Impotente

babyCry_2371027bO bebê não parava de chorar.

Ela apenas encarava a criaturinha dentro do berço de plástico, cuidadosamente estacionado pela enfermeira ao lado do seu leito no quarto 341. Sua expressão era tão estática quanto indecifrável.

Ela odiava aquele bebê. E sofria por isso. Sempre ouvira falar sobre o instinto maternal e se corroía por não ser capaz de amar automaticamente a criança que carregara por nove meses dentro de si.

Só queria que ele calasse a boca. Não queria ter de acalentá-lo, mas sabia que era sua obrigação, como mãe. Por um momento começou a juntar os panos que estavam dentro do carrinho e amontoá-los sobre a boca do bebê para abafar os gritos estridentes. Mas então viu os bracinhos se agitando e recuou horrorizada pelo que fizera. Não queria matá-lo, apenas silêncio. Porém ele chorava ainda mais alto, agora. Continuar lendo

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Carta à enfermeira da Santa Casa

18989_nurses_kids_520“17 de janeiro de 2013.

Querida enfermeira da Santa Casa,

Creio que não se lembra de mim. Essa madrugada estive no hospital pois desceu pra mim por conta de uma cólica e precisei tomar buscop remédios na veia. Você também tirou meu sangue para análise clínica. O médico que me atendeu achou que essa cólica toda poderia ser falta de alguma vitamina.

Mas também não espero que se lembre de mim. Tantas pessoas passam pelos seus cuidados todos os dias… Seria de uma memória invejável, se lembrasse de cada uma delas. Está aí algo que eu deveria aprender com você. Continuar lendo

Marcas de Guerra

Queridos, a vida nada mais é do que o conjunto de histórias que você contará aos seus netos.Muitos contarão orgulhosos sobre o dia em que, dirigindo escondido a Harley-Davidson do pai aos doze anos, foram fugir da polícia e,em uma derrapagem brusca, acabaram ganhando aquela cicatriz na panturrilha. Estas marcas de guerra servem para nos mostrar fortes, intrépidos e aventureiros aos nossos descendentes. E gostaremos de relembrar, com os olhos perdidos de nostalgia, as pequenas aventuras que nos deixaram literalmente marcados.Eu tenho uma cicatriz dessas. Não na panturrilha. Na coxa. E ela realmente veio do escapamento de uma moto, que eu posso facilmente transformar em Harley-Davidson para meus netos.

O caso é que eu, como a criança pacata e totalmente adversa a atividades físicas que fui, tenho dificuldades enormes em encontrar marcas para contar histórias e, quando as tenho, as histórias não são realmente empolgantes, me obrigando a recorrer às minhas habilidades literárias para torná-las mais interessantes. Continuar lendo

Livre Arbítrio

Sete da noite. Hora que os trabalhadores cansados estão voltando para suas casas e se tornam um pouco mais distraídos que o normal. Era a hora que ele saía para trabalhar.

Vestiu-se com uma roupa comum, com cores que não chamassem a atenção e, mentalmente, escolheu uma rua movimentada. Sua profissão exigia discrição.

Ao chegar a tal rua, começou a andar de maneira despretensiosa. Camuflou-se perfeitamente ao enxame de pessoas que invadiam os numerosos bares. Localizou sua vítima: uma mulher se afasta do burburinho para falar ao celular. Ela anda de um lado para o outro, olhando para o chão, parando por alguns segundos e recomeçando os passos em seguida. Uma das mãos segura o aparelho. A outra tampa o ouvido esquerdo. Continuar lendo