espaço livre no cano. Minha irmã parou a escova no ar e em um olhar desesperado, nos encaramos. Toda a cena que se seguiu, pareceu rodar em slow motion. Continuar lendo

Auto controle

to-do-listTudo começou quando ela percebeu que precisava esquematizar suas tarefas, ou tudo fugiria do seu controle. Se ela não fizesse tudo exatamente do mesmo jeito, todos os dias, certamente esqueceria de fazer algo. E se qualquer elemento novo entrasse no meio da sua rotina, era certeza de que todo o resto se desregularia. Para que isso não acontecesse, ela criou diversos sistemas e listas, que ela repetia diariamente.

Todos os dias ela acordava com o despertador e aproveitava os dez minutos de preguiça para conferir as redes sociais pelo celular. Depois se levantava, escolhia a roupa que usaria naquele dia e arrumava a cama. Em seguida ia ao banheiro escovar os dentes e fazer o xixizinho matinal, voltava ao quarto para se vestir, fazia a maquiagem, ajeitava a bolsa, alimentava os peixes e ia para a cozinha.

Nunca tomava café antes de fazer a marmita e sempre deixava as chaves e a carteira ao lado do celular sobre a mesinha de centro, pois já precisara voltar vezes o suficiente porque havia esquecido um dos três. Continuar lendo

Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta. Continuar lendo