Imoral

pedra do sapatoAcordou com a luz do sol atravessando o vidro da janela que nunca era completamente fechada. Adorava dormir, então enrolou mais dez minutinhos, com a desculpa de pensar na roupa que usaria no dia.

Um tanto relutante, espreguiçou-se languidamente, ergueu o corpo e movimentou a cabeça de um lado para o outro, para relaxar o pescoço e os ombros.

Só então despertou.

Jogou as cobertas para o lado e, sem pudor algum, tocou o piso frio com os pés nus. Jogou os cabelos encaracolados para o alto, em um rabo de cavalo frouxo e despenteado, jogou a camiseta com a qual dormiu sobre a cama e começou a se arrumar para o trabalho.

Olhou por um instante a arara, procurando pelas peças que decidira usar naquele dia. Suas roupas não eram muitas, muito menos as mais caras. Pelo contrário. Orgulhava-se de seu estilo único, constituído a partir de muita curadoria de ofertas em outlets, garimpo de brechós e caça de achados bons em varejistas de roupa. E as usava com um orgulho vexatório do pouco dinheiro que havia gastado com elas.

Já na rua, gostava de andar ouvindo músicas e sentindo a textura do chão em que pisava, através do fino solado do tênis. Sempre sentia a rua porque quase nunca usava saltos. Tinha um par de saltos pretos, para emergências. E tinha coragem de sair em público no alto das suas pernas curtas, como se não precisasse deles.

E sempre caminhava. Sempre andava de ônibus. Sempre usava o metrô. Adorava pedalar. Porque ela não ganharia um carro dos pais. E se ganhasse, teria vendido para fazer uma viagem. Ela dizia que nunca teria um carro e lhe diziam com um ar de pena: “Não fale assim! É claro que um dia você poderá comprar um.” Mas ela achava que já ocupava espaço demais no mundo, sem que estivesse sozinha em uma caixa de metal onde coubessem mais quatro pessoas além dela. E já gastava oxigênio demais respirando. E não tinha vergonha de ter ambições tão limitadas.

E passou em frente do apartamento que estava de olho havia algum tempo. Era um quitinete. Ela queria morar nele porque só precisava de espaço para seu sono, sua fome e seus livros. E os poucos amigos que gostariam de compartilhar sua casa. Porque ela conhecia muitas pessoas. Mas apenas poucos amigos com quem compartilharia sua intimidade. Também porque o quitinete era lindo, tinha uma parede de tijolinho colorido vazado, bem no meio dele. E porque ela não tinha vergonha de amar tantas pessoas quantas coubessem em seu quitinete.

E por falar em amor, sem constrangimento algum, ela acreditava nele. Mas não esperava por ele. Talvez acontecesse, talvez o mais próximo que chegasse dos amores que ouvia falar fosse a relação questionável que tinha com os amigos. Ela separava sexo de amor e de amizade, mas como todo bom conhecedor de determinados elementos, misturava-os todos sem acanhamento e sem medo do que aquela receita iria se tornar. E se o amor, como diziam, acontecesse ela o viveria. Mas se não acontecesse, viveria sem ele. Não tinha medo de dizer que família e filhos não estavam nos seus planos, como se isso não fosse obrigação, como se isso fosse decente.

Ela queria conhecer coisas, pessoas e lugares. Queria cuidar dos pais, porque já chegava a hora deles descansarem de cuidar de tudo. E queria fazer o que amava, sem ter que se preocupar em ter de sobra e sem ter que se preocupar com as sobras depois de tê-las. Porque tudo o que sobra em um lugar, falta em outro. E, se acontecesse de sobrar, ela já sabia muito bem o que faria com os excessos.

Ela não desejava o que não tinha. Não desejaria mais, quando tivesse o que não tinha. Ela só desejava o que precisava. E o que a transcendesse. Mas isso não vira patrimônio e não serve para classificá-la em uma tabela social. Não acumula, só acrescenta sem privar ninguém.

E sem cerimônias desprezava a ganância, ofendendo a moral e os bons costumes.

6 pensamentos sobre “Imoral

  1. “E por falar em amor, sem constrangimento algum, ela acreditava nele. Mas não esperava por ele. Talvez acontecesse, talvez o mais próximo que chegasse dos amores que ouvia falar fosse a relação questionável que tinha com os amigos. ”

    Lindo texto e ultimamente ando +/- nesse ritmo🙂

  2. ” E queria fazer o que amava, sem ter que se preocupar em ter de sobra e sem ter que se preocupar com as sobras depois de tê-las.” – Lindo, belíssimo, Dekinha!

    Acho que o adiamento em te ler só me fez perder textos tão belos quanto esse. Mas já hei de retificar isso aos poucos, lendo cada dia um pelo menos.

    Me fez muito lembrar uma amiga querida (para a qual acabei de enviar o link, inclusive) e isso de lermos e lembrarmos de alguém específico é o que torna cada textinho (no diminutivo-carinhoso) um pedaço único do mundo, bastante sublime.

    Continue, por favor, continue!

    Um beijo apertado!
    Carol Ornellas

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