A futura borboleta

A vida tem maneiras curiosas de bater à nossa porta

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e nos lembrar da nossa pequenez diante da imensidão do mundo. No meu caso não foi bem na porta, mas sim na janela do meu quarto.

Tudo começou quando esqueci o carregador do celular na casa de uma amiga em São Paulo. Como o celular também é o meu despertador, criei o hábito de dormir com a janela aberta para que a luz do sol me acordasse naturalmente. O que aconteceu foi que, quando peguei o carregador de volta, o despertador voltou mas o hábito permaneceu.
E  então, quando chegou o final do ano, época de festas e de recessos na maioria das empresas e, com ele, a hora de fechar a janela para poder dormir até mais tarde, uma lagarta resolveu fazer o seu casulo exatamente no trilho da minha janela, tornando impossível fechá-la sem que fosse necessário arrancar o casulo de lá.

E em um dos primeiros dias de folga, enquanto tentava convencer meu cérebro de que era desnecessário estar mergulhada no breu para dormir, me ocorreu que essa classe de animais poderia ser mais esperta ao escolher um abrigo.

Fiquei pensando, com os meus botões, as encheções de saco que aquela lagarta deveria ter aguentado de amigos e parentes, ao ter escolhido minha janela para o seu sono de beleza.

“Nossa, você vai mesmo ficar aí? Belo futuro você vai ter: será esmagada por aquela janela.”

“Cara, ficou sabendo da Clotilde? Fez casulo na janela de uma humana. Certeza que vai morrer antes mesmo de poder dizer ‘metamorfose’”

“Ela sempre foi uma sonhadora, mesmo. Acreditava que os humanos sabem que lagartas se transformam em borboletas e por isso iriam poupá-la da morte, mesmo sendo uma larva nojenta.” Continuar lendo