Realidade

tumblr_m8bo6wD33t1qhhzigo1_500Havia sido um dia bastante intenso no trabalho.

Precisara convencer o atendimento e o planejamento de que aquela abordagem não era a mais indicada para aquele cliente, em uma reunião que se arrastou por horas. Pelo menos alcançou seu intento e decidiram adotar seu ponto de vista.

Chegou em casa cansada, mas com a sensação de dever cumprido. Embora fosse a quarta vez naquela semana que chegava muito tarde. Deixou o jantar esquentando no microondas enquanto tomava um banho rápido. O mais rápido possível para que pudesse cair logo na cama.

Foi só quando já estava de pijamas, prestes a se deitar, que se lembrou dos sonhos. Por um momento hesitou. Temia deitar e entrar novamente naquela sequência que parecia se continuar a cada noite dormida. Era um sonho muito real. Real demais para ser só sonho. Começava a temer o que poderia haver por trás dele, embora se sentisse uma idiota: sabia que o pior que poderia significar era o seu subconsciente estar lhe enviando uma mensagem que ela ainda não havia captado.

Foi até o espelho e soltou os longos cabelos que lhe caíam pelos ombros e lhe deixavam com um ar sensual. Fazia alguns meses que não os cortava. E alguns anos que os mantinha no mesmo comprimento. Com a correria do trabalho, acabava se esquecendo de coisas básicas como cortar o cabelo de vez em quando. Talvez estivesse na hora de fazer uma mudança. Veria isso, quando tivesse tempo de ir ao cabeleireiro.

Pulou para a cama, apagou a luz do abajur e se deitou caindo no sono quase que imediatamente.

Acordou com o sol entrando pela janela, como se tivesse acabado de pregar os olhos. Não se lembrava de ter chegado tão tarde assim, para dormir tão pouco. Talvez fosse o cansaço que lhe dava essa impressão.

Levantou ajeitando o camisetão já um tanto esgarçado e bocejando com exagero, até chegar à pia do banheiro. Lá encarou o espelho e olhou para o cabelo curtíssimo, que nem lhe cobria as orelhas. Aquele corte lhe caía bem, realçava os seus traços delicados e os belos olhos. O único problema era aquela mania de tingí-lo de vermelho. Cabelos curtos assim pediam manutenção constante, pois crescia rápido. A raiz já estava aparecendo.

Voltou para o quarto para se vestir e foi tomar o café da manhã pensando no estranho sonho da noite anterior. Havia sido um sonho bom. Conseguira convencer umas pessoas de que a sua ideia era a melhor para o cliente da agência. Essa não era a parte estranha. O esquisito é que nunca trabalhara em uma agência e que este sonho era uma continuação perfeita do sonho da noite da anterior e da outra antes dessa. Ele sempre terminava no exato instante em que ia dormir e, quando se deitava no sonho, acordava ali, para a sua vida de sempre.

Sorriu. Pelo menos aquele sonho detalhado estava sendo ótimo para o livro que precisava entregar para a editora dali a dois meses. Ainda não sabia como terminá-lo, já que o próprio sonho não tinha fim: continuava cada vez que se deitava.

Lavou a louça do café, pegou o notebook jogado sobre o sofá da sala, deixou comida para o gato e foi até o café onde costumava escrever.

Lá se sentou e ficou imaginando que fim dar para a sua personagem, que na verdade era ela mesma, porém em uma outra vida. Pensando com mais cuidado, o nível de detalhes era grande demais para ter sido um sonho qualquer. Ela sentia que havia mesmo vivido cada momento daquele dia, da outra ela. Sentia suas emoções, suas frustrações, suas pequenas vitórias. Paquerava o moço da padaria do outro lado da rua. O moço do outro lado da rua! Não costumava ir lá, naquela padaria. Somente no sonho. Será que havia mesmo o tal moço na padaria?

Fechou o notebook e o gardou na mochila, pediu para o atendente ficar de olho na sua mesa, que ela já voltava. Atravessou a rua um tanto ansiosa e rindo do próprio impulso. Até parece que o moço do sonho estaria… Ele estava. Do mesmo jeito que sonhara. Ele sorria do mesmo jeito que sorria no sonho, para a cliente idosa. O cheiro da padaria era o mesmo. Prendeu a respiração por um momento, pois não se lembrava de sentir cheiros em outros sonhos. Mas desse, não só cheirava, como se lembrava do cheiro!

