Liberdade

O nome dela é Lidia. O dele não importa, porque a história é dela, embora o envolva.

Ela nos viu juntos e disse que éramos “um casal lindinho”, do alto da sua experiência de 64 anos de vida. Disse que ele lembrava o seu marido, já falecido.

_Fomos noivos durante 8 anos, naquele tempo usava-se noivar. Nos casamos e, um ano e quatro meses depois ele sofreu um acidente de automóvel. Morreu na hora. Não restou um único osso inteiro no corpo dele.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou. Apenas balbucio expressões usadas nessas ocasiões: “Meu Deus, sinto muito!”, “Que tragédia!”, “Que coisa terrível.”

Também disse que caiu doente, depois do que aconteceu. Teve síndrome do pânico. Medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo das outras pessoas, medo de viver.

Não sou capaz de imaginar a dor que ela enfrentou.

Conta que depois do episódio das crises de pânico, seu irmão a convidou para trabalhar com ele na feira, na barraca de vinho quente, onde trabalhou por dez anos. Depois abriram a barraca de raspadinha e lá estão, ela e sua cunhada, no mesmo lugar há 30 anos.

Não sei quantas pessoas passam por sua barraquinha e não sei quantas delas param para ouvir sua história. Não sei quantas vezes ela conta as mesmas histórias para as pessoas que a rodeiam.

Sei que a cunhada e os sobrinhos pareciam conhecer cada desdobramento dela decor, pois tinham um leve sorriso de compreensão, cada vez que ela discretamente encaminhava os outros clientes a eles, para continuar conversando conosco.

Enquanto estou na janela do quarto lembrando da história de Lidia, que é descendente de russos e faz parte da História da cidade mais cruel e sedutora que já conheci, ouço barulho da chuva caindo nas folhas das árvores. Os últimos dias haviam sido muito secos e a chuva me trouxe um certo alívio.

_Está chovendo.

_Está não. É só o farfalhar das folhas com o vento.

_Está sim. É barulho de chuva.

_É nada. Vem deitar aqui, vem.

Ele tem os olhos mais brilhantes e o sorriso mais franco que já vi. E talvez não saiba que me dá tanto mais do que preciso. A chuva fica mais forte.

_Agora sim está chovendo.

E ri de mim e da própria provocação.

Me sinto muito pequena, enquanto ele me enche de histórias para contar.

5 pensamentos sobre “Liberdade

  1. A tragédia alheia sempre me conforta, sobretudo quando é maior que a minha. Neste caso a minha continua sendo maior. A vida é dura, o palhaço é triste e não há remédio. 😐

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