Visão

Quando chegamos na estação terminal, os demais passageiros mal respeitaram sua bengala e as pálpebras murchas que cobriam as órbitas vazias.

Prendi a respiração no instante em que ele ultrapassou hesitante pelo vão entre o trem e a plataforma.

Sanfoneiro de Mogi. Cego.

Corri até ele e toquei em seu ombro.

_Está esperando por alguém?

_Deve haver algum funcionário por aqui.

_Não vejo ninguém. Para onde está indo?

_Metrô.

_Posso ajudá-lo até lá. É para onde vou.

Não esperei que respondesse. Tomei-lhe a mão nos braços e num segundo egoísta, fui feliz por poder emprestar-lhe meus olhos.

Ele por sua vez, pareceu satisfeito por ter como guia alguém tagarela. Ou talvez não tivesse outra escolha mesmo. Em todo caso, continuou puxando conversa.

_Para onde está indo, moça?

_Vou trabalhar. E você?

_Estou fazendo um curso e quando terminá-lo, pretendo conseguir um emprego.

Lia o chão com a bengala, apoiando-se quase imperceptivelmente em meu braço e me pedia para descrever onde estávamos.

_Agora vamos atravessar o corredor de acesso do trem para o metrô. O bom é que, com o senhor, temos acesso preferencial.

Ele riu.

_Deficiência por deficiência, todos deveriam ter algum tipo de privilégio…

Na hora que ouvi isso achei que tinha pegado pesado na brincadeira. Mas observando o seu comportamento, notei que a reflexão havia sido algo mais profunda que eu julgara. Ele não parecia contrariado e sim, pensativo. Também possuía melhor capacidade de interpretar meu silêncio do que eu tive de interpretar suas palavras.

_As maiores deficiências não são tão fáceis de identificar quanto a minha. E muitas pessoas não permitem que a felicidade lhe abra a porta, somente porque não batem.

Sabia que ele identificou a minha deficiência através da inflexão da minha voz, mas não tive o impulso de explicar. Ele compreendia a incapacidade de fazer ou sentir alguma coisa melhor do que ninguém.

E mesmo depois que o conduzi ao seu trem, seu raciocínio continuou me acompanhando.

Fui obrigada a confrontar minha deficiência e questionar a validade de manter-me em silêncio quando o meu coração me pedia pra falar. Pôr um fim em tudo que sugerir que se trata de um presente sem futuro. Os meus velhos medos, que me acompanham desde sempre, por motivos não tão fáceis de serem compreendidos.

Me despedi totalmente diferente da garota que ofereceu ajuda. Percebi que havia interpretado mal quem era quem ali: naquele instante eu fui a cega e ele o meu guia.

9 pensamentos sobre “Visão

  1. Somos todos deficientes. A todos realmente falta algo. A falta define a psiquê – alma – que move o homem. O “Anima” só existe realmente por nossas deficiências e a busca por compensá-las, seja nos sentidos, nos sentimentos, no ser. Belíssimo e profundo texto de uma pessoa que sabe enxergar mesmo quando não pode ver. =]

    PS: Se essa história fosse auto-biográfia, ele não apoiaria na sua cabeça ao invés do seu braço? huahauhauahua
    Não resisti.

  2. O que é engraçado nos dias de hoje, é que quando ajudamos alguém nas ruas, devido a sua deficiência, as outras pessoas nos olham como se fossemos “ETs”. rs Comigo já aconteceu várias vezes.

  3. Acho que acabamos sempre nos superestimando, mesmo quando tentamos ser humildes ou qualquer coisa do tipo. É normal só enchergar as deficiências dos outros. E é muito bom poder cair na real e olhar pra dentro, olhar para o que realmente somos ou que não somos.
    Como sempre seu texto está fantástico! Muito bom.
    E que encontremos nossas próprias deficiências. =)

  4. Parabéns a você que para pra ouvir o que um desconhecido tem a dizer.
    É assim que a gente aprende mais.

    E se tratando de alguém com ampla experiência naquilo que há de tão raro, como reflexão sobre a vida, sábio é absorver mesmo o que eles dizem.

    E além de ouvir, refletir também. Não desprezar tão sábias palavras.

    Falei de uma experiência semelhante no meu blog: http://anonimofamoso.blogspot.com/2009/11/um-tocar-diferente.html

    Um abraço,

    @anonimofamoso

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