Carta ao escritor Jorge Amado:

dona flor e seus dois maridos-cena2

02 de agosto de 2007

Oi, seu Jorge Amado. Tudo bem? Estou um pouco nervosa em escrever essa carta, porque o senhor é aquele tipo de pessoa que a gente tem uma admiração meio temerosa, tipo professor.

Não a minha professora de português. Dela eu não tenho medo.

O senhor inspira aquele respeito que me faz querer saber mais sobre o que o senhor escreveu na vida, mas não conhecê-lo pessoalmente, ou tê-lo como parente, porque daria várias broncas daquelas, quando eu fizesse algo que te desagradasse.

Mas continuando, não foi por isso que eu resolvi te escrever. É que esses dias eu emprestei um livro seu, na boblioteca biblioteca da escola: o Dona Flor e Seus Dois Maridos. Foi um fuá. A tia da biblioteca me olhou com uma cara e perguntou se foi minha professora de português que solicitou. Eu disse que não. Então ela disse que só emprestaria com solicitação dela. Aí fui falar com minha professora. Ela me olhou com a mesma cara e disse que só solicitaria o livro com autorização da minha mãe. Lá fui eu pedir pra minha mão mãe, que riu muito, escreveu uma autorização e assinou.

E então eu li seu livro e me lembrei de uma conversa que tive com a minha mãe.

Outro dia conversei  com ela sobre o Rodrigo, um menino da escola que eu amo estou gostando, mas ele não gosta de mim. Eu disse para a minha mãe que ele era o amor da minha vida e eu nunca mais encontraria alguém como ele. E minha mãe ficou com vontade de rir mas se controlou (sempre percebo quando ela faz isso) e me disse que ainda era muito cedo e eu ainda não tinha mator maturidade o suficiente para sequer saber o que era amor, quanto mais saber amar alguém.

Eu devo ter feito uma cara muito confusa, porque ela largou o trabalho dela, se sentou ao meu lado (ela sempre faz isso quando percebe que eu estou em um momento sério) e me disse que há uma diferença muito grande entre se apaixonar por alguém e amar alguém. Disse, primeiro de tudo, que nem um nem outro obriga a pessoa amada a ficar com a gente. E isso já me deixou meio desconfortável.

Depois explicou que a paixão é muito intesa  intensa. Tão intensa que machuca. Se a gente parar para prestar atenção nela, vai perceber que é uma dor no coração e que ela faz com que a gente tenha urgência de estar com a pessoa. E ela tem fim prazo de validade, justamente por ser intensa assim.

Mas o amor não. O amor acomoda o coração. Ele existe e fica ali, mesmo quando não estamos com a pessoa amada. Ele é tão plácido que a gente se acostuma com ele e ele não dói nunca. Ele sabe que a pessoa não é obrigada a amar a gente de volta. A gente aceita o amor e vive, simples assim. E justamente por isso ele vai ser pra sempre.

Ela falou que o amor não impede que a gente se apaixone muitas vezes pela pessoa amada e que a paixão é até importante para esse amor. Mas que ele também não impede que a gente se apaixone por outras pessoas e até ame outras pessoas, depois dele. Só que esse amor vai ficar ali, no cantinho do nosso coração que ele tomou, para sempre. Já a paixão é posess possessiva e quer o espaço todo para ela, portanto sempre que uma nova paixão aparece, a outra é engolida.

Eu parei para prestar atenção no que eu sentia pelo Rodrigo e notei que doía muito. Até pensei que era porque ele não dá a mínima pra mim, mas percebi que na verdade minha paixão fazia questão que ele me quisesse tanto quanto eu quero ele e por isso não é amor. Aí eu até fiquei feliz, sabe? Está doendo agora, mas uma hora essa paixão vai passar. Minha mãe sempre sabe dizer a coisa certa para me tanqui tranquilis tranquilizar.

E aí eu li seu livro e descobri que a Dona Flor teve uma paixão e um amor. E que o senhor foi muito corajoso não só por criar uma história onde uma mulher tem dois amantes (mesmo que um deles seja um espírito) que na sua época deve ter sido um escândalo, mas também por mostrar ao mundo que mulheres precisam tanto de amor, quanto de paixão, como todo mundo. E que só serão felizes e completas se tiverem os dois. (Não que precise ser dois homens diferentes. Vai que a gente acha tudo isso em uma pessoa só, né?)

Mas, assim como a minha mãe explicou tão pacientemente a diferença entre amor e paxão paixão e no começo eu não tinha entendido que a gente pode se apaixonar e amar uma pessoa ao mesmo tempo, as pessoas parecem não saber que as duas coisas podem vir juntas e acham que toda mulher tem que ser feliz com um homem que cuide delas sem desejá-lo loucamente (ou a qualquer outra pessoa.)

Isso explicou a cara que a tia e minha professora fizeram, quando peguei seu livro. Até hoje as pessoas não entenderam isso.

Estou pensando em sentar para conversar com elas e explicar a diferença entre paixão e amor e porque todos nós precisamos das duas coisas para sermos felizes com alguém.

Um abraço da menina do segundo colegial.

6 pensamentos sobre “Carta ao escritor Jorge Amado:

  1. Cartas que não são enviadas. Uma consciência plena de que mulheres são seres com desejos e necessidades que a sociedade não só tolera como cobra somente nos homens e o espírito jovem do colegial. Eu sei que você tem muitos leitores, mas a sensação é que você escreveu pra mim exclusivamente =P

    Ou exclusivamente para cada um, para todos, ao mesmo tempo.

    Mandou bem, parabéns.

  2. Hey Deka!
    Eu acho que nunca comentei um texto seu aqui (embora eu leia sempre). Devo dizer que nas últimas semanas seus textos têm salvado as minhas tardes chatas no trabalho
    Gosto dessas cartas que você publica elas são como posso dizer… joviais inclusive nos errinhos é bem divertido e mostra uma face que os adolescentes de hoje em dia não tem (não, você não é velha inclusive, nasceu no mesmo ano e dia que eu como você deve lembrar)
    Que venham mais postagens! =)

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