Nova

caderno-escrito-a-maoParei estática diante daquela página em branco.

Olhei para todas as outras já escritas.

Algumas rasgadas, sujas, amarrotadas.

Outras lindas, morro de orgulho delas. Fiz desenhos nas bordas, para decorá-las, caprichei na letra.

E também havia as páginas garranchadas, com manchas na tinta da caneta que não deixavam dúvidas de que foram lágrimas que caíram, enquanto derramava o estado mais bruto da minha alma naquelas linhas.

Aquilo tudo não seria deixado para trás, eu já sabia. Já passei por muitas páginas limpas na minha vida.

Mas ela não deixava de me assustar. Ela parecia ser completamente diferente de tudo o que eu já havia vivido, mesmo sendo apenas uma página em branco.

O problema é que eu sentia em meu âmago que, assim que eu a começasse, a minha vida mudaria completamente. Através de situações novas, acontecimentos novos e oportunidades novas. Mas principalmente porque eu nunca mais seria a mesma assim que me envolvesse com aquela folha que se oferecia lascivamente às minhas palavras.

E ainda assim era como se eu houvesse vivido até aquele momento somente para chegar àquela página. Ela com certeza seria maravilhosa. Mas só o pavor de saber que o fato dela ser maravilhosa dependia quase que completamente do que eu deixaria em suas linhas, me botava quase em pânico.

Pensei que, assim que eu a iniciasse, perderia folhas inteiras já escritas. Certezas que estavam gravadas à tinta em linhas já passadas. Mas algo me dizia que não seriam inutilizadas. Apenas se tornariam um alicerce inerte para as paredes que eu iria construir. A página em branco me chamava e a sua voz era a minha. Eu sabia que era apenas um eco meu, ressoando naquele vazio. Eu queria a página nova tanto quanto ela me queria.

Ainda assim, por que eu não tinha forças para simplesmente pousar a caneta na marca da primeira linha e começar a escrever?

Olhei a página anterior e restavam algumas linhas vazias. Eu nunca deixo uma página incompleta.

Era hora de terminá-la e, talvez, quando eu colocasse o ponto final no último canto inferior dela, finalmente me sentisse com forças de prosseguir.

Respirei fundo. Liguei uma música. Era a primeira vez que eu precisava encher a minha cabeça com um som para conseguir esvaziá-la em uma página, como se necessitasse de um fluxo para escoar todas aquelas emoções.

Olhei para a caneta com um ar cúmplice e ela refletiu a luz de volta, em concordância. Embora tudo fosse mudar, eu sabia, uma coisa permaneceria a mesma: a minha vida continuaria sendo escrita à mão.

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