Carta ao homem da rua

Olhando assim, de fora, até que eu sou bem comum.

Não costumo chamar a atenção por motivo algum, seja pela forma como me visto ou como me comporto. Não sou o tipo de mulher que é a primeira a ser abordada pelos caras em uma festa. Na verdade estou mais para aquelas a quem eles recorrem depois de já terem levado um toco e estão nas fronteiras do estar bêbado.

Enfim. Duvido que alguém me olhe duas vezes.

Talvez isso tenha facilitado o desenvolvimento de uma mania meio boba, que eu tenho: escrever cartas que nunca serão enviadas. Continuar lendo

Presente

Eram três da tarde, quando entrou na loja estranha.

A semanas passava quase diariamente por aquela porta estreita e espiava, curioso, pelo corredor escuro e coberto de relógios por todos os lados.

Tinha vontade de entrar lá, algum dia, para dar uma “olhadinha”, coisa que faria em qualquer loja. O engraçado é que o impulso sempre era reprimido pela consciência de que não precisava do que era vendido ali, embora o único relógio que possuía era o que aparecia na tela de descanso do celular. Inconscientemente sabia que aquele corredor vendia mais do que relógios. Continuar lendo

Saudade

Ele guardava as compras no porta-malas, no estacionamento do supermercado, quando sentiu que lhe tocavam o ombro.

Virou-se para ver quem era e deu com uma senhora bastante idosa, roupas limpas e cabelos brancos um pouco bagunçados pelo vento. Ela ainda pousava a mão, leve como uma pena, em seu ombro e sorria embevecida, enquanto o encarava.

_Oi! A senhora precisa de ajuda? Continuar lendo

Lar

Neusa tem olhos verdes.

Cida prefere vermelho.

João adora cães. Cuida de oito.

Marluci odeia o frio.

Antônio é poeta. Continuar lendo

A capa do livro

Era um livro velho em uma estante empoeirada. 

Passou pelas gerações da família e foi parar naquela prateleira superior, há anos intocado. De vez em quando levava uma espanada na lombada, mas apenas isso.

Sempre os mesmos livros – os mais modernos – eram retirados para serem lidos. Alguns até já tinham sulcos, na poeira que se acumulava em sua frente, de tantas vezes que eram escolhidos. Mas aquele permanecia lá, com sua capa sem graça, dia após dia, sendo roído pelas traças.

Um dia, a sobrinha foi visitar a casa que ficava em torno da estante. A tia lhe deu papéis e canetinhas e, cansada dos papéis em branco, resolveu procurar desenho para colorir nos tais livros.

Quando a montanha de livros no chão já era grande o suficiente para que ela subisse e alcançasse a prateleira superior, o livro da capa sem-graça foi pego. Continuar lendo

Rotina

Na mão direita eu segurava o celular, com a esquerda fuçava a bolsa atrás do cartão de passes do ônibus municipal. Sorte que sou mulher e consigo fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Meu estagiário finalmente atendeu e eu derrubei várias moedas no chão.

_Eu esqueci de enviar o texto para o cliente. Você pode fazer isso pra mim, antes de ir para a faculdade? Por favor! Prometo que amanhã eu pago o seu café cheio de firula. Continuar lendo

O próximo ponto

Sei lá, ela só estava ali sentada no banco do ônibus, do lado da janela, sem grandes expectativas a respeito daquele fim de tarde. Nada demais. Coisa básica, normal.

Só que, entre uma curva e um farol fechado, quatro caras deram sinal para o ônibus e assim que ele deu partida anunciaram o assalto.

Enquanto um deles segurava uma arma nas costas do motorista, com instruções claras sobre agir normalmente e não parar o ônibus antes do próximo ponto, o segundo pulou a catraca para tirar tudo o que houvesse de valor dos passageiros e o terceiro fazia “a limpa” na caixa do cobrador.

Assim como os demais usuários de transporte público ali presentes, ela entregou a carteira, celular e relógio sem levantar o rosto e já estava achando que tudo ia ficar bem quando o bandido pediu sua aliança de noivado. Aí não aguentou mais, começou a chorar e entregou a aliança.

Encolheu-se na sua janela, soluçante e lacrimosa, querendo que tudo passasse bem rápido, quando o quarto rapaz, que estava na parte da frente do ônibus, percorreu o veículo, como se estivesse inspecionando o serviço dos comparsas.

Pelo jeito ele era o chefe de todos e, ela encolheu-se ainda mais, parou exatamente ao lado dela. Sentindo a boca do estômago se contrair, ela não conseguia forças para erguer os olhos, quando tomou o maior susto da sua vida: Continuar lendo

Na estação

Era um dia normal na estação de trem.

Fora de horário de pico, sem grandes atropelos e correrias. Apenas os passageiros de ocasião, agindo como se não pertencesse àquela realidade, ou expressando toda a sua rebeldia contra o sistema pisando na faixa amarela.

Um mendigo desce a escada degrau a degrau, até chegar na plataforma, onde deposita sua enorme bolsa e fica aguardando o trem como os demais, porém comportadamente apoiado em sua bengala.

Um homem de mochila, uma mãe com seu bebê e um casal adolescente chegaram antes do trem despontar ao fim da linha.

Todos se aglomeram gradativamente na direção de parada das portas, enquanto o veículo estacionava devagar.

O mendigo aguardou que todos entrassem e segurou a porta, para que a mãe com o bebê entrasse, sorrindo divertido para a criança. Só entrou quando o sinal de fechamento das portas soou. Continuar lendo

Um conto extraordinário

Ela não teve uma vida extraordinária.

Cresceu em um bairro sossegado, de uma cidade do interior, brincando com os meninos da rua, porque na rua não tinha tantas meninas assim e as que tinha, preferiam brincar de passa anel do que de polícia e ladrão.

Os meninos riam de suas sardas e da boca grande, mas ela botou apelidos em todos eles, então estavam quites.

Todos estudaram na mesma escola, durante a infância, mas se separaram no colegial. Os meninos foram estudar no centro da cidade e ela foi transferida, junto com as meninas, para o colégio do bairro, então tentou se aproximar delas. Mas elas preferiam se maquiar, enquanto ela ouvia Ramones. Deixou pra lá. Continuar lendo

Tempo

Chegou em casa carregando todo o peso do dia nas costas.

Foi deixando as peças de roupa pelo caminho ao chuveiro. Quis prolongar o banho, mas se lembrou que fazia dias que não dormia horas suficientes. Então desligou a contragosto e ficou olhando o vapor sair pelo vitrô.

Enxugou-se, desembaçou o espelho com a toalha e ficou encarando a própria palidez com olheiras profundas. Tinha mesmo um ar cansado. Era melhor comer algo rápido e ir dormir logo, pois o dia seguinte seria cheio.

Foi para a cozinha sem se vestir. Praguejou por ter esquecido de colocar o congelado no microondas durante o banho, para economizar tempo. Cinco minutos faziam muita diferença.

Acompanhava impaciente os segundos regressivos do visor e, embalado pelo som do aparelho, fez a retrospectiva da sua vida até ali. Não chegara nem perto de onde queria estar, com aquela idade. Era do tipo que via cada dia como um dia a menos de vida. Apenas via a morte se aproximando, sem ter evoluído.

O microondas apitou. Continuar lendo