Nova

caderno-escrito-a-maoParei estática diante daquela página em branco.

Olhei para todas as outras já escritas.

Algumas rasgadas, sujas, amarrotadas.

Outras lindas, morro de orgulho delas. Fiz desenhos nas bordas, para decorá-las, caprichei na letra.

E também havia as páginas garranchadas, com manchas na tinta da caneta que não deixavam dúvidas de que foram lágrimas que caíram, enquanto derramava o estado mais bruto da minha alma naquelas linhas.

Aquilo tudo não seria deixado para trás, eu já sabia. Já passei por muitas páginas limpas na minha vida.

Mas ela não deixava de me assustar. Ela parecia ser completamente diferente de tudo o que eu já havia vivido, mesmo sendo apenas uma página em branco. Continuar lendo

Caixas

Abri a primeira caixa com um leve cheiro de mofo, onde estavam guardados meus ursos de pelúcia. A primeira reação foi uma certa ternura, vindoura dos meus tempos de infância. A segunda foi uma crise de espirros. Esses ursos agora vão secar as lágrimas de outra garota.

Na outra caixa encontrei muitos presentes que ganhei em uma festa de aniversário. Vários deles nunca saídos das caixas. Guardei apenas os cartões com os votos. Uma coisa ou outra separei, por afeição ou utilidade futura.

A terceira caixa doeu mais. Brinquedos velhos, álbuns de fotos, livros infantis. Todos me trazendo uma enxurrada de lembranças que eu gostaria que tivessem ficado encaixotadas com eles, em algum lugar bastante fora do meu alcance. Mas, secando o rosto com as costas das mãos, olhei para a minha boneca favorita e não tive forças de colocá-la para doação. Alguns objetos ali me trouxeram algo que quase não sinto da minha época de criança: saudade. Então também separei. Continuar lendo