A garota da capa

comissao-formaturaPegávamos o mesmo ônibus todos os dias, ida e volta.

Ela sempre foi simpática, sempre se ofereceu para carregar minhas coisas quando eu estava em pé e nunca deixou de me cumprimentar quando passava por mim.

Eu sempre fui gentil com ela, mas não deixei de julgá-la por não cortar os cabelos completamente brancos e se vestir como prega a religião evangélica.

Até o dia em que ela se senta à minha frente e dispara a falar sobre o seu dia corrido e passagem no médico.

_Estou com os tendões inflamados, acredita? Logo eu que trabalho o dia todo em pé, correndo para lá e para cá. Ganhei um atestado de dois dias de folga, mas o primeiro foi hoje (já trabalhei até meio dia),  então folgarei só amanhã.

Lamento o seus tendões e ouço mais alguns minutos sobre os outros problemas de saúde que a assolavam, até que me solidarizo à coluna dela e pergunto se não preferia sentar ao meu lado para evitar um torcicolo. Ela vem. Pergunto onde trabalha.

_Trabalho naquela loja grande de eletrodomésticos do shopping, sabe? Trabalho na limpeza. Olha, não tenho o que reclamar de lá, viu? Todos os funcionários são muito gentis e não menosprezam ninguém. Recebo vários benefícios. E o meu gerente é muito atencioso com todos nós. Às vezes ele deixa eu sair meia hora mais cedo para não perder o ônibus que para em frente à minha casa. Para agradecer de vez em quando eu faço um bolinho para ele, levo uma sobremesa. Já me chamaram de puxa-saco do chefe por causa disso. E eu sou mesmo! Ele é uma ótima pessoa, bom para todos os funcionários. Então sou gentil com ele também.

Solta os longos cabelos e começa a ajeitá-los com as mãos.

_A gente tem que demonstrar às pessoas gentis que a gentileza delas é bem-vinda, não é? Os motoristas dos ônibus que eu pego todos os dias, por exemplo. Se eles chegam no meu ponto e eu ainda não estou lá, mas me veem descendo a rua, eles ficam me esperando. Também acho bonito o jeito que eles não dão partida no ônibus quando um idoso entra, até que ele tenha se sentado. Então, como agradecimento, trago bolo e garrafa térmica de café para eles. Eles me entregam a garrafa no dia seguinte.

Sim, eu concordo com ela. Pergunto sua idade.

_Cinquenta e cinco anos. Estou a três trabalhando na loja. Antes disso trabalhei dezoito anos como diarista, em uma casa de família. Levava três horas para ir e três horas para voltar e quando saí de lá e nunca me registraram. Não me deram nem uma gratificação pelos anos de serviço.

Já vi muito isso acontecer.

_Mas só saí de lá quando já tinha o emprego garantido na loja. Uma amiga me indicou. Quando comecei a trabalhar lá, uma das minhas companheiras da limpeza me contou que se formou no colégio. Eu só tinha estudado até a quarta série, sabe? Aí eu pensei: se ela pode, porque eu não posso? Então me matriculei numa escola que tem perto da minha casa. Você tinha que ver, moça: um bando de velhos tudo assustado, olhando pros lados como se fossem crianças no primeiro dia de aula. Mas deu tudo certo. Eu nunca perdi uma aula e até ganhei um certificado de melhor aluna da classe!

Uma pausa e ela sorri, sonhadora. Eu elogio seu feito.

_Nossa formatura foi em dezembro passado. A gente não tinha dinheiro para fazer uma festa, então combinamos de cada um levar uma coisa gostosa e um refrigerante. Mas é um momento importante da nossa vida, né? Então eu falei com minha amiga costureira para ela fazer uma beca para mim. Aí eu levei a beca lá na escola e falei para a professora: “Olha, essa beca é comunitária. Para todo mundo tirar uma foto de recordação usando beca.” Acredita que na correria de ajudar com a festinha e as fotos, esqueci de tirar uma foto usando beca?

Ela ri da própria confusão, enquanto eu lamento que ela tenha esquecido, pois esse momento deveria ter sido registrado.

_Não por isso: quando contei a história na loja, meu gerente me fez levar a beca no dia seguinte e fez várias fotos minhas usando beca. Uma delas ele revelou e colou sob a mesa dele, que é de vidro. Disse que ia deixar lá como inspiração. O mais legal é que, na época, o jornalzinho da rede de lojas estava falando sobre a volta às aulas. Foram lá na loja do shopping me entrevistar e tiraram fotos minhas, com meu certificado de melhor aluna. Saí na capa do jornal! Fiquei toda vaidosa.

Comento que ela tinha todas as razões do mundo para ficar vaidosa.

_Falei para minhas filhas que logo eu alcanço elas. Vou fazer o colégio agora. Uma delas está fazendo letras na USP e a outra estuda na Fatec. Mas a primeira começou a estudar engenharia ambiental e não gostou. Aí largou o curso para fazer letras e está adorando. Acho que tem que fazer o que gosta, né?

Sim, eu acho que tem que fazer o que gosta. E acho que tem que fazer. As coisas não caem do céu e a capacidade de conseguí-las está na nossa mão. Ir atrás e lutar pelo que se quer é o caminho. Cansamos de ouvir todas essas coisas, mas não notamos o quanto nossa vida está acomodada até que uma senhora de cinquenta e cinco anos e cabelos brancos se senta ao seu lado no ônibus e conta sobre sua formatura da oitava série e o emprego que conquistou.

Se ela pode, porque eu não posso?

5 pensamentos sobre “A garota da capa

  1. Oi Deka!
    Não só deixarei meu oi, mas também, dizer que a personagem desta crônica lembra a minha avó, que aos 75 está estudando e já até ganhou um prêmio de poesia na escola! Além disso, diz que adora artes e desde moça sonha em ser artista… e eu acredito que ela também pode.🙂
    Beijocas!

  2. É comum me emocionar por aqui, dessa vez de um jeito especial, pois a protagonista lembra muito minha mãe. No modo prestativo no trabalho, fazendo além do que se pede, além do que se espera… puxando saco =P

    Minha mãe também voltou a estudar depois dos 50 e muitas dificuldades se acumularam nessa jornada. No trabalho, em casa e na própria sala de aula. Hoje é formada e eu tenho uma baita orgulho dela.

    Minha mãe me inspira com isso e agora com sua crônica outras pessoas terão esse prazer: O prazer de acreditar no próprio potencial livre de preconceitos bobos e infundados.

    Todos podem realizar tudo, minha mãe me prova isso todos os dias.

    Belo texto, pra variar =)

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