Eu, meu ego e o Brasil Tostines

Então é isso. Eu nunca pensei que justamente eu fosse escrever um texto tão pessimista e sem esperanças.

Mas gente esperou décadas para o Brasil acordar. E quando ele acordou, despontou a dúvida se estamos mesmo preparados para pedir mudanças.

Sim, porque a gente mete o pau no projeto de cura-gay do Feliciano, chamando o pastor/deputado de “viado enrustido”. A gente é contra a corrupção pagando cafezinho para o guardinha não multar nosso carro estacionado há horas na zona azul. Fazemos cartazes falando de inclusão social, mas estacionamos em vagas para pessoas com necessidades especiais. A gente vai na rua gritar que quer transporte público de qualidade, mas vai pro trabalho todo dia de carro sozinho e ainda reclama que o congestionamento está foda. Queremos ser respeitados como ser humano e que a polícia não cometa abusos, mas acha ok segurar mulher pelo braço na balada e consideramos embebedá-la uma tática de conquista. Vai na marcha das vadias levantar faixa contra estupro, mas bota em dúvida a virilidade do cara que não quis te comer.

Pior do que toda essa falta de coerência é querer sempre sair na vantagem em tudo. Já vi mulher grávida levantar do assento reservado para idoso sentar e nenhum puto levantou para oferecer o lugar à ela. E se você pedir com educação, ainda é capaz de tomar um foda-se-vai-cuidar-da-sua-vida na cara.

Não sei o que é pior: a vontade de obter vantagem ou o medo de ser otário. Já me perguntaram porque eu dou bom dia para os motoristas do ônibus, funcionário de guichê do metrô ou atendente do café, mesmo quando essas pessoas são grossas comigo ou me ignoram. “Ninguém vai te tratar bem, aqui. Você está fazendo papel ridículo.”

Me deixa ser ridícula, cara. Se eu estivesse no lugar dessas pessoas gostaria que me tratassem bem. Já ouviu falar em ser a mudança que você quer ver no mundo? Me esforço para ser a mudança todos os dias e me dói quando minha TPM não deixa.

Aí você vê um cara falando groselha na TV/rádio/revista/facebook e se revolta. Ok, está ok. Tornar suas opiniões públicas têm suas consequências e a mais leve delas é um batalhão vir discordar de você. (DISCORDAR, que fique claro. Não ir lá xingar a mãe e as próximas três gerações do cara.) E então o fulano vê que falou merda. E se retrata. E aí vai todo mundo tirar uma com a cara dele. Chamá-lo de vendido. Botar em dúvida o novo posicionamento dele.

Gente, vem cá, vocês nunca cometeram erros não? Nunca mudaram de ideia ou de opinião? Sim, existe uma responsabilidade maior para quem é figura pública e formador de opinião. Sim, existe gente oportunista e gente que se vende. Mas ser hostil não ajuda em nada. Se o cara fala que é a favor você arregaça com ele. Se ele muda de ideia e diz que é favor, você arregaça com ele. O que a gente quer, então?

E o pior de tudo: estar lá questionando tudo o que a tal pessoa está falando, mas continuar postando notícia de sete milênios atrás no seu facebook, compartilhando frase fora de contexto, pedindo impeachment SEM NEM SABER PRA QUE SERVE UM IMPEACHMENT!!!

Pelo amor de Deus, isso é vergonhoso! O seu facebook não é uma mesa de bar. Não é um “ouvi dizer”, “nossa tenho que te contar um babado”. Seu facebook é um veículo onde você influencia as pessoas que te seguem. E onde as coisas que você fala vão ter consequências como influenciar alguém com uma informação incorreta (chama-se “desinformação”) ou então falar merda e correr o mesmo risco que o cara acima: ter que lidar com gente que discorda de você. Oh, que coisa horrível e inacreditável, existir gente que pensa diferente de você, né?

Ao contrário do que você acha, discordar não é ser contra a liberdade de expressão. Mas achar que você pode postar o que quiser no seu ~feice~ e não querer que ninguém discorde não só É ser contra a liberdade de expressão, como também é querer viver numa bolha chamada “meu incrível umbigo.”

Cada vez mais fica claro para mim que o governo não é só um bando de aproveitadores sanguessugas, mas sim um reflexo de um povo doente. Um reflexo que representa exatamente a galera que está reclamando de ser explorada. Mas que talvez só esteja reclamando por ser justamente o explorado e não o explorador. Nesse segundo caso talvez estivesse quietinho na sua, fazendo EXATAMENTE a mesma coisa que as autoridades fazem com a população.

Essa última semana serviu para expor não só o descontentamento do povo brasileiro, mas também o próprio povo brasileiro para si mesmo. Somos hipócritas, oportunistas, ignorantes, mal informados, corruptos, individualistas e preconceituosos. E resolvi nem dissertar sobre a nossa capacidade de banalizar qualquer boa intenção que caia no gosto popular.

O dilema está aí, plantado na nossa testa: o Brasil está uma bosta porque o governo é corrupto ou o governo está corrupto porque o Brasil é uma bosta?

