Longas pernas

metroImaginem o cenário: metrô de São Paulo, 8h30 da manhã.

A cada três metrôs no sentido oposto, passa um no sentido no qual preciso pegar.

E os metrôs que passam (a cada três do sentido oposto) estão tão abarrotados que não dá tempo das pessoas de dentro saírem e as de fora entrarem.

Então a plataforma vai se enchendo cada vez mais.

No sexto metrô que para, abre e sai gente, vejo uma brecha com o exato espaço para caber a mim, meio de lado e com a perna esquerda levantada, mais a minha mochila. Contraio a barriga, desvio de um cotovelo e entro, esperando a porta fechar atrás de mim para poder soltar meu peso contra ela.

Apito. Porta fecha. O maquinista ainda leva um minuto a mais do que deveria para partir. Apenas suspiro, tão atrasada que já nem confiro mais as horas no relógio.

Foi nesse momento que ela se fez notar, alongando as pernas preguiçosamente, como se não estivesse cercada de gente em um ambiente sufocante. Impossível alguém como ela passar despercebida. Em poucos instantes havia um pequeno oásis de pessoas em torno, todos dando o espaço necessário para que ela se espreguiçasse.

E ela esticava aquelas pernas intermináveis, longuíssimas, apoiando-se verticalmente e se movendo como o mundo não estivesse acabando em superlotação de transporte público.

As pessoas em volta a olhavam um tanto estupefatas, sem saberem o que dizer ou qual atitude tomar diante daquele comportamento claramente indiferente às circunstâncias de aperto matinal.

Comecei a ficar tensa, pois conheço o ânimo dos frequentadores do metrô pela manhã. Faltava pouco para alguém tomar uma atitude extrema, diante de tanto desprendimento.

Foi nesse momento que o pior aconteceu: ela começou a mover todas as oito pernas com mais rapidez, um sinal claro de que a sua intenção era descer pela teia até alcançar um ponto onde pudesse tecer sua nova casa. Em pleno metrô de São Paulo.

As pessoas começaram a se inclinar para trás, conforme a aranha descia lentamente pela sua teia. Eu me encolhi. A tragédia era iminente.

E se consumou quando um rapaz tirou um papel do bolso, acolheu a pobrezinha até que ela estivesse confortável e amarrotou tudo com um ar triunfante.

Os outros passageiros aplaudiram.

Só eu lamentei o triste destino da bela de pernas longas.

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