O monstro

Tipo-de-Ralo-21Creio que toda desgraça se anuncia de alguma maneira.

Tempestades são precedidas por trovões, os tsunamis, precedidos por recuos no mar, o fim do mundo pelos cavaleiros do apocalipse e o pé-na-bunda, pelo chifre.

Não poderia ser diferente com a maior tragédia de todas: o ralo entupido por fios de cabelo.

Na verdade os sinais são vários e evidentes, como o punhado de cabelos que se ajuntam sobre a grelha ao final de cada banho, o jeito como você puxa o tapetinho de borracha sobre o ralo para não ter que olhar mais para o ninho que está crescendo ali, a forma como tais cabelos simplesmente desaparecem e, já algumas semanas mais tarde, a demora crescente para a água escoar toda a cada banho.

O aterrador aviso derradeiro veio durante o meu banho (lógico!), enquanto minha irmã escovava os dentes na pia. A água empoçada aos meus pés fez um barulho borbulhante. Resultado das bolhas (jura?) que subiram do ralo, sinalizando o último suspiro do espaço livre no cano. Minha irmã parou a escova no ar e em um olhar desesperado, nos encaramos. Toda a cena que se seguiu, pareceu rodar em slow motion.

Eu estiquei os braços em direção à porta do boxe e a Helô soltou a escova de dentes. Na pressa de abrir a porta, meus dedos escorregaram no vidro e fui salva por minha irmã, que abriu a porta me libertando. Corremos para o canto oposto do banheiro e nos encolhemos abraçadas no chão, enquanto a água subia de volta do ralo, trazendo junto uma lama preta e sendo alimentada pela água que caía do chuveiro, ainda ligado.

Nos entreolhamos novamente. Se não desligássemos o chuveiro, aquela eca toda transbordaria até nos alcançar. E é nessas horas que a pilantra se utiliza do ardil mais covarde da história dos irmãos de sangue: “Você vai lá, porque é mais velha e eu tenho nojo. E se não for, eu conto pra Mamy que você deixou cabelo cair dentro do ralo.”

Mamy, no caso, é a nossa mãe.

Emputecida, levantei e dei dois passos até alcançar os limites do box. Me apoiei o máximo que pude na porta de vidro, estiquei o braço o máximo que consegui em direção ao registo e ergui as pontas dos pés o máximo que minha elasticidade permitiu. Alcancei. Mas não sem ter um engulho, imaginando o que aconteceria caso eu tivesse escorregado e caído de cara.

De volta a terreno seguro, eu e Helô começamos a traçar estratégias para limpar aquela caca e eu poder tomar meu banho. Primeira fase: encontrar a culpada.

_Também, você nem pra limpar a merda do ralo quando lava o cabelo, né?

_Fala como se você limpasse.

_Mas meu cabelo é curto. Não faz muita diferença.

_Aham. Curto, mas em vez de queda, tá cometendo suicídio coletivo e se jogando da sua cabeça.

_Ah, sua nojenta!

_Vaca!

_Vadia!

_Qual das vacas ou vadias vai limpar essa porcaria? Se eu tiver que ir aí, não vai sobrar pena sobre pena.

Diante desse argumento indiscutível de nossa meiga e adorável Mamy, decidimos que era melhor que Heloísa trabalhasse na fase 2: ir até à despensa buscar os utensílios de limpeza, enquanto eu me preparava para a fase 3: o trabalho sujo.

Sim, eu sei. Enorme demonstração de heroísmo de desapego à vida de minha parte. Mas vocês vão concordar que com uma irmã fresca como a minha, eu certamente teria de limpar lama preta, ralo e vômito do banheiro.

Helô chega com as ferramentas e, em um último sinal de solidariedade, trouxe luvas amarelas de borracha para proteger minhas mãos. Apoiou as duas mãos nos meus ombros, me encarou com lágrimas nos olhos e disse:

_Você foi a melhor irmã que eu poderia ter. Tuitarei histórias sobre você.

Foi lindo. Eu com um rodo em uma mão, faca descartável na outra e vestindo apenas um par de luvas amarelas, marchando decidida em direção ao ralo do chuveiro. Ao chegar à margem, meu estômago embrulhou e a coragem arrefeceu. Aquilo estava pior do que eu imaginava. O cheiro de esgoto estava começando a subir em bolhas também.

Mergulhei a mão na meleca até encontrar a grelha sob o barro. Senti minha irmã segurar a respiração tensa, atrás de mim, quando enrosquei os dedos na grelha. Puxei e três baratas vieram junto com a tampa do ralo. Gritos (da Heloísa. Eu não tenho medo de baratas.) Baratas para um lado. Heloísa para o outro. Rodo em ação. Três baratas liquidadas. Eu disse que não tenho medo delas. Sou fatal. Na confusão quase liquidei também minha irmã com o rodo, inclusive.

Hora de voltar para o ralo. Olho lá para dentro do abismo negro e vejo aquele embolo de pelos e gosmas não identificadas. Tenho a impressão de que aquilo lateja, como se respirasse. Heloísa corre para a privada, já chamando o hugo.

_Helô, acho que isso tá vivo.

_Não seja dramática. É só uns cabelinhos.

_VEM AQUI TIRAR OS CABELINHOS, ENTÃO, VALENTE!

_Eu iria. Mas fico enjoada. Aí você sabe que ia piorar tudo e você ainda ia ter que limpar do mesmo jeito.

Bufei. Típico. Além de não ajudar, ainda enche o saco. E ao mencionar saco, pensei que até estava feliz em estar limpando o ralo de uma casa onde mulheres são maioria.

Mas voltando para o bolo de cabelo. Estava mesmo vivo. Ele respirava. Estava me olhando. E não estava feliz. Cutuquei com a faquinha descartável. Ele grunhiu.

_Helô, melhor se afastar.

_Por que?

_A coisa vai ficar feia por aqui. Diga à Mamy que a amo.

_MEU DEUS O QUE VOCÊ VAI FAZER?

Com um movimento certeiro, enfiei a faquinha no coração do ralo entupido e o Monstro de Cabelo se ergueu em toda a sua maldade. Soltou aquele bafo de esgoto na minha cara e meus olhos arderam. Ele se enroscou na faquinha, nos meus dedos, nos pulsos e quanto mais eu puxava, mais cabelo parecia brotar de lá de dentro. A luta foi longa e minhas forças já estavam começando a se extinguir. A Helô gritava em pânico. E quando eu achei que não seria mais capaz de resistir, enxerguei uma luz no final daquele túnel capilar: o branco do cano limpo.

_Helô, rápido, traz um saco plástico! Ele está quase sucumbindo!

Enquanto ela corria buscar o saco plástico, eu me esforçava para partir os fios com a faquinha, tentando espalhar o mínimo de sujeira possível pelo banheiro. O cheiro de esgoto já estava quase insuportável, completando o caos da cena de batalha que incluía a lama pelo banheiro todo, vassoura, balde e bucha jazindo inúteis do lado de fora e os corpos das baratas.

A sacola plástica chegou e eu finalmente pude jogar o vilão lá dentro, junto aos punhados de lama e os cadáveres, amarrando tudo muito bem. O cano estava livre e agora seria a hora da fase 4: limpeza geral.

Mas qual não foi nossa surpresa, quando o Monstro de Cabelo começou a dar sinais de vida de dentro do saco plástico, pingando sua baba preta através da sacola, justamente nos pés de quem? Da Heloísa. Ela saiu berrando de nojo, mas não sem antes jogar o saco com vilão e tudo no chão, explodindo o “cárcere” na queda e espalhando aquilo tudo pelo banheiro inteiro.

Suspirei desanimada. Pelo menos agora eu tinha certeza de que o monstro estava morto.

Não vou me alongar mais nos detalhes dessa horrível batalha. Basta a vocês, leitores, saberem que depois de tudo isso tudo o que me restou foi a glória da faxina e o gosto de jogar água sanitária dentro daquele antro de perdição que é o ralo do meu banheiro.

Tudo limpo e no seu devido lugar, minha irmã finalmente cria coragem para voltar ao campo de batalha.

_Estamos seguras?

_Agora estamos, né? Já que eu tive que limpar tudo sozinha, porque você saiu correndo!

E foi nessa hora que eu notei o sorriso amarelo e rebolado incerto de uma má notícia:

_Sabe que é? Eu fiquei enjoada e corri para o seu quarto…

Primeiro eu fiquei incrédula. Depois quis me rebelar, me amotinar, ressuscitar Joana D’Arc e convidá-la para queimar uns sutiãs no quintal. Mas apenas me curvei derrotada à realidade. E espero que vocês também já tenham compreendido o que houve no meu quarto, porque ainda me dói falar sobre isso novamente.

As desgraças sempre são precedidas por um sinal que as anuncia. As minhas, sempre são precedidas por outras desgraças e anunciam novas desgraças em cadeia.

Me despeço, vestindo luvas de borracha.

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6 pensamentos sobre “O monstro

  1. Você é a mais destemida e mais linda guerreira sanitária que eu conheço, que já travou infindáveis batalhas com a nojeira do seu e de outros recintos. Bardos cantarão contos de suas vitórias, mulheres a invejarão fofocas e homens a desejarão através das eras.

    Longa vida a Lady Deka!!!!! VIVA!

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