Quem é o Brasil?

Eu nasci no país do futebol.

Mas eu não sou fanática por futebol como a maioria dos meus amigos. Não entendo nada sobre as regras do esporte, não tenho um time do coração, nunca fui ver um jogo em um estádio.

Talvez seja porque eu cresci em um ambiente onde o futebol não fosse tão importante quanto outros aspectos do cotidiano. Não via com frequência meu pai questionando a dignidade do juiz durante um cartão vermelho ou uma falta óbvia. Não via meus tios conversando sobre os lances mais bonitos ou os pênaltis sofridos do último jogo.

É engraçado dizer isso sendo brasileira e sabendo que no exterior essa é uma das nossas principais características: somos o país do futebol.

Mas até mesmo eu, quando vejo a Seleção vestindo as cores do uniforme, me emociono. Não entendo muitas coisas que vejo, mas eu tremo, eu vibro. Sofro quando um gol é impedido (enquanto ainda me esforço para entender essa regra bizarra), uma falta é ignorada, ou um jogador expulso.

E é inevitável gritar com todas as forças dos meus pulmões quando um gol sofrido sai. Os olhos enchem de lágrimas, sim. O coração acelera.

E eu não sou fanática por futebol.

Mas sabe essa emoção que brota? Ela brota por ver as cores da bandeira do meu país ali, correndo em onze pontinhos brilhantes sobre o gramado. Pensando que mesmo enquanto a gente está gritando e sofrendo por um jogo, as pessoas que deviam estar cuidando da gente estão se aproveitando do nosso jeito festeiro e caloroso. A emoção que eu tenho durante um jogo da seleção é por ver todos aqueles brasileiros unidos, se esforçando por uma vitória do nosso país.

Eu também nasci no país da corrupção.

E cresci em um ambiente que incentivava a passividade, porque o medo de perder a ordem era maior do que a vontade de conquistar o progresso. Acostumei a ver as pessoas à minha volta reclamando da vergonha que era a política no Brasil, sem nunca saber qual era o candidato menos pior para se votar. Porque até os poucos que nunca tiveram escândalos em seu passado, ainda correm o risco de serem corrompidos quando tiverem o poder nas mãos, aqueles rios de dinheiro e benefícios em seus holerites e até mesmo sendo ameaçados caso se tornem obstáculos para os objetivos questionáveis dos outros. Mas essas mesmas pessoas que reclamavam, nunca tinham a oportunidade de fazer nada para mudar alguma coisa, porque se sentiam pequenas demais diante das proporções das injustiças que o meu país sofre.

Então, quando eu vi aquelas imagens do meu povo nas ruas, se unindo por um bem coletivo, meu coração vibrou, sim. O sorriso surgiu eufórico no meu rosto, foi inevitável.

Eu vi a lenda de que brasileiro aguenta tudo quieto ser derrubada pela minha geração. Por pessoas que estão lutando por R$ 0,20 centavos que talvez nem faça tanta falta para elas próprias, mas é uma fortuna para uma parcela imensa da população e diante de todo o descaso que a gente tem que aguentar dos nossos governantes, é um abuso absurdo. Porque a gente não aguenta mais. A gente já tem tão pouco e ainda esse pouco querem tornar mais difícil e mais caro.

Eu não consigo evitar sentir a voz embargar de orgulho quando começo a falar da mobilização e quando vejo meus amigos lutando lá, unidos a milhares de pessoas, pedindo por melhores condições.

E não consigo não chorar quando vejo essas pessoas sendo atacadas pela polícia, levando bala de borracha na cara e engolindo seus gritos com rolos de fumaça de gás lacrimogêneo.

Eu queria abraçar essas pessoas. Queria pedir desculpas a elas por estarem dando a cara a tapa por mim, porque eu me sinto responsável pela dor que elas estão sentindo. Eu também sou culpada, porque eu faço parte de uma sociedade onde é comum falsificar documentos para poder entrar em uma balada ou pagar mais barato no cinema. Onde é comum pedir privilégios para pessoas que trabalham em orgãos públicos, tem familiares militares ou querem sempre tirar o máximo de vantagem que conseguirem de todas as situações, pensando apenas no benefício próprio.

Eu luto todos os dias contra esse egoísmo, porque eu sei que isso começa pequenininho assim dentro da gente, mas foi desse jeito que a corrupção chegou ao ponto que está.

Eu queria estar lá, tomando bala de borracha também, porque eu nunca me emocionei tanto e me vi tão representada quanto naqueles gritos, naqueles cartazes e naqueles rostos decididos. Eu nunca acreditei que viveria para ver os brasileiros se unindo de um jeito tão lindo, por acreditar na mesma coisa e não aguentar mais ser capacho das autoridades.

E, sabe, não é pecado mudar de opinião. Eu mesma já mudei de opinião várias vezes, a cada elemento novo que me é acrescentado. A cada vez que proferi um posicionamento equivocado, movida pelo calor da indignação. Achei que era baderna, quando vi banca de jornal sendo vandalizada. Mas não é baderna, porque os baderneiros são alguns e não são a Manifestação. Também já achei que todo PM era o vilão. Não é. Tem policial que apoia a causa, que sorri e elogia a iniciativa dos manifestantes, mas tá ali cumprindo ordens. É o trabalho dele. E os policiais sofrem tanto quanto a gente, em seu trabalho: estão desmotivados, desmoralizados, desvalorizados.

