Nudez – 2: Segredos de alcova

Depois que senti a boca seca e a garganta amortecer, ele ainda tentou me dizer alguma coisa, mas mandei que se calasse. Eu mesma estava emudecida pelo pânico. Sim, pânico. Mas ele tinha necessidade de falar e o fiz engolir as justificativas com um tapa em cheio na boca, de tal maneira que envergou o tronco com o impacto.
Agredi-lo pareceu-me pouco pela dor que me causava e o mesmo gesto aumentou ainda mais meu sofrimento. Nunca havia batido em ninguém. Nem em minhas irmãs. Afastei-me confusa, com a mão – que ainda levava a ardência do tapa – cobrindo a boca.
Ele não reagiu.
Só esfregava a parte atingida do rosto. Continuar lendo
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Nudez – 1: Intimidade

Tomou um banho longo e relaxante, com a calma que só um amante correspondido pode ter. Demorou-se quase uma hora no banheiro da suíte, fazendo a barba com mais cuidado que o costume, querendo sentir a água morna do chuveiro gota por gota.
Sabia que saindo de lá, a encontraria na cama, o que aumentava a sua satisfação.
Saiu esfregando o cabelo molhado com a toalha que em seguida envolveu na cintura. A abertura da porta liberou o vapor do chuveiro e deu ares de sonho para a cena que o aguardava no quarto.
Ela já havia acordado. Aproveitou a demora do banho para retocar as unhas do pé com o esmalte vermelho, sem se incomodar em se vestir novamente.
O movimento e o barulho da porta a fizeram erguer o rosto em sua direção. Murmurou um “bom dia” através do sorriso divertido e tornou a se concentrar nos próprios dedos. Continuar lendo

Eternidade

Desesperança

Livre

A arte

Um dia aquilo foi uma farmácia. No outro amanheceu vazio e com tábuas tampando parcialmente a sua fachada.

A mudança foi rápida e eu pude acompanhar todos os estágios da reforma. Vi os homens fortes chegarem, lixarem as paredes judiadas e recobrirem-nas caprichosamente de gesso. Estive lá quando chegaram as prateleiras de madeira clara. Acompanhei o difícil processo de escolha da decoração.

Aos poucos, aquele prédio de aparência decadente, que abrigou gôndolas de remédios, começou a se tornar uma fina loja de finos sapatos.

E das mãos grosseiras daqueles homens brutos surgia um lugar delicado, que exalava luxo e sofisticação.

Trabalhando dia após dia, eles construíram um espaço desenhado especialmente para pessoas que nunca se lembrarão de pensar nos dedos calejados que ironicamente o tornaram tão belo. Continuar lendo

Redenção

Voltou a si e a primeira coisa que pensou foi: “Há quanto tempo?”

Tentava se mover, mas a dor era imensa. Resolveu esperar a tontura passar.

Escorregou a palma da mão no chão, onde estava caída. Sujou-a com o próprio sangue que havia respingado ali.

O silêncio da casa só era interrompido pelos roncos que vinham do sofá.

“Preciso fazer o café, antes que ele acorde.”

Concentrou a pouca força nos braços e conseguiu erguer o tronco. Mais um bom tempo usando roupas compridas para esconder os hematomas. Estava fazendo muito calor, ultimamente. Mas era melhor do que ficar respondendo às perguntas indiscretas. Continuar lendo

(Re)Viver

Foi quando eu percebi que minha vida é alimentada de sorrisos. De pequenas novidades.

Dos primeiros passos, das primeiras palavras.

Da florzinha da praguinha que surgiu no meu quintal.

Minha vida é alimentada de conversas. Longas, curtas. Com crianças, jovens, idosos, amigos, familiares, desconhecidos.

E de abraços: o mágico gesto que doa e recebe ao mesmo tempo. Continuar lendo

Enjoy the silence – final

Ele caiu do tronco quase desfalecido. E disse-me as palavras que nunca vou esquecer:

_Meu coração sempre baterá por Sinhazinha.

A fúria me tomou de tal forma, que chutei-lhe o rosto e pude ouvir o som de seu nariz se quebrando.

_Mate-o – ordenei ao feitor.

Ele me olhou aparvalhado.

_Mate-o logo. Mate logo essa besta nojenta, antes que você tenha o mesmo destino que ele!

Ele tirou o revólver do cinturão e eu o impedi.

_Não! Arranque o coração dele!

O feitor gaguejou, começou a tremer. Balbuciou qualquer coisa de que era muita crueldade. Eu nem ouvia apenas esperava, com os punhos cerrados e os lábios comprimidos. Continuar lendo

Enjoy the silence…

Já fazia alguns anos que eu havia seguido minha vocação e dedicado o meu destino ao Senhor. Era a ajudante pessoal da Madre Superiora e nunca imaginei que este posto me colocaria na terrível situação que narrarei.

Entre minhas tarefas habituais, estava organizar o escritório da Madre e cuidar das moças rebeldes que iam parar dentro das nossas paredes. Dentre estas, uma é a personagem principal de um romance não correspondido, cujas consequências foram terríveis.

Tratava-se da filha de um coronel, que como tantas outras trouxe humilhação social à sua família. O caso era que estas moças sempre acabavam nos conventos, nunca por vocação. Nestas situações, costumávamos não fazer muitas perguntas, porém especulações são inevitáveis: Ela não tinha a aparência de quem abortara algum filho, ou mesmo que tivesse sido afastada de um amor impróprio. Na verdade, parecia feliz por estar entre nós. Chegou um tanto pálida e fragilizada, é verdade. Mas carregando um leve sorriso de alívio nos lábios, o que me intrigava. Continuar lendo