Apenas

Ela se vestia como qualquer senhora da sua idade. Nela tudo era branco: as calças, a camisa de seda e os cabelos cortados em um chanel. Sem um fio de outra cor, apenas cabelos brancos. Entrou na livraria olhando ao redor, procurando algo ou alguém que a ajudasse.

O rapaz sentado na poltrona vestia camisa e calça social. Gravata não. O cabelo cuidadosamente penteado para o lado mostrava que não era do tipo ousado, que assumia riscos. Gostava de ficar ali sentado, apenas para fugir.

A mulher idosa passou pelo rapaz e se sentou ao lado de uma garota de vermelho, cabelos curtos e olhos azuis. Não as íris. Apenas as pálpebras. Estavam pintadas. Ela estava armada de caderno e caneta. Um perigo. Continuar lendo

A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Lançamento do livro

Olá, amigos queridos!

Finalmente tenho uma novidade para vocês: a data de lançamento do meu livro! AEEEEE, RITMO DE FESTA!

03 de dezembro será o grande dia e eu faço questão da presença de todos que se sentiram tocados pelo o que eu escrevi aqui, ao longo desses anos. Você que sempre leu e nunca se manifestou também, viu?

Já adiantando, é uma reedição dos contos publicados neste e no blog antigo, junto com alguns inéditos.

Nem preciso dizer que é a realização de um sonho e que eu não tinha intenções de publicar um livro tão cedo, não fosse a Navilouca Livros ter aparecido e me feito a proposta assim DO NADA.

No dia do lançamento, o livro vai estar com desconto e você ainda ganha autógrafo e beijinho da autora. ^^

Quero ver todo mundo lá e quem não puder ir, ajuda a divulgar, sim? Vejam o evento no facebook.

Beijos!

Das razões que desconhecemos

Todo mundo tem seu jeito de lidar com a vida. Sem exceção. Parece bobagem, mas não é. Tá bom, é. Mas aposto que a maioria nunca para pra analisar a coisa desse jeito.
Algumas pessoas mais introspectivas, que investem no auto-conhecimento, lêem O Segredo, fazem yoga e por aí vai, assumem o que chamam de “filosofia de vida”.
Eu não li O Segredo. E tô tentando começar a fazer yoga desde o começo do ano. Mas eu já tenho a filosofia, o que é um avanço. E esta envolve algumas frases feitas, que me ajudam a encarar as dificuldades que o destino cria em meu percurso.
Coisas como: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”, “Não há escolhas certas ou erradas, apenas consequências.”, “A grande questão da vida não é ser lógico ou sempre ter razão. É não ser chato.”, “Se não me lembro, não fiz” são sentenças que me ajudam a ter alguma coerência ao agir e, pelo menos, ter algo onde me agarrar quando começa a chover merda na minha cabeça. Continuar lendo

Obstáculos

O Homem dos Cartões

Eu sempre acreditei que nada é por acaso.
Todos os dias, ao sair do trabalho, o homem me oferecia seus cartões da porta do metrô. E a cada dia que eu agradecia e passava reto, sentia que perdia algo importante.
A questão é que saindo atrasada por dias seguidos, eu temia não chegar a tempo para tomar o último ônibus que sai do centro para a minha casa e com isso eu fui me tornando mais uma daquelas pessoas anônimas e sempre com pressa. Comecei a ser um dos autômatos que sempre critiquei, até me dar conta disso.
E foi no dia que obriguei meus passos a andarem fora do ritmo da multidão, que eles estacionaram de frente para o homem dos cartões e me vi pedindo para aproveitar o meu tempo a examinar seus cartões. Continuar lendo

Eternidade

Por Lygia

(ou “Sobre a Arte de Pagar Micos Internacionalmente”)

Tudo por um acúmulo de primeiras vezes que hão de acontecer na próxima sexta-feira, entre elas minha primeira viagem de avião na vida. O fato é que minha busca pelo livro “Antes do Baile Verde” (é necessário escrever tudo com maiúsculas?) de Lygia Fagundes Telles já era antiga naquela livraria (a Cultura, na Augusta x Paulista) e as circunstâncias me diziam que seria interessante ter este objeto de meu desejo em mãos no momento em que eu estivesse enfrentando minha ansiedade e mais uma porrada de medos antigos.
O que não vem ao caso, mas é de meu interesse contar – mesmo porque esse cafofo é meu – é que este livro e esta autora foram quem conceberam a ânsia da escrita nesta que vos digita. Traz-me lembranças nostálgicas de meu colégio e da querida professora Ernesta e ter algo tão passado e concreto em minhas mãos me trará segurança. Quero acreditar nisso tanto quanto vocês, juro. Continuar lendo

Remoto controle

Enquanto os meus dedos gelados percorriam o teclado, eu me perguntava de onde vinha aquele buraco no coração que estava deixando o vento frio entrar. Houve algumas tentativas frustradas de aquecer-me com roupas e cobertas, em frente ao computador. Mas logo compreendi que o frio partia de dentro pra fora e o calafrio que me arrepiava a pele permaneceria, independente da quantidade de peças de roupa que me cobrissem.

Em parte embriagada pelas palavras que metralhava na tela, parte controlando psicologicamente a sensação de dormência nas falanges, continuei a digitar, descobrindo que a lucidez das minhas palavras nunca me deixariam usá-las como fuga.

A fresta no coração continuava a incomodar, quase uma ressaca moral, um arrependimento gelado, uma ausência pessimista. Queria voltar no tempo para desfazer meus primeiros erros. Continuar lendo