Dona do próprio bico

Esse é o Sting.

Esse é o Sting.

Eu já tive calopsitas.

Tive duas. Uma. Um macho. A fêmea chegou depois.

O macho era o Sting (Tico) e foi presenteado à minha irmã pelo nosso vizinho idoso fofo, que me presenteava com livros.

A fêmea simplesmente chegou. Minha mãe ouviu o Sting gritando aqui dentro e ela gritando lá fora. A encontrou assustada, molhada e depenada pousada no forro da varanda. Então deixou a gaiola do Tico na varanda, para que ela se sentisse segura e descesse. Funcionou.

Em um arroubo de criatividade, minha irmã batizou-a de Peixe. É. E ela cresceu, emplumou e ficou gordinha de novo, sob nosso teto.

Peixe sempre foi uma calopsita-fêmea fora do convencional. Não cantava, mas chiava, assoviava e piava o dia inteiro. Nunca deixava que a tocássemos sem sua permissão e frequentemente levantava vôo pela casa, indo parar em cômodos que desconhecia e tendo que nos chamar para que a levássemos de volta para a gaiola. Somente nessas situações permitia que nos aproximássemos e subia no braço para ser conduzida de volta.

Acostumados com Sting, sempre quieto, introspectivo e pouco aventureiro, Peixe chegou para agitar a casa.

Até que, como qualquer sociedade moralmente saudável, começamos a esperar que os dois cruzassem para terem ovinhos. Afinal, quando se junta um macho e uma fêmea, tudo o que se espera é que eles virem um casal e tenham filhos.

Mas não era bem isso o que a Peixe tinha em mente.

Para que entenda a peculiaridade dessa passarinha, você precisa saber que calopsitas, quando deixadas juntas, acasalam o ano inteiro. Mas o conselho dos criadores é que se coloque um ninho daqueles de caixinha na gaiola, para que incentive os dois a cruzarem. Então o macho entrará no ninho e atrairá a fêmea lá para dentro com o seu canto. Os dois cruzarão lá dentro e, quando chegar a hora, a fêmea botará seus ovos no ninho que serão chocados por ela e pelo macho.

A questão é que Peixe não estava dando uma foda para essas regras.

Ignorou sumariamente o ninho discreto e íntimo. Ignorou também a parte que o macho a convida para a “festinha”. E se abaixava e piava baixinho, em um claro convite ao Sting para acasalar ali mesmo no poleiro, à vista da família toda e quem mais estivesse na sala.

No começo ele não negava fogo. Mas depois de algumas semanas nessa frequência intensa, ele começou a dar sinais de esgotamento. E depois do vuco-vuco, se ele tentasse se aproximar para pedir um cafuné, levava bicada.

Até que Peixe resolveu botar. Mas não como manda o figurino, bonitinha lá no ninho quente e protegido. Ela simplesmente subiu ao poleiro mais alto da gaiola, piou até dizer chega e botou o ovo lá de cima que, obviamente, se espatifou no chão.

Ela fez isso com every single ovo. Piava, subia no poleiro mais alto e abortava o ovo espatifado no chão. Quando o ovo não quebrava, ela descia e o bicava até quebrar. E não pensem que ela sossegou enquanto estava teoricamente choca: chamava o Tico tanto quanto antes.

Sting parou de cantar. Ficava encolhido no canto do poleiro, com medo de se mexer, ser visto pela Peixe e ter que dar no couro novamente.

Quando eu achei que ele iria entrar com o pedido de divórcio por “incompatibilidade de penachos”, Peixe viu uma janela aberta e foi-se embora assim como veio.

Minha mãe, que adorava a bichinha, sentiu muito a sua falta. Levamos um tempo para superar, pois a casa ficou estranhamente silenciosa após sua partida.

Consolei o Tico como pude, mas ele pareceu estar mais conformado do que todos nós. Na verdade, nunca vi o Sting tão aliviado em sua penosa vida.

Dias depois, sentada com o Sting no meu colo, pensando na vida, comecei a juntar os pontos: Peixe era  independente, repudiava que a tocassem sem sua permissão, tomava a iniciativa, fazia sexo sem envolvimento emocional, não dava a mínima para o que diziam que ela devia fazer, nem para o que se esperava de uma calopsita e escolheu não ter filhos.

Peixe era feminista. E na verdade, nós nunca a tivemos, porque ela nunca foi propriedade de ninguém.

Não faço ideia de onde ela voa, ou mesmo se ainda vive. Mas de uma coisa tenho certeza: não está se escondendo sob as asas de ninguém.

2 pensamentos sobre “Dona do próprio bico

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s