Luísa

Conheceu Luísa havia quase dez anos.gty_eye_writing_jef_120726_wg

Foi a primeira vez que ela entrou em sua vida.

Não que fosse a mais bonita, ou a mais popular. Mas ela tinha uns olhos estranhos. Muito escuros e redondos, por trás das pálpebras. Do tipo que, quando encaram, você afunda e se deixa levar pelo turbilhão. Creio que Machado entenderia.

Em volta dos olhos escuros, havia uma pele morena, cabelos encaracolados e o sorriso lindo que ele lutou durante muito tempo para conquistar um novo a cada dia.

O turbilhão durou anos. Foi do colégio à faculdade girando no mesmo redemoinho, onde o vórtice eram os olhos dela.

E o turbilhão se foi como veio, porém deixou um ele completamente diferente para trás. E quando finalmente ele teve paz para se encontrar consigo mesmo, já não se reconheu. E ela o quis de volta, mas ele já não era o garoto que a amara, portanto não era mais capaz de desejá-la. Porque ela permanecera a mesma.

Um ano e meio se passou, ambos se encontraram novamente. Pelo menos eram os mesmos olhos estranhos e o mesmo sofrimento mascarado de sorriso. E a mesma fraqueza inerte. A única diferença é que dessa vez a pele era mais clara e o cabelo curto. Ele se deixou levar novamente e, dessa vez, foi abandonado em uma queda vertigionosa que durou muito mais do que a tempestade.

Ainda estava à deriva, quando Luísa tornou a entrar na sua vida. Dessa vez mais alta, usava uns óculos e desenhava, mas com a mesma covardia inerte. Chegou botando sua vida em frangalhos e se foi deixando apenas dor e destruição para trás.

Por fim, ela o arrastou ainda uma vez, um ano depois de sua última aparição. Com cabelos lisos, fartos e quase ruivos. Fumava e bebia bem mais, era até mais alta. Mas os mesmos olhos estavam lá e eles ainda sofriam. E ele sem entender porque não conseguia se livrar dela. Mesmo que corresse para todos os lados, ela sempre estava lá, nos olhos.

Cada Luísa que o deixava para trás, o abandonava completamente diferente do que tinha encontrado. E ela mesma sempre o deixaria para trás, sufocada em tanta miséria que nunca daria uma única chance para a felicidade entrar.

Com o tempo percebeu que ela também esteve presente na vida dos homens que conhecia. No começo não sabia identificar, mas foi quando viu os tais olhos em todas as Luísas que lhe apresentaram, que tudo ficou claro.

E, assim como foi com ele, viu todos esses homens mergulharem de cabeça na impossbilidade que era dizer não à sua fragilidade. Todos a conheceram e imediatamente quiseram cuidar dela, se deixando encantar pela ilusão de seriam capazes de mudar sua vida e fazê-la encontrar com o amor verdadeiro e a felicidade plena. E também assim como ele sacrificaram sua alegria a favor da tristeza dela.

Foi então que ele entendeu que não havia ajuda possível para quem não queria ser ajudada. E se libertou do karma e da culpa.

Quando ele a encontra novamente, nos sonhos de algum desgraçado, não o alerta a respeito do abismo no qual está prestes a cair. Sabe que tudo o que ele precisa é conhecê-la por si só e descobrir a própria força, apesar da inércia dela. E superá-la. Sair do turbilhão sozinho, pois não ouvirá se outra pessoa lhe avisar do perigo em que se encontra.

No fim, quando chegar à praia com as próprias braçadas, apesar da correnteza que aqueles olhos escuros e redondos representam, haverá um novo si mesmo esperando-o na margem.

Ergueu o copo em um brinde silencioso e bebeu a isso.

2 pensamentos sobre “Luísa

  1. Cabe aqui a minha frase favorita, como comentário:
    “A mesma força que faz na crisálida a lagarta transformar-se lentamente em borboleta, faz da minha alma uma metamorfose contínua…”
    Crís Corrêa

    E só fui nisso que consegui pensar ao ler seu texto. A metamorfose contínua que é a nossa vida.

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