9 pensamentos sobre “Eu, meu ego e o Brasil Tostines

  1. Adorei Deka .. Conseguiu transpor em palavras o que muita gente esta pensando sobre tudo isso e que eu mesma não conseguiria me colocar tão bem .. Parabéns por mais um belo post. Beijos

  2. Acho que a pior parte de tudo isso, foi ter criado esperança e dar de cara com a parede, que é a ignorância e a hipocrisia… Infelizmente, essa desesperança tomou muita gente com os últimos acontecimentos.
    Ótimo texto, parabéns

  3. “Mas que talvez só esteja reclamando por ser justamente o explorado e não o explorador” essa frase elucidou coisas que eu não tinha conseguido processar ainda. Coisas que estavam entaladas, sem eu realmente entender o que elas significavam. Aquela decepção de um lado e a revolta do outro, além da vergonha de ver que eu fiz/faço algumas dessas coisas tão erradas (xinguei o Feliciano, é).

    Às vezes é bom levar tapa na cara (mental) para entender minhas próprias falhas. E por isso, obrigada. Estou aqui avaliando meus preconceitos.

    A coisa mais frustrante, para mim, é ver gente inteligente reproduzindo discurso pronto. Não consigo visualizar uma discussão produtiva sem que as pessoas saibam no que elas próprias acreditam, sem que elas entendam por que causa estão lutando, e de que forma PODEM lutar (minha mãe é da opinião de que lutar pelos meios formais é mais eficaz do que sair na rua e gritar… pra ela, isso funciona. mamis é psicóloga no setor público).

    Enfim, a moral é que eu passei um tempão pensando nas causas, nas consequências, nos significados, no que eu acreditava ou não, estudando algumas dessas PECs e PEDs, tentando informar quem tinha paciência para ouvir… e ainda assim não descobri uma forma de colaborar.

    Como lidar?
    E como lidar com o fato de que, no meio de tanta “pensação”, pensei mais em mim mesma e nos meus preconceitos do que no Brasil e no “povo”?

    É…. Obrigada, de novo, pelo texto.

    • Talvez seja disso que o Brasil esteja precisando, sabe, Ju? Parar e olhar um pouquinho pra dentro. E (adoro clichês) ser a mudança que se espera pro país. (Outro clichê) Já ouviu dizer que quando a gente muda o mundo muda com a gente? Então… o nosso Brasil adolescente quer ser ouvido, mas não sabe ouvir. Quer consertar o mundo no tapa e ganhar no grito, aponta os erros de todos, mas é incapaz de silenciar e olhar o próprio rabo.

      No momento estou bastante pessimista. Mas, sei lá. Ainda dá pra mudar.

      (E continuo sendo romântica o suficiente para acreditar que a mudança vai nascer na educação e levará longos 20 anos para começar a dar resultados.)

  4. Concordo plenamente que a nossa situação política seja reflexo de nossas próprias falhas sociais. Costumo dizer que nós, brasileiros, temos uma moral flexível: Sabemos o que é certo e o que é errado, mas conseguimos torcer esses conceitos quando nos é inconveniente. “Furar fila é coisa de FDP… A não ser que eu esteja atrasado.”

    Mas acho muito importante que a gente aprenda a se manifestar. Somos imaturos, mas é justamente ao abrirmos nossas bocas para reclamar que podemos ser contestados. Sim, hoje essas contestações vem na base, muitas vezes, de críticas vazias ou pouco embasadas, mas será que tudo isso não faz parte de um processo de aprendizado? Será que expor essas contradições não é importante para que, em algum momento, não as notemos?

    Quero crer que sim. Mas eu sou um romântico, posso estar errado. Se estiver, ao menos, terei aprendido um pouco mais sobre nós, brasileiros.

    • Acho que faz parte de um aprendizado sim, Wes. Mas conversando com uns amigos, chegamos à conclusão de que o Brasil ainda é um país adolescente. E isso implica todas as características complicadas de um pós-púbere: extremista, fatalista, mimado, tem a tendência de se vitimizar e, após essa minha decepção, eu acrescentaria “incapaz de perceber os próprios defeitos”. Mesmo que tais defeitos sejam jogados na nossa cara que nem foi nesse episódio.

      Eu sei que estou sendo pessimista. Mas tá difícil bancar a Pollyanna com o rumo que as coisas andam tomando.

  5. Se vc tem a oportunidade de ter vivido um tempo fora do Brasil, vc volta e consegue ver ainda mais claramente isso tudo que vc escreveu, e se vc não gosta da sua constatação e quer continuar com as coisas boas que aprendeu fora daqui, é chamada de burguesinha e que agora tem o nariz empinado. Não é nariz empinado, aqui, se vc quer ser correta, vc é diferente demais e vira alvo. Enquanto o foco não for a educação, adeus Brasil diferente. 😦

    • Já vi várias pessoas dizendo isso, Gi. E inclusive dizendo uma coisa que me deixa com autovergonha alheia: toda vez que vê gente querendo dar uma de esperto no exterior, pode apostar que é brasileiro. Assim fica difícil de esperar mudança. =(

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