Carta ao menino que desenhava

Ilustração de Stephen Wiltshire

Ilustração de Stephen Wiltshire

“28 de marco março de 2010

Oi, menino.

Fiquei com vontade de escrever para você.

Te vi sozinho desenhando, sob uma árvere árvore do parque onde eu estava andando de bike bicicleta. Dei umas três voltas no parque todo e você continuava lá, sentado, rabiscando. Na quarta volta eu resolvi estacionar do seu lado e quase capotei de bike em cima de você minha curiosidade venceu e eu dei um jeito de sentar sob a mesma árvore que você.

Você até olhou pra mim e riu um pouco deu um sorriso discreto, que eu correspondi enquanto encostava a bicicleta no tronco. Depois disso você voltou a se concentrar no desenho e nem viu enquanto eu tirava o meu livro da bolsa e me recostava para fingir que lia. Continuar lendo

Carta à mulher no celular

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03 de julho de 2013

Oi!

Espero que não se sinta sem privacidade invadida por essa carta, já que ouvi sua ligação do começo ao fim e isso não é muito educado.

Mas estávamos no ponto de ônibus e acho que no calor da emoção você não estava se importando muito com o caso de alguém estar ouvindo ou não.

Ouvi você chorando ao telefone, com alguém que não lhe dava atenção.

Você dizia ficar em dúvida entre dizer que precisava dessa atenção, ou então deixar para lá sabendo que esta pessoa tinha coisas mais sérias para se preocupar e você acabar se tornando mais uma cobrança a ela. Continuar lendo

Carta ao escritor Jorge Amado:

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02 de agosto de 2007

Oi, seu Jorge Amado. Tudo bem? Estou um pouco nervosa em escrever essa carta, porque o senhor é aquele tipo de pessoa que a gente tem uma admiração meio temerosa, tipo professor.

Não a minha professora de português. Dela eu não tenho medo.

O senhor inspira aquele respeito que me faz querer saber mais sobre o que o senhor escreveu na vida, mas não conhecê-lo pessoalmente, ou tê-lo como parente, porque daria várias broncas daquelas, quando eu fizesse algo que te desagradasse.

Mas continuando, não foi por isso que eu resolvi te escrever. É que esses dias eu emprestei um livro seu, na boblioteca biblioteca da escola: o Dona Flor e Seus Dois Maridos. Foi um fuá. A tia da biblioteca me olhou com uma cara e perguntou se foi minha professora de português que solicitou. Eu disse que não. Então ela disse que só emprestaria com solicitação dela. Aí fui falar com minha professora. Ela me olhou com a mesma cara e disse que só solicitaria o livro com autorização da minha mãe. Lá fui eu pedir pra minha mão mãe, que riu muito, escreveu uma autorização e assinou.

E então eu li seu livro e me lembrei de uma conversa que tive com a minha mãe. Continuar lendo

Carta ao Gari da Estação:

gari20 de outubro de 2008:

Olá, senhor lixeir gari da estação!

Já faz alguns anos que eu desço todos os dias sempre no mesmo ponto, no mesmo horário. É a hora que estou indo para a escola. O tempo varia: às vezes está um puta sol já bem quente, em plena manhã. No outono o sol é gelado, nesse horário. Já no inverno é MUITO frio. E tem dias que está chovendo bastante, pouco ou garoando.

Não importa o tempo, o senhor está lá, varrendo o lixo que nós jogamos. Me incluí nisso, porque eu mesma já joguei lixo no chão várias vezes. Agora não mais.

Porque passando todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário e vendo-o realizar o seu trabalho que não deveria ser tão árduo, se fôssemos um pouco menos porcalhões mais educados, me fez repensar se eu não estava sendo um tantinho egoísta. Continuar lendo

Carta à enfermeira da Santa Casa

18989_nurses_kids_520“17 de janeiro de 2013.

Querida enfermeira da Santa Casa,

Creio que não se lembra de mim. Essa madrugada estive no hospital pois desceu pra mim por conta de uma cólica e precisei tomar buscop remédios na veia. Você também tirou meu sangue para análise clínica. O médico que me atendeu achou que essa cólica toda poderia ser falta de alguma vitamina.

Mas também não espero que se lembre de mim. Tantas pessoas passam pelos seus cuidados todos os dias… Seria de uma memória invejável, se lembrasse de cada uma delas. Está aí algo que eu deveria aprender com você. Continuar lendo

Carta ao homem do restaurante

“12 de outubro de 2012

Caro homem da mesa sobre sob o ventilador

Nos vemos todos os dias no lugar onde almoço.

Temos alguns hábitos parecidos: sempre sentamos nas mesmas mesas, nocê você no canto abaixo do ventilador e eu prefiro a mesa que fica encostada na pilastra. Sempre nos servimos de dois pratos: um para salada, outro com a refeição. E também sempre estamos com fones de ouvidos.

Será que gosta do mesmo tipo de Fico me perguntando se ouve o mesmo que eu.

Você é muito sério. Mas também é muito simpático com a moça da balança e com o rapaz do caixa. Gosto disso. Continuar lendo

Carta ao homem da rua

Olhando assim, de fora, até que eu sou bem comum.

Não costumo chamar a atenção por motivo algum, seja pela forma como me visto ou como me comporto. Não sou o tipo de mulher que é a primeira a ser abordada pelos caras em uma festa. Na verdade estou mais para aquelas a quem eles recorrem depois de já terem levado um toco e estão nas fronteiras do estar bêbado.

Enfim. Duvido que alguém me olhe duas vezes.

Talvez isso tenha facilitado o desenvolvimento de uma mania meio boba, que eu tenho: escrever cartas que nunca serão enviadas. Continuar lendo