Não é de se estranhar que dos dois lados tenha gente perdendo os limites.

Mas ali, quando o que vale é quanta dor você está sentindo, quem leva a melhor? Os policiais que são treinados para a ofensiva, têm escudos e capacetes, bombas e armas, ou as pessoas que carregam tanta revolta em si, que às vezes nem conseguem decidir qual rota tomar, quanto mais contra qual injustiça devem lutar primeiro? Essas pessoas estão expostas de cara e ideias e tudo o que têm para se proteger é aquilo em que acreditam. Acabam sofrendo fisicamente as consequências de gritar em voz alta e praça pública as obcenidades que nos enfiam goela baixo.

Eu queria estar lá hoje, no Quinto Grande Ato, mas estou longe demais. Tudo o que eu tenho para oferecer é essa emoção que estou sentindo, que me fez chorar enquanto escrevia esse post do começo ao fim.

E eu não sou uma especialista em políticas públicas. Não sou uma dos líderes do movimento, que vai saber responder perguntas, sejam elas buscando esclarecimento, ou daquelas mais capciosas, que procuram deslegitimar o que você acredita. Mas eu acredito. Acredito em todas aquelas pessoas que irão marchar hoje à noite por melhores condições de transporte, por uma vida mais justa, por uma preocupação maior dos governantes em servir a população e não encher os próprios bolsos. Estarei lá representada pelos meus amigos e por todos os outros.

Peço aos meus amigos que tomem cuidado, não só com a ação exagerada da polícia (já que contra isso, na hora, não há muito o que fazer) mas também com a preocupação de não descaracterizar o movimento com provocações, partidarismos e ofensas. Não podemos legitimar a violência da polícia, como também temos que entender que eles também são pais de família com contas a pagar e que são explorados pelo mesmo sistema que nos explora.

Continuem mostrando que estamos unidos em nossa insatisfação e que vocês estão representando a mim e a quem mais não pôde comparecer e até às pessoas que não entendem que tudo isso não é só por R$ 0,20.

Porque quando conseguirmos, todos serão beneficiados, até quem nos chama de “baderneiros”.

Nós temos o poder de conquistar isso e esse será só o começo. Vamos mostrar que nós não somos só o país do futebol e, definitivamente, não somos o país que aceita a corrupção sem reagir.

Eu ficarei aqui, de longe, repetindo com orgulho as palavras “meus amigos”, “minha geração”, “meu estado”, “MEU PAÍS”, “MEU POVO”. Força, gente. Arrasem por todos nós, sem partidos! Eu farei o que posso, compartilhando tudo o que puder para ajudar a divulgar o que realmente acontecerá hoje e mostrando a quem quiser ver, que existe SIM amor em São Paulo.

Amor o suficiente para amar o Brasil todo.

Anúncios

5 pensamentos sobre “Quem é o Brasil?

  1. Acho que é mal de escritora… Essa coisa de sentir desgovernadamente.
    E eu não acho que seja um defeito. Embora a revolta seja uma coisa muito lógica, se pensarmos no momento em que chegamos, a revolta, por si só, é um sentimento. O tão falado “basta” é resultado de sentimento.

    No fundo, estamos todos sentindo. Quer tenhamos um grande discurso político por trás, ou só isso… Os sentimentos.

    Queria que lesse meu conto sobre o assunto tbm, se tiver um tempinho: http://doobvioaoavesso.blogspot.com.br/2013/06/sobre-selvageria-humana.html

  2. Deka,
    Belo post e tenho que dizer que o seu sentimento é tmabém o meu.
    Esse movimento pelos tais R$ 0,20 (como muitos dizem) é na verdade a primeira grande mobilização desde 92 com os caras pintadas que ajudaram a tirar o Collor do Poder.
    Compartilho com você o Orgulho ( começando com maiúscula mesmo) de fazer parte dessa geração que está a frente da manifestação confesso que por muito tempo achei que não veria isso nunca e por isso fico tão orgulhoso.

    Me parece e eu espero que essa seja a primeira de muitas manifestações que o povo venha a fazer não só contra O aumento da passagem nos transportes mas também contra a corrupção infração falta de segurança e tantos outros problemas que o Brasil tem.
    Por que não dá mais pra abaixar a cabeça
    Não dá mais pra aguentar calado
    O povo tem que sair às ruas e gritar
    Por que afinal, que faz esse País somos nós

  3. Orgulho é a palavra… É engraçado isso, já que tenho muito próximo pessoas que ainda não entenderam direito o que está acontecendo, e acabam se juntando aos que insistem em dizer que é só baderna… Mas o meu orgulho e a minha emoção você conseguiu colocar nesse post.
    Estou orgulhosa ao mesmo tempo, por ver amigos que nunca imaginaria, participando… Pela primeira vez orgulho de ser brasileira fora de campo…

    Parabéns pelo texto maravilhoso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s