O moço perguntou se ela já havia sido atendida. Agradeceu com um sorriso, disse que desistiu da compra. Voltou ao café, mais confusa do que acordara.

O rapaz existia. Será que era mesmo um sonho? E se acordava aqui, quando dormia no sonho, quem garantia que esta vida que levava era a realidade? Talvez, na verdade, sua vida aqui fosse o sonho da vida de lá…

Sentou-se na mesa um pouco tonta com esses questionamentos filosóficos demais até para ela que era escritora. Estava um pouco difícil de respirar, agora que não tinha muita certeza se estava acordada ou sonhando. Em compensação, teve uma epifania e agora sabia como terminar o seu livro.

Abriu o notebook, pediu um café cheio de firulas, chantillys e caramelos. Sentia que os merecia. Metralhou o teclado durante horas a fio. Almoçou porque o atendente do café a lembrou de que precisava se alimentar, mas não abandonou o trabalho nem por um momento.

tumblr_lky90vymBt1qhk7cjo1_500_largeSabia que no dia seguinte acordaria no sonho, ou em sua outra vida. E precisava saber qual delas era real, então em vez de apenas reproduzir o que se lembrava do sonho, se adiantou e acrescentou um detalhe do futuro: “…e mal havia saído do banho, quando a campainha tocou. Perguntou-se quem seria, aquela hora da manhã. Enrolou-se no roupão e correu a porta, para dar de cara com o menino da floricultura: recebera uma rosa de seu admirador da padaria.”

Deixou escapar um riso nervoso. Talvez isso resolvesse aquele impasse. Escrevera tanto e tão concentrada, que não viu a hora passar: já estava escuro. Pagou sua conta e voltou ao apartamento. No caminho, passou pela floricultura que já fechava as portas, mas conseguiu comprar uma rosa vermelha.

Entrou em casa junto com o gato, que se enroscou em suas pernas. Sentou-se no sofá com notebook em um braço e a rosa no outro. Soltou o notebook e despenteou os cabelos com os dedos, ainda rindo um tanto histérica. Logo iria dormir e saber o que aconteceria.

Antes do banho, abriu o armário de bagunça que todas as casas têm. Lá dentro havia uma caixa que guardava consigo há anos. Lá estavam todos os seus tesouros desde a infância. Abriu a caixa, pousou a rosa sobre os trecos e fechou.

Tomou banho, comeu, vestiu o camisetão já um tanto esgarçado e se deitou, exausta daquele dia estranho.

Acordou como se houvesse acabado de pregar os olhos e se sentou na cama mais confusa do que havia ido dormir. Jogou os longos cabelos para trás, tentando entender onde terminava o sonho e começava a realidade. Precisava de um banho.

Debaixo do chuveiro, se lembrou que guardou a rosa na caixa de tesouros. Se enxugou bem mal enquanto corria para o armário. Abriu a caixa e lá estava o original do livro que havia começado a escrever quando era adolescente e abandonara após ter se formado. A vida tomou outros caminhos e não a deixou terminá-lo.

Claro que o fato de tê-lo escrito em uma máquina de escrever velha da avó contribuíra para que o abandonasse inacabado. Mas aquele sonho estranho finalmente havia lhe dado o final perfeito para a sua história. Decidiu que o terminaria.

Enquanto acariciava amorosamente as páginas um pouco gastas, a campainha tocou. Quem seria aquela hora da manhã?

7 pensamentos sobre “Realidade

  1. Perae, então numa realidade alternativa vc tem cabelos vermelhos longos e escreve numa Starbucks ao invés de disputando espaço sensorial com sua irmã? hahahahaha eu gostaria de conhecer essa dimensão paralela esquizofrência

  2. Um texto um tanto quanto curioso, enigmático. Pensei em algumas possibilidades de resolução ao sonho-realidade da personagem mas decidi deixar a sua verdade mesmo.
    De qualquer forma, outra vez a instigante escrita se fez presente e você levou todos os leitores pra dançar nessa festa onde o tempo é contado pelo tamanho do cabelo da personagem. Foi algo que a srta. deixa claro… ou não.

    Deka, cada vez melhor.

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