A lágrima

olhar-velhiceQuando ouviu o som da voz dele, chamando-o pelo nome,  uma grossa lágrima, apenas uma, escorreu de seu olho esquerdo.

Teria morrido ali, na bolsa da pálpebra inferior que marcava um sério cansaço de viver, devido à sua posição meio deitado, meio sentado. Mas era uma gota grossa, pesada. Um tanto hesitante, ultrapassou os limites das olheiras e prosseguiu seu caminho lentamente deixando, porém, uma pequena porção do líquido adentrar as rugas laterais e se dirigir as têmporas, atingindo o cabelo branco.

A maior parte continuou descendo aos poucos, pelas maçãs do rosto, iniciando um traço firme que refletia a luz, pelo rosto moreno que ainda guardava uma réstia do semblante que tivera quando moço. Se os olhos estivessem abertos, mostrariam o mesmo brilho que refletiam na juventude. O brilho de quem sempre acreditou na conquista pelas próprias mãos, mesmo quando ainda não tinha idade para conquistar coisa alguma.

A lágrima atingiu o exato ponto em que sua primeira conquista real o havia beijado há quase cinquenta anos atrás, na bochecha. Ele lhe dissera que ela devia se acostumar desde aquele momento com o fato de que seria mulher dele. Ela se mostrou tímida, mas então o beijou e correu com toda a sua paixão contida durante anos, para casa, antes que os pais dessem por sua falta.

A cicatriz que chegava quase aos lábios quase barrou a gota salgada, mas já não era tão funda quanto fora no dia em que sua filha nasceu. Ele sempre ria largamente ao contar para quem quisesse ouvir sobre a forma como deixara escapar uma grande peça de vidro das suas mãos, quando a carregava para fora da vidraçaria que trabalhara por toda a vida. O vidro caiu de quina no chão, trincando imediatamente. Um estilhaço voou em direção ao seu rosto e lhe entrou pela bochecha, no exato instante em que a esposa entrava em trabalho de parto na sua casa. Ele ria de chorar, contando que a mulher entrou gritando de dores por uma porta e ele entrou segurando um pano para estancar o sangue e xingando os enfermeiros de incompetentes pela outra, por não o deixare ir assistir ao nascimento da filha.

Mas agora não era pelo riso que o choro único e solitário lhe chegava ao pescoço. O pescoço onde a filha se pendurou morta de felicidade por ter se formado professora, agradecendo-o por todo o sacrifício que fizera para que ela chegasse ao diploma. Nesse dia ele estava sem fôlego. Em parte pela emoção, em outra parte pelo tumor que ele ainda não sabia, mas já se desenvolvia em seu pulmão, resultado dos anos de vício na nicotina.

Agora quase esgotada, a lágrima lhe atingiu o ombro. Lembraria como se estivesse acontecendo agora, o dia em que aninhou seu primeiro neto ainda recém-nascido ali, na curva entre o pescoço e o ombro. Ele parecia tão pequeno, tão macio, em contato às rugas do avô. O perfume do pequeno corpinho entrou por suas narinas e o envolveu em uma atmosfera tão grande de amor, que ele achou que nunca mais seria capaz de amar tanto novamente.

Os anos se passaram, outros netos vieram e ele descobriu que o amor se multiplicava. Mas esse primeiro sempre lhe fora especial, justo por ser o primeiro. Esse neto se tornou um grande homem.

O mesmo homem que agora estava sentado ao lado do leito do avô, assistindo à lágrima única e solitária, agora quase esgotada, atingir o travesseiro e morrer ali, absorvida pelo algodão.

Apesar do longo caminho percorrido por aquela gota, o silêncio permaneceu o mesmo, desde que chamara o avô para avisá-lo de que estava ali, segurando sua mão imóvel. Lhe disseram que em estado de coma ele não seria capaz de ouví-lo.

Mas ele tinha uma lágrima inteira que provava o contrário.

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