A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo. Continuar lendo

Aparência

Estávamos eu e a amiga, sentadas no banco em frente àquela livraria grande da Augusta (sempre ela, a livraria), conversando sobre assuntos aleatórios e irrelevantes, quando ele nos abordou.Cabelos por cortar e totalmente desgrenhados em torno da careca reluzente, vários dentes a menos, roupas surradas, sandálias gastas e muitas sacolas nas mãos. Não nos pediu dinheiro. Apontou um dedo na nossa cara e disparou: “Vocês viram o que aqueles desgraçados da câmara aprovaram hoje?”

Um pouco atordoadas pela aparição brusca, arriscamos as críticas seguras: “Pois é, aquilo ali é uma merda mesmo.” E ele prosseguiu despejando informações e opiniões que me deixaram envergonhada por não estar inteirada de um assunto tão grave. Continuar lendo

Das razões que desconhecemos

Todo mundo tem seu jeito de lidar com a vida. Sem exceção. Parece bobagem, mas não é. Tá bom, é. Mas aposto que a maioria nunca para pra analisar a coisa desse jeito.
Algumas pessoas mais introspectivas, que investem no auto-conhecimento, lêem O Segredo, fazem yoga e por aí vai, assumem o que chamam de “filosofia de vida”.
Eu não li O Segredo. E tô tentando começar a fazer yoga desde o começo do ano. Mas eu já tenho a filosofia, o que é um avanço. E esta envolve algumas frases feitas, que me ajudam a encarar as dificuldades que o destino cria em meu percurso.
Coisas como: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”, “Não há escolhas certas ou erradas, apenas consequências.”, “A grande questão da vida não é ser lógico ou sempre ter razão. É não ser chato.”, “Se não me lembro, não fiz” são sentenças que me ajudam a ter alguma coerência ao agir e, pelo menos, ter algo onde me agarrar quando começa a chover merda na minha cabeça. Continuar lendo

Gentileza gera gentileza – ou “A arte de falar sobre clichês”

Sim, eu sei que é clichê. Mas eu preciso repetir mais uma vez que clichês só existem porque acharam a frase bonita, contudo você só compreende realmente um clichê após vivenciá-lo? Acho que não, né? Great.

Cansei de ouvir pessoas falarem da grosseria das pessoas.
Pode não ser maioria, mas eu encontro gente educada TODOS os dias. Sério!

Vou contar dois causos que aconteceram comigo, no ambiente menos propício para gentilezas around the world: o metrô de São Paulo. Continuar lendo

Obstáculos

O Homem dos Cartões

Eu sempre acreditei que nada é por acaso.
Todos os dias, ao sair do trabalho, o homem me oferecia seus cartões da porta do metrô. E a cada dia que eu agradecia e passava reto, sentia que perdia algo importante.
A questão é que saindo atrasada por dias seguidos, eu temia não chegar a tempo para tomar o último ônibus que sai do centro para a minha casa e com isso eu fui me tornando mais uma daquelas pessoas anônimas e sempre com pressa. Comecei a ser um dos autômatos que sempre critiquei, até me dar conta disso.
E foi no dia que obriguei meus passos a andarem fora do ritmo da multidão, que eles estacionaram de frente para o homem dos cartões e me vi pedindo para aproveitar o meu tempo a examinar seus cartões. Continuar lendo

Eternidade

Por Lygia

(ou “Sobre a Arte de Pagar Micos Internacionalmente”)

Tudo por um acúmulo de primeiras vezes que hão de acontecer na próxima sexta-feira, entre elas minha primeira viagem de avião na vida. O fato é que minha busca pelo livro “Antes do Baile Verde” (é necessário escrever tudo com maiúsculas?) de Lygia Fagundes Telles já era antiga naquela livraria (a Cultura, na Augusta x Paulista) e as circunstâncias me diziam que seria interessante ter este objeto de meu desejo em mãos no momento em que eu estivesse enfrentando minha ansiedade e mais uma porrada de medos antigos.
O que não vem ao caso, mas é de meu interesse contar – mesmo porque esse cafofo é meu – é que este livro e esta autora foram quem conceberam a ânsia da escrita nesta que vos digita. Traz-me lembranças nostálgicas de meu colégio e da querida professora Ernesta e ter algo tão passado e concreto em minhas mãos me trará segurança. Quero acreditar nisso tanto quanto vocês, juro. Continuar lendo

Primeiros erros

Tateou todos os bolsos do paletó atrás das chaves e quando as encontrou, teve dificuldades em firmá-las para trancar a porta, devido aos dedos molhados.

A água caia-lhe incessantemente sobre a cabeça, escorrendo pelo pescoço, costas e braços, até chegar por fim às mãos, culminando no seu maior problema do momento: segurar as chaves com firmeza. Já um pouco irritado, depositou a maleta no chão e segurou as chaves com as duas mãos. Enfim trancou a porta.

Pegou de volta a maleta e antes de descer os dois degraus, ajeitou o chapéu na cabeça, tomou o guarda-chuva e o abriu para se proteger.

A chuva o acompanhou em todo o trajeto pela calçada de pedra, sem trégua. Já habituado, ele não dava mostras de se importar em estar constantemente ensopado. Mas as pessoas na rua não gostavam de seu guarda-chuva estranho, que nos dias de muito vento insistia em se revirar. Continuar lendo

Fraqueza

Chegou no bar transbordando em ódio, pisando duro. Arrastou a cadeira de ferro pra sentar e não se importou com o rangido agudo do ferro no piso, nem com os olhares incomodados com o barulho.

Sentou-se jogando a bolsa na cadeira ao lado e os cabelos para trás num gesto rápido.

O garçom apareceu com o caderno de notas e ela despejou as frustrações da semana pedindo uma cerveja. Para beber sozinha.

Quando a garrafa chegou, virou o primeiro copo como água. Encheu o segundo e ficou girando enquanto o olhava, perdida em divagações. Continuar lendo