Satisfação

Enquanto subiam as escadas para o primeiro andar, ela sentia o celular pressionando-lhe a nádega, de dentro do bolso traseiro. Depositou as malas que carregava em cima da cama e virou-se para ajudar o namorado, que trazia as mais pesadas. Ele sorriu agradecido e deixou um beijo leve em seus lábios. Ela sorriu de volta.Ele voltou para trancar o carro e ela se sentou nos degraus da varanda. O rapaz avisou que iria tomar um banho e ela acenou com a cabeça.Tirou o celular do bolso e ficou olhando-o por um bom tempo, mas só teve coragem de discar os primeiros números quando ouviu a porta do banheiro se trancando.Ouviu chamar uma e duas vezes. Desistiu constrangida, desligando o telefone. Já tinha se arrependido do gesto, quando o celular tocou. O mesmo número que havia discado, minutos antes, piscava insistentemente na tela. Decidiu atender no último toque antes da ligação cair na caixa postal e a voz falhou no “alô”.A voz grave e um tanto rouca, do outro lado, a fez se perguntar novamente se deveria ter ligado.

_Não pensei que fosse me ligar.

A moça inspirou, expirou e inspirou novamente antes de responder.

_Você sempre acerta a hora errada de aparecer.

_Você também. São sete da manhã, sabia?

Ela cutucou a tinta descascada do assoalho com o tênis e sentiu uma coceira incontrolável na nuca.

_Por que me mandou aquela mensagem?

_Estava com saudades.

Deu pra ouvir os ruídos dele se acomodando, para ficar mais confortável.

_Foi pura coincidência isso acontecer uma semana depois de eu assumir meu namoro?

_Queria saber como você está. Se está feliz.

_Pare de ser irônico. Você sabe que eu odeio isso.

_Não estou sendo irônico. Quero mesmo saber. Ele é perfeito, não é? Cavalheiro, intelectual, carreira promissora… Aposto que nem bebe.

Ela se levantou e começou a caminhar em círculos pelo gramado.

_Ele é tudo isso, sim. E ainda é atencioso e carinhoso.

_Olha só! Tudo o que eu não sou, né?

_Onde você quer chegar?

Podia sentir que ele sorria despudoradamente no telefone. Também podia sentir o cheiro da sua pele, ainda quente do sono. Estava tudo muito vivo em sua memória.

_Estava com saudades de ouvir sua voz. E saber se está feliz, já disse.

_Eu estou satisfeita. Ele é tudo o que eu sempre quis.

_Não é a mesma coisa.

Ia responder que estava feliz, mas engasgou com saliva e a resposta perdeu toda a força. Odiou-se por isso enquanto tossia e o ouvia rindo do outro lado.

_Onde você está agora?

_Estamos na praia.

_Ele está com você? Vão passar o feriado aí?

_Sim. Estamos na casa que a família dele deixa de aluguel para temporada. Não que isso seja da sua conta.

Silêncio e mais movimentação, do outro lado da linha. A voz dele ficou mais rouca e baixa.

_Eu ainda penso em você todos os dias, sabia?

Ela estacou, sentindo a pele formigar. Pressionou os lábios com as costas da mão e apertou os olhos, tentando reencontrar o autocontrole.

_Você sabe que acabou. Não sinto mais nada por você e você não me atinge mais.

Novamente aquele riso prepotente, quase sarcástico.

_Você sente falta do frio na barriga que eu te causava. Não adianta fingir que odeia essa sensação de perigo. Te conheço muito bem.

Do andar superior, ela ouviu o barulho do chuveiro sendo desligado. Precisava encerrar aquela conversa.

_Me deixe em paz, tá? As coisas já estão ruim demais sem você, não piore tudo aparecendo do nada do jeito que sempre faz. Me esquece.

Por um momento, que pareceu uma eternidade, ele guardou silêncio.

_É isso mesmo que você quer?

Outra eternidade antes que ela pudesse responder.

_Sim. Me deixa viver minha vida. Faça o mesmo com a sua.

_Não vou te ligar mais.

_É só o que estou pedindo.

Antes que ele pudesse se despedir, desligou o celular e foi até a agenda, para apagar seu número. Quando a mensagem “Deseja apagar este contato da sua lista” surgiu, não teve coragem de clicar em “sim”. Achou melhor esperar pelo dia em que isso não doesse tanto.
Seu namorado desceu do banho e perguntou com quem ela falava ao telefone. Respondeu que era o pai, querendo saber se haviam chegado bem.

A dezenas de quilômetros de lá, o rapaz com quem falou voltava ao quarto e observava o belo corpo nu da garota com quem passara a noite. Quis que o corpo adormecido fosse o dela, mas não hesitou em apagar o número de sua agenda.

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