Prisioneiro

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Tem mais Wesley Samp no Os Levados da Breca =D

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Carta ao Gari da Estação:

gari20 de outubro de 2008:

Olá, senhor lixeir gari da estação!

Já faz alguns anos que eu desço todos os dias sempre no mesmo ponto, no mesmo horário. É a hora que estou indo para a escola. O tempo varia: às vezes está um puta sol já bem quente, em plena manhã. No outono o sol é gelado, nesse horário. Já no inverno é MUITO frio. E tem dias que está chovendo bastante, pouco ou garoando.

Não importa o tempo, o senhor está lá, varrendo o lixo que nós jogamos. Me incluí nisso, porque eu mesma já joguei lixo no chão várias vezes. Agora não mais.

Porque passando todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário e vendo-o realizar o seu trabalho que não deveria ser tão árduo, se fôssemos um pouco menos porcalhões mais educados, me fez repensar se eu não estava sendo um tantinho egoísta. Continuar lendo

O vendedor de pipocas

carrinho+de+pipoca+cod+05+suzano+sp+brasil__21400C_1Realmente a graça da vida parecia estar nas pequenas coisas. Foi o que ela pensou naquele dia em que saiu um pouco mais cedo do trabalho. A felicidade não estava no fato de ter saído mais cedo, ou de ter conseguido cumprir todas as tarefas que pretendia, no centro da cidade.

Mas sim por ter conseguido fazer algo que não fazia desde os tempos da faculdade: caminhar pela cidade à noite, comendo uma coxinha de boteco, daquelas meio murchas e já quase frias.

Não que a cidade fosse das mais bonitas, muito menos que ela gostasse de coxinha murcha e quase fria. Ela só queria matar a saudade e curtir um pouco aquela nostalgia toda, agora que estava em um bom momento da sua vida. Continuar lendo

Carta ao homem da rua

Olhando assim, de fora, até que eu sou bem comum.

Não costumo chamar a atenção por motivo algum, seja pela forma como me visto ou como me comporto. Não sou o tipo de mulher que é a primeira a ser abordada pelos caras em uma festa. Na verdade estou mais para aquelas a quem eles recorrem depois de já terem levado um toco e estão nas fronteiras do estar bêbado.

Enfim. Duvido que alguém me olhe duas vezes.

Talvez isso tenha facilitado o desenvolvimento de uma mania meio boba, que eu tenho: escrever cartas que nunca serão enviadas. Continuar lendo

Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda? Continuar lendo

O pijama

Logo cedo, expediente recém-iniciado, alguns funcionários ainda chegando e tudo o que se ouvia pelo escritório era o som das teclas sendo digitadas freneticamente.

A moça da cozinha passou com a garrafá de café, trazendo aquele cheiro maravilhoso e inebriante para o ambiente. Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

A capa do livro

Era um livro velho em uma estante empoeirada. 

Passou pelas gerações da família e foi parar naquela prateleira superior, há anos intocado. De vez em quando levava uma espanada na lombada, mas apenas isso.

Sempre os mesmos livros – os mais modernos – eram retirados para serem lidos. Alguns até já tinham sulcos, na poeira que se acumulava em sua frente, de tantas vezes que eram escolhidos. Mas aquele permanecia lá, com sua capa sem graça, dia após dia, sendo roído pelas traças.

Um dia, a sobrinha foi visitar a casa que ficava em torno da estante. A tia lhe deu papéis e canetinhas e, cansada dos papéis em branco, resolveu procurar desenho para colorir nos tais livros.

Quando a montanha de livros no chão já era grande o suficiente para que ela subisse e alcançasse a prateleira superior, o livro da capa sem-graça foi pego. Continuar lendo

Bêbado

Eu o vi dentro do bar do outro lado da rua.

Meu caminho era adiante, mas atravessei a rua quando o vi cambalear e sentar na sarjeta para não cair.

Ele segurava o copo com os braços apoiados nos joelhos e o encarava. Não me viu chegar até que me sentei ao seu lado.

Teve um sobressalto com minha aproximação, ergueu os olhos ébrios em minha direção e os vi entristecerem-se quando me reconheceu. Moveu os lábios algumas vezes, antes de conseguir balbuciar:

_Nunca quis que me encontrasse nessa situação.

_Nem eu. Continuar lendo

Rotina

Na mão direita eu segurava o celular, com a esquerda fuçava a bolsa atrás do cartão de passes do ônibus municipal. Sorte que sou mulher e consigo fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Meu estagiário finalmente atendeu e eu derrubei várias moedas no chão.

_Eu esqueci de enviar o texto para o cliente. Você pode fazer isso pra mim, antes de ir para a faculdade? Por favor! Prometo que amanhã eu pago o seu café cheio de firula. Continuar